sábado, 10 de novembro de 2018

Mãe de autista, professora perseguida consegue indenização

Professora da Cooperativa de Professores do Rio Grande do Norte (Escola Freinet) ganhou indenização por danos morais, no valor de R$ 10 mil, devido a perseguição sofrida por ela e pelo filho autista, aluno da escola.

A professora alegou em sua reclamação, que tramitou na 9ª Vara do Trabalho de Natal, ter prestado serviços à cooperativa entre 2003 e 2014. Em 2012, ela teria sido chamada pela direção da escola para uma sabatina sobre o filho.

Na reunião, a vice-presidente da cooperativa teria afirmado que o filho “era um castigo de Deus” e que ele teria que sair da escola, “já que era especial e que a escola ia perder alunos por causa do comportamento dele”

Em 2013 a situação teria piorado, quando ela alegou ter sido “coagida” pelo presidente da instituição a produzir, com alunos, um livro digital, sem qualquer apoio técnico, sob a ameaça de que “ou você faz o livro ou está fora”.

Acrescentando que precisava do emprego, a professora afirma ter atendido a ordem do superior hierárquico e, mesmo sem tempo suficiente e sem recursos financeiros, teria organizado a obra, arcando “com todas as despesas e custos” da confecção.

Em sua defesa, a cooperativa negou qualquer tipo de perseguição ou discriminação, alegando que, como o filho da professora “não desgrudava da mãe, era comum a presença do filho dentro de sala acompanhando os trabalhos dela”.

Devido a isso, outras mães começaram a reclamar aos coordenadores e diretores, porque a professora não estaria dando a atenção devida aos alunos da sala.

A juíza Ana Paula de Carvalho Scolari reconheceu o assédio moral sofrido pela professora, com base em prova testemunhal.

Uma das testemunhas afirmou que as dirigentes da escola tratavam a professora “de forma mais ríspida do que aos outros funcionários” e atribuíam a perda de alunos ao fato do filho dela gritar bastante quando tinha crises em decorrência do alto grau do autismo.

A juíza entendeu que a professora “sofreu dupla discriminação”. A primeira, em virtude de ser mãe de filho autista, “que se comportava de forma diferenciada em relação a outras crianças – e a escola não soube lidar com a situação”.

Para ela, também restou comprovado que a imposição de confecção do livro digital não foi acompanhada do necessário treinamento e aprimoramento.

“Veja que a empresa exigiu da autora esse material sem lhe conceder a correspondente ferramenta de treinamento, se esquivando assim do seu poder diretivo, deixando-a ao alvedrio da própria sorte para lidar com esse meio tecnológico”, destacou Ana Paula Scolari.

“A discriminação, a perseguição e as ofensas acabam por provocar insegurança e vergonha à autora (do processo), uma vez que sua honra é atingida, tanto de forma subjetiva quanto objetiva”, concluiu a juíza, que condenou a cooperativa a indenizar a professora por danos morais.


Fonte: Granadeiro Advogados com o Tribunal Regional do Trabalho 21ª Região Rio Grande do Norte em 29/10/2018.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Jovens da periferia aprovados e reconhecidos por universidades internacionais

Eles conseguiram o que é impossível para a maioria dos mortais: entrar em Oxford, Yale, ser convidado para estudar música na Haute École de Musique de Genéve, na Suiça, participar das maiores olimpíadas internacionais de educação ou fazer valer todas as premiações possíveis num projeto. 

Isso já seria um grande motivo de alegria, não fosse por um detalhe: a falta de condições financeiras para viabilizar a chance conquistada.  Em sua maioria, vindos da periferia ou de famílias com condições socioeconômicas desfavoráveis para bancar os custos de se estudar em outro país, eles não se deixam abater, vão à luta e fazem acontecer com as vaquinhas online.  

A avaliação é fruto de levantamentos do site Vakinha, pioneiro em arrecadações para financiamento coletivo no Brasil e maior plataforma de vaquinhas online do país, que fechou setembro com recorde mensal de arrecadação, somando R$ 5,2 milhões e cerca mais de 22 mil campanhas criadas. 

Crescimento exponencial - Tem chamado a atenção da plataforma de vaquinhas online o aumento significativo das campanhas focadas em educação: em 2016, foram criadas 1.532, chegando a 12.127 em 2017, e até setembro de 2018 já tinham sido criadas quase 10 mil vaquinhas com essa a finalidade. 

Os valores arrecadados  nas  vaquinhas focadas em educação foram R$ 216.118,64, em 2016; saltando para R$ 2.074.259,54, em 2017; e  totalizando  R$ 1.171.975,98 no primeiro semestre de 2018. "O que mais nos orgulha neste tipo de campanha é ver, em um ou dois anos, que a vida da pessoa mudou para melhor e que de alguma forma ajudamos nesta conquista", observa Cristiano Meditsch, diretor de marketing do Vakinha.

Gênio brasileiro - É o caso de Victor Almeida um cearense de 18 anos, com intensa atuação em projetos de educação e a primeira pessoa do estado do Ceará a ganhar medalha de ouro numa olimpíada mundial, em 2017, na Olimpíada Internacional de Física.  

Aprovado para cursar Física na Universidade de Oxford, no Reino Unido, Victor Almeida  busca arrecadar R$ 172.164,00 para cobrir os custos da faculdade.  "Minha família tem uma renda muito limitada, pois temos altos gastos com o tratamento do meu irmão caçula que tem transtorno do espectro autista e tem diversos problemas alimentares", conta em sua página no site Vakinha, onde também manifesta sua intenção de ajudar o Brasil com o conhecimento que adquirir:  https://vakinha.com.br/vaquinha/ajude-victor-a-chegar-em-oxford

Pela igualdade social - Nathália Tavares, do Rio de Janeiro, mestre em Tributação e Finanças, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro-UERJ, bacharel em Direito, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e autora do livro "Desigualdades Sociais Patrimoniais: como a tributação pode reduzi-las?" foi aprovada para fazer o primeiro mestrado do mundo, com abordagem multidisciplinar e global, focado no combate de desigualdades sociais, na  London School of Economics, na Inglaterra, mas não tem condições financeiras para bancar o curso.  "Apenas cerca de 7% das pessoas ao redor do mundo que se candidatam são aceitas nessa universidade", conta a advogada que precisa arrecadar R$ 170.000, para viabilizar seu mestrado. https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-nathalia-a-estudar-na-london-school-of-economics-lse

Administração pública -  Fábio Queiroga, da periferia de São Paulo, que conseguiu bolsa de estudos na Fundação Getúlio Vargas- FGV, para cursar Administração Pública, em 2015, deu mais um salto e foi aprovado em um concorrido programa de intercâmbio em Washington,  nos Estados Unidos, oferecido pelo The Washington Center, ONG  focada em alavancar a carreira de jovens universitários e formar cidadãos globais engajados com as suas comunidades. "Minha família não tem condições financeiras de arcar com essa experiência. Meu pai trabalha como camelô e minha mãe está se recuperando de uma cirurgia. Mas, eu não desisti do meu sonho", diz ele  que busca  conseguir R$ 65.549,58, que pode se tornar maior com a alta do dólar, para custear os serviços de apoio profissional e a moradia na residência estudantil em sua campanha https://vakinha.com.br/vaquinha/fabio-em-washington-dc

Sonhos que deram certo - Entre os casos de sucesso conhecidos do Vakinha estão o do músico Weslei Felix, da periferia de Canoas (RS), que em 2017, então com 18 anos, foi convidado para estudar música na Suíça, mais precisamente na Haute École de Musique de Genéve, onde ganhou uma bolsa de estudo. Fez uma campanha para conseguir R$ 52.435,00 a fim de pagar sua estadia enquanto estivesse por lá. Superou a meta e arrecadou R$ 56.250,00! 

Na suíça há mais de um ano, esteve em visita ao Brasil no mês de setembro, quando deu uma amostra do seu talento para a música e ainda aproveitou para falar como conseguiu realizar seu sonho por meio de uma vaquinha online em um evento na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS.  https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-o-weslei-a-estudar-na-suica

E Rafael Basto, um estudante de 16 anos apaixonado por ciências que, no primeiro semestre de 2017 foi aceito e ganhou uma bolsa parcial na Yale University para participar do Summer Program para fazer pesquisa em Ciências Aplicadas.  Fez uma campanha para arrecadar R$ 15 mil e alcançou R$ 15.300,00. https://www.vakinha.com.br/vaquinha/rafael-em-yale

Sobre o Vakinha: 

Criado em 2009 por empreendedores gaúchos, o Vakinha é a primeira fintech brasileira de crowdfunding. Em 2015 a arrecadação do site foi de R$ 8 milhões, indo para R$ 18 milhões em 2016, fechando 2017 com R$ 37 milhões. O Vakinha foi apontado como uma empresas de crowdfunding para se ter no radar dos investidores na América Latina pelo estudo "Empreendimento Fintech na América Latina", feito pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Finnovista, organização que fomenta o desenvolvimento de fintechs. O estudo identificou 703 empreendimentos em 15 países, com uma oferta de soluções que inclui todos os segmentos e tecnologias observados a nível global.


Fonte: Vakinha em 25/10/2018.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

MEC libera R$ 21,73 milhões para universidades e institutos federais do Rio de Janeiro

O Ministério da Educação repassou, no início da semana, recursos financeiros na ordem de R$ 21,73 milhões às instituições federais de ensino vinculadas à pasta no estado do Rio de Janeiro. O valor será aplicado na manutenção, custeio e pagamento de assistência estudantil, entre outros serviços.

No total, o MEC repassou R$ 190,54 milhões para todo o país. A maior parte dos valores, R$ 128,77 milhões, será destinada às universidades federais, incluindo repasses para hospitais universitários. Já a rede federal de educação profissional, científica e tecnológica receberá R$ 59,34 milhões. O restante, R$ 2,43 milhões, será repassado ao Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), ao Instituto Benjamin Constant (IBC) e à Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

Este ano, o MEC autorizou o repasse de R$ 5,91 bilhões para as instituições federais vinculadas à pasta, incluindo o que foi destinado ao pagamento de despesas das universidades e institutos federais, do Ines, do IBC e da Fundaj.


Fonte: Assessoria de Comunicação Social do MEC em 17/10/2018.

domingo, 4 de novembro de 2018

Comando de caça aos professores universitários

Um membro do Movimento Brasil Livre, MBL, Luís Felipe Nunes, da Paraíba, se indignou com o evento “UFCG contra o fascismo e pela democracia”, previsto para acontecer ontem na Universidade Federal de Campina Grande. “Apesar do nome bonito, está claro que se trata de um evento pró-PT”, ele postou no Facebook, ao contar que havia feito a denúncia ao Tribunal Regional Eleitoral de seu estado.

Deu certo. Em uma decisão assinada pelo juiz eleitoral Horácio Ferreira de Melo Júnior, a justiça expediu um mandado de busca e apreensão para a polícia apreender materiais pró Fernando Haddad na Associação dos Docentes da Universidade Federal de Campina Grande. Mais especificamente, Júnior pediu que os policiais entrassem na universidade pública para apreender os panfletos chamados “manifesto em defesa da democracia e da universidade pública”, assinados pelo sindicato dos professores.
Segundo os professores da universidade, os policiais revistaram o espaço da Adufcg “minuciosamente” a portas fechadas e apreenderam, além do manifesto, também cinco HDs externos usados pelos profissionais.
Em texto e vídeo publicados em seu perfil no Facebook, o denunciante do MBL se concentrou no fato da ação, classificada por ele como “petista”, ter sido realizada em uma instituição pública e por “professores e funcionários cujos salários são pagos por nosso dinheiro”. O MBL da Paraíba noticiou que a polícia havia desmontado um “comitê do PT” – embora o material apreendido não fizesse qualquer menção a Haddad.
O caso não é o único. Um levantamento inédito feito pelo Intercept revela que, desde 2011, pelo menos 181 professores universitários se tornaram alvo de ações como fiscalização de aulas, censura, investigações criminais, conduções coercitivas, ações judiciais, sindicâncias, demissões, perseguições, exposição na internet até ameaças de morte. Foram 12 ocorrências em instituições particulares, 54 em estaduais e 115 em federais envolvendo 101 homens e 80 mulheres. Com as eleições, no entanto, a perseguição atingiu outro patamar.
Em uma ação aparentemente orquestrada, pelo menos outras 20 universidades passaram por situações parecidas nesta quinta-feira – a justiça eleitoral, em conjunto com a polícia, determinou a apreensão de materiais supostamente ligados à campanha eleitoral,ainda que não mencionassem partidos, siglas ou candidatos.
Na Universidade Federal Fluminense, fiscais do Tribunal Regional Eleitoral e policiais sem mandado retiraram a faixa “Direito UFF Antifascista” da fachada da faculdade, alegando se tratar de propaganda política. Também no Rio de Janeiro, uma viatura com dois PMs chegou à Universidade Estadual do Rio de Janeiro e ordenou a retirada das faixas em homenagem a vereadora Marielle Franco, assassinada em março, e a Luiz Paulo da Cruz Nunes, morto há 50 anos pela durante a ditadura e símbolo da luta estudantil no Brasil. Segundo os estudantes, nesse caso também não havia mandado e o comandante do batalhão ao qual os policiais pertencem sequer sabia da ação dos PMs. As faixas permanecem no prédio.
As ações ainda incluíram salas de aula fiscalizadas (na Universidade Estadual da Paraíba, por exemplo) e censura em notas de defesa da democracia – a Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais, foi obrigada a retirar o informe de seu site oficial. Estudantes também foram impedidos de realizar atividades. Nos diretórios estudantis da Universidade Federal da Fronteira Sul, em Santa Catarina, e da Federal de Dourados, no Mato Grosso do Sul, discussões sobre o fascismo foram suspensas. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o evento “Contra o fascismo. Pela democracia”, que teria a participação de Guilherme Boulos (PSOL) e Tarso Genro (PT), foi transferido para fora da universidade após um pedido do deputado Jerônimo Goergen (PP) e do recém-eleito deputado federal Marcel van Hattem, do Novo, também fundador do MBL.
A ação simultânea e a semelhança entre os casos desta semana sugerem que houve uma coordenação entre elas. Não seria exatamente uma novidade: desde 2011, pelo menos, professores e estudantes são perseguidos e denunciados em universidades brasileiras por seu alinhamento classificado como “esquerdista” por denunciantes. No último ano, no entanto, o cenário piorou muito.
Em geral, as acusações partem de diferentes fontes. Há ações protocoladas por deputados e vereadores, denúncias anônimas e exposição de professores na internet por movimentos como o MBL e outros formadores de opinião da direita que caçam casos de “doutrinação esquerdista” nas universidades, na esteira do que prega o movimento Escola Sem Partido.
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, entidade que reúne pesquisadores e professores brasileiros, já havia alertado, em agosto, sobre o que chamou de “processo de criminalização da ciência”.
Segundo a entidade, o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 intensificou a perseguição ideológica a qualquer ato classificado pelos denunciantes como de “esquerda”. “O momento de ruptura democrática deixa marcas nocivas para o desenvolvimento do conhecimento científico”, diz o documento do último encontro da organização, que aconteceu em julho. A censura e a inibição do pensamento crítico são duas delas.

Universidade sem partido de esquerda

Em março, o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior criou a Comissão Especial de Combate à Criminalização e Perseguição a Docentes. Hoje eles acompanham três casos: na Universidade Federal do Pampa, no Rio Grande do Sul, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e outro na Universidade Federal do Ceará. “A maioria mira professores que questionam o que está estabelecido pela ordem hegemônica”, diz Eblin Farage, presidente do sindicato e professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense.
ara os pesquisadores que acompanham esses casos, a situação brasileira lembra o clima de perseguição à esquerda que caracterizou o macarthismo nos EUA na década de 1950. “Não são casos isolados”, diz Luis Felipe Miguel, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, a UnB. “É um ambiente social que tenta impedir agressivamente a expressão de visões políticas, o exercício do pensamento crítico, com agentes dos três poderes coniventes com essas tentativas de silenciamento.”
As mobilizações conservadoras – orientadas por iniciativas como o Escola sem Partido –, não se restringem às universidades, acusadas de formar “doutrinadores”, e atingem desde a educação básica. “A consequência mais nefasta não é só para escolas ou universidades, mas a incorporação de um discurso contra o pensamento científico e crítico na sociedade”, diz Fernando Penna, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense. É a caça às bruxas.

Golpe: não pode

Em fevereiro, o cientista político Luis Felipe Miguel anunciou a disciplina “O Golpe de 2016 e o Futuro da Democracia no Brasil” na UnB. A proposta saltou aos olhos do ministro da educação de Temer, Mendonça Filho, que pediu uma investigação para apurar, segundo suas palavras, se a universidade poderia promover uma disciplina que defende “uma tese de um partido político”.
O pedido repercutiu negativamente e o ministério recuou. A ideia do curso, no entanto, se multiplicou: mais de 30 universidades ofereceram propostas similares em solidariedade às pressões sofridas por Miguel.
A reação foi na mesma medida. Quase metade dos 181 casos de perseguição contabilizados se referem aos cursos sobre o golpe – são, no total, 89 ocorrências.
Na UnB, o curso não teve tumulto. Mas, na federal da Bahia, o historiador Carlos Zacarias, responsável pela disciplina, e o reitor João Carlos Salles Pires da Silva foram intimados a depor. Na federal do Rio Grande do Sul, o curso foi objeto de uma ação, mais uma vez, do deputado Marcel van Hatten. O caso terminou arquivado pelo Ministério Público Federal, que não viu fundamento nas acusações de irregularidades e violações de direitos fundamentais no curso.
Na estadual do Mato Grosso do Sul, porém, a Justiça decidiu suspender a disciplina, que havia sido organizada pelo professor Alessandro Martins Prado, coordenador da pós-graduação em Direitos Humanos da faculdade. Na Universidade de Campinas, o MPF abriu inquérito civil para apurar a “legitimidade” de um seminário sobre o tema, que contou com a participação de 35 professores além de uma conferência de encerramento de Miguel.
“Na letra da lei, não há nada que impeça uma disciplina como esta, ou um núcleo marxista, ou um estudo de gênero. Estamos protegidos pela autonomia universitária, liberdade de cátedra, liberdade de expressão”, defende o professor.

Lula e MST: também não pode

Em abril, um auditório da Universidade Federal do ABC abrigou o lançamento do livro A Verdade Vencerá, fruto de uma longa entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos jornalistas Maria Inês Nassif, Juca Kfouri e Gilberto Maringoni. Professor do Departamento de Relações Internacionais, Maringoni organizou o lançamento no campus de São Bernardo do Campo, em São Paulo.
A corregedoria da universidade recebeu uma denúncia anônima de atividade política na faculdade, instaurando uma comissão de sindicância investigativa no dia 13 de julho.
Surpreso pelos questionamentos, Maringoni considera a sindicância “surreal”. “Abriu-se uma absurda ação persecutória, uma evidente tentativa de censura”, diz. Entre as questões encaminhadas por e-mail, os organizadores foram acusados de apologia ao crime, manifestações de apoio a Lula e partidos de esquerda por servidores em horário de serviço – e manifestações de desapreço contra Temer e o poder judiciário.
Na interpretação do professor, movimentos de extrema direita estão recorrendo a “subterfúgios” para intimidar acadêmicos. “Há casos com argumentos mais ‘sofisticados’ para perseguir professores. Na UFABC, eles rasgaram a fantasia e saíram do armário mostrando a extrema direita fascista e tosca que são. Tomamos a iniciativa de expor o caso, pois é importante para mostrar o clima de intimidação e terror que apela a argumentos ridículos”, afirma. A universidade diz que está apurando o caso.
Script semelhante aconteceu em Piracicaba, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, em abril de 2017.
Seguindo o modelo de anos anteriores, a 4a Jornada Universitária em Defesa à Reforma Agrária previa uma oficina com construção de barracos e conversa com integrantes do movimento sem-terra sobre o cotidiano de um assentamento agroecológico. Boatos não demoraram a pipocar nas redes sociais, alastrando rumores de invasão da tradicional ESALQ-USP pelo MST.
Após denúncia anônima, a diretoria da faculdade instaurou sindicância para apurar se a atividade tinha autorização para uso do gramado do campus. Professor da casa e organizador da jornada, o biólogo Marcos Sorrentino foi convocado a prestar esclarecimentos.
Sorrentino define o processo como “triagem ideológica”. Procurada pela reportagem, a direção da ESALQ não disponibilizou os documentos da comissão. A Procuradoria Geral da USP ressaltou o caráter sigiloso da sindicância. Segundo Sorrentino, o parecer final da comissão não lhe foi informado. “Se souber, você me avisa.”

Gênero: palavra maldita

A palavra-chave “gênero” também tem provocado tumultos dentro das universidades. A cientista social Maíra Kubík Mano, professora da Federal da Bahia, recebeu ameaças de morte após conceder entrevista sobre o assunto: ela virou meme, tachada de “marxista radical” e defensora da “ideologia de gênero” na internet.
A antropóloga da UnB Débora Diniz recebeu ameaças de morte e foi incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, a pedido do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. A historiadora Marlene de Fáveri, coordenadora do Laboratório de Estudos de Gênero da Universidade do Estado de Santa Catarina, foi acusada de “doutrinação ideológica” e processada por uma ex-aluna antifeminista.
A “ideologia de gênero” é um dos principais motores do Escola Sem Partido. No levantamento da reportagem, no mínimo 10 casos estão diretamente relacionados a estudos de gênero.

Marx: causa demissão

Tradutor do alemão para o português de livros como A Ideologia Alemã e Manifesto Comunista, de Karl Marx, o cientista político Luciano Cavini Martorano foi exonerado da Universidade Federal de Alfenas, em Minas Gerais, acusado de “desídia” no desempenho de suas funções – “desídia” pode se referir a negligência, má vontade, impontualidade, entre outros.
Professor da instituição desde 2013, Martorano manifestou interesse em realizar pós-doutorado na Universidade de Frankfurt, inicialmente projetado para o período de janeiro de 2017 a dezembro de 2018, afastando-se temporariamente de suas atividades acadêmicas. Entretanto, por uma série de protocolos e prazos, o docente não teve o afastamento aprovado.
Durante os pedidos, Martorano “descobriu” que era alvo de processo administrativo disciplinar. Na verdade, dois processos: protocolados em 2017, mas referentes a 2014, quando o professor passou férias na Alemanha, mantendo suas atividades acadêmicas, e não informou à universidade. O docente propôs três termos de ajustamento de conduta, conforme previsto em lei. Os três foram negados.
No dia 22 de junho deste ano, a reitoria autorizou o afastamento de Martorano para realizar o estágio de seu pós-doutorado na Universidade de Frankfurt, entre julho e dezembro. No dia 6 de julho, porém, a Federal de Alfenas publicou nova nota no Diário Oficial, informando a demissão do docente.
Procurada pela reportagem, a reitoria afirma que o processo administrativo disciplinar está sob sigilo. A reitoria considera que o direito de defesa do professor foi garantido. “Nossa universidade preza pela pluralidade de ideias e concepções pedagógicas, valoriza as diferenças e a diversidade de posicionamentos políticos. O conhecimento do processo permite compreender que a abertura da investigação, o seu desenvolvimento e a consequente aplicação da penalidade não tiveram qualquer tipo de perseguição, seja política ou de outra natureza”, diz a nota à reportagem.
Martorano diz não ter recebido advertências anteriores ou outras penalidades disciplinares, sendo encaminhado diretamente à última consequência, a demissão. “É assustadora a movimentação de perseguições político-ideológicas dentro das universidades que, no limite, se relacionam com a defesa da democracia. Como chegamos a esse ponto?”
Fonte: The Intercept Brasil em 26/10/2018.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O que esperar de Jair Bolsonaro na Educação?

Em seu plano de governo, o candidato eleito para a presidência Jair Bolsonaro (PSL) diz que Educação Básica, da Educação Infantil ao Ensino Médio, será prioridade. Bolsonaro chegou a afirmar em entrevista que é possível fazer mais com os atuais recursos. Mas embora seja enfático em algumas propostas, o plano de governo não é muito claro em como muitas dessas políticas vão acontecer, na prática. Para Gabriela Moriconi, pesquisadora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas, ainda é cedo para fazer previsões mais concretas. “O plano de governo reúne algumas propostas muito resumidas ou que, por diversas vezes, só aponta alguns temas como relevantes, mas não indica quais seriam as soluções propostas para lidar com eles”, diz Gabriela. A falta de clareza dessas propostas estaria ligada à não participação de Bolsonaro nos debates sobre Educação – e sua consequente falta de discussão e aprofundamento.

Apesar da falta de informações, Gabriela acredita que o foco das ações propostas não condiz com os principais desafios da Educação brasileira: acesso à Educação infantil, melhoria da alfabetização, permanência e conclusão do Ensino Médio e melhoria da carreira docente. “A única menção à Educação Infantil no plano de governo é a necessidade de inverter a pirâmide colocando maior esforço na Educação Básica [em relação à Superior]”. Além disso, a especialista lembra que dois dos temas mais debatidos nas políticas educacionais nos últimos anos acabaram ficando de escanteio. Se por um lado há apenas a indicação de mudanças na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) sem especificá-las, não há nem sequer citações da reforma do Ensino Médio.

As urgências educacionais

É justamente no detalhamento do programa de governo que os educadores devem estar bem atentos – para cobrar a transparência necessária. Sobre Educação a distância, por exemplo, ele defende que deve ser encarada como uma alternativa e não vetada de forma dogmática. “Deve ser considerada como alternativa para as áreas rurais onde as grandes distâncias dificultam ou impedem aulas presenciais”, diz o plano de governo.

Cláudia Costin, coordenadora do Centro de Excelência e Inovação de Políticas Educacionais (CEIPE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-diretora do Banco Mundial, acredita que nem tudo o que foi discurso vai virar prática. “O programa é menos radical do que as falas. No programa, ele fala sobre distâncias geográficas, mas nas falas ele menciona usar EaD desde o Ensino Fundamental”, lembra.


Para ela, adotar ensino a distância no Fundamental é um equívoco. “Espero que isso tenha sido mais uma forma de falar do que uma política pública a ser implementada porque algumas competências socioemocionais não são passíveis de serem desenvolvidas a distância com crianças pequenas. Boa parte do que aprendemos na escola se dá na interação com outras crianças e jovens”, defende.

A própria menção a Paulo Freire, que, segundo o programa do candidato eleito, deveria ser expurgado das escolas, não consegue ter aplicações práticas. “Paulo Freire não está presente na BNCC. Além disso, o que ele preconiza é aceito no mundo inteiro. Estive em Cingapura, primeiro lugar no Pisa, e eles citaram Paulo Freire como alguém que inspira o país a buscar as aspirações educacionais que desejam”, diz Cláudia.


O plano de Bolsonaro para Educação enfatiza que conteúdo e método sejam mudados. “Mais Matemática, Ciências e Português, sem doutrinação e sexualização precoce”, diz. 


Para os especialistas ouvidos por NOVA ESCOLA, é importante esclarecer o que o novo governo define como “doutrinação”. “São dois milhões de professores, mais de 180 mil escolas públicas nesse país, 45 milhões de matrículas, então é muita gente envolvida. Nós precisamos entender o que é doutrinação na visão dele, qual será o papel do Escola sem Partido, ou seja, questionar e entender o que se pretende fazer”, diz Cleuza Repulho, especialista do Programa Formar e ex-presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).

O foco excessivo no tema – o plano de governo coloca a “forte doutrinação” como “um dos maiores males atuais” –, causa preocupação nos especialistas. “O principal foco do novo presidente na área é um tema para o qual não há nem um acordo acerca de sua definição”, aponta Gabriela. Diante disso, ela acredita que não seria possível contar com diagnósticos confiáveis sobre esse fenômeno nas escolas brasileiras. “Não sabemos qual a sua incidência, onde se concentra, como ocorre, como afeta os alunos... Portanto, nem sabemos se é ou não um desafio prioritário para o país”. 


Em artigo publicado no site de NOVA ESCOLA, Ernesto Faria, do Iede, reforça a necessidade de esclarecimento e diálogo. “O fim da doutrinação sinalizada pelo presidente não pode representar um ataque aos direitos humanos ou ao desenvolvimento moral, social e cognitivo dos alunos”, defende. Para ele, temas como gravidez na adolescência, respeito a todas as etnias e o livre direito à expressão devem ser abordados desde cedo para que se possa garantir um maior controle social. 


A consequência da aprovação de um projeto como o “Escola sem Partido” (PL 7180/14), por exemplo, poderia ser, na visão de Gabriela, muito tempo dedicado a conflitos entre os educadores, alunos e familiares. “Corremos o risco de ter uma dupla perda: uma piora na qualidade das relações na comunidade escolar e ainda reduzir o tempo que é voltado para aspectos primordiais, como a aprendizagem dos alunos”, afirma.


Cláudia Costin também critica o crescente discurso de controle. “É lógico que a verdade do professor não deveria existir como verdade absoluta. Mas é muito importante que o professor ensine seus alunos a pensar, como já fazem a maior parte dos professores”, defende a educadora. Com relação às denúncias de possíveis casos de “doutrinação”, Cláudia se preocupa com os fóruns em que elas serão julgadas. “Quem entende de Educação para interpretar se um professor está fazendo uso da livre expressão de seu pensamento de uma maneira educativa? Não é proibido o professor dizer o que pensa do mundo, e ouvir a maneira de pensar de seus próprios alunos. Não vejo com bons olhos uma ação policialesca, e muito menos exercida por pessoas que não são da área, que não entendem o processo educacional”, argumenta.


Cláudia ainda levanta um ponto de alerta: a defesa do fim da “aprovação automática”. “Isso é um ponto curioso, porque o Brasil tem índices de reprovação muito altos”, reflete. “Aprovação automática” é a maneira como ficou conhecida a política pública de progressão continuada. “Isso é uma questão de entender que não é bom passar o aluno que não aprende, nem reprova-lo porque não aprendeu. O ideal é incentivar metodologias de ensino que fazem com que todos aprendam, e melhorar a formação dos professores para isso”, diz.

Para ficar de olho

Para além do que está no plano de governo de Bolsonaro, os especialistas indicam a necessidade de acompanhar as pautas estratégicas da área. “Precisamos olhar para políticas de livro didático, transporte escolar, merenda, piso nacional do Magistério e entender como é que elas vão acontecer a partir de 1° de janeiro de 2019”, afirma Cleuza Repulho.

A manutenção do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) também deve ser uma questão importante para que os educadores acompanhem de perto, já que dele depende a manutenção do sistema de Educação no país. Da mesma forma, as possíveis mudanças no Ministério da Educação também devem ficar no radar dos educadores. “Precisamos acompanhar se vai juntar mesmo Educação, Cultura e Esporte em um único ministério”, exemplifica Cleuza. E, se a falta de clareza das propostas ainda não permite traçar um cenário futuro para a Educação, faz-se necessário acompanhar como essas propostas vão se desenhar e colaborar para o debate.
Fonte: Site Nova Escola em 29/10/2018.

sábado, 27 de outubro de 2018

USP e UFSCar pesquisam como a inteligência artificial pode otimizar o desenvolvimento de vidros

Uma parceria científica bem-sucedida está acontecendo no interior do Estado de São Paulo com a união de conhecimentos entre pesquisadores que estudam materiais vítreos e os que atuam na área de inteligência artificial. Os primeiros resultados geraram um artigo, publicado na última edição de uma das principais revistas da área de Engenharia de Materiais, a Acta Materialia. 

Segundo os pesquisadores, o artigo é o primeiro do mundo que aborda o emprego de uma das técnicas de inteligência artificial, as redes neurais artificias, para prever a temperatura de transição vítrea em vidros, especificamente vidros inorgânicos não metálicos. É também o terceiro artigo que fala sobre o emprego de redes neurais para estudar materiais vídeos. Intitulado Predicting glass transition temperatures using neural networks, o trabalho é assinado por três pesquisadores: Edgar Dutra Zanotto, docente do Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); André de Carvalho, professor e vice-diretor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos; e Daniel Roberto Cassar, pós-doutorando do Laboratório de Materiais Vítreos da UFSCar. 

Para entender a relevância desse artigo, é preciso compreender que as redes neurais artificiais são técnicas computacionais que apresentam um modelo matemático inspirado na estrutura neural de organismos inteligentes, os quais adquirem conhecimento por meio da experiência. Por isso, os especialistas da área de computação precisam inserir vários dados nessas redes e treiná-las para que possam realizar a tarefa que é esperada. 

Mas antes de explicar como essas redes neurais podem ser fundamentais para otimizar o desenvolvimento de novos materiais vítreos, é necessário entender também como os materiais vítreos são desenvolvidos. 

Como nascem os vidros – Os vidros podem ser obtidos a partir de composições incluindo quase todos os elementos químicos da tabela periódica, que geralmente passam por um processo de aquecimento e fusão e, depois, de resfriamento rápido. Como há uma vasta possibilidade de fazer diferentes composições químicas, os materiais vítreos que surgem desses processos também possuem uma grande variação em suas propriedades mecânicas, óticas, térmicas, elétricas e químicas. É por isso que os vidros podem ser utilizados em inúmeras aplicações. 

No entanto, esse universo abrangente gera também grandes desafios. Os especialistas estimam que existam 10 elevado a 52 composições vítreas possíveis e, até hoje, apenas 10 elevado a 5 vidros foram, de fato, produzidos nos laboratórios e indústrias de todo o mundo. Esses números dão a dimensão do quanto essa área ainda precisa ser pesquisada. "Do jeito que fazemos hoje, que apelidamos de mix and get lucky – misturar e ter a sorte de encontrar uma composição com novas propriedades –, é impossível chegarmos até 10 elevado a 52, mesmo se todos os habitantes da Terra fizerem um vidro diferente todos os dias durante milhares de séculos. Além da escala temporal, há também a questão econômica", explica Edgar Dutra Zanotto, que é diretor do Centro de Pesquisa, Tecnologia e Educação em Materiais Vítreos (CeRTEV), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 

Diante desse desafio, há cerca de dois anos o pesquisador começou a pensar em utilizar ferramentas computacionais da área de inteligência artificial, incluindo as redes neurais artificiais, para facilitar a busca por desenvolver novos materiais vítreos. Naquele momento, Zanotto não sabia se a ideia poderia dar certo, pois não tinha nenhuma experiência prévia em inteligência artificial. Foi a partir de uma conversa com o pós-doutorando Daniel Roberto Cassar, do Laboratório de Materiais Vítreos (LaMaV) – também coordenado por Zanotto e parte do CeRTeV –, que a situação mudou. 

Como nasceu a parceria – Interessado pela temática, o pós-doutorando fez um curso na área de inteligência artificial e começou a redigir um manuscrito junto com Zanotto, mas havia várias dúvidas e eles resolveram buscar a ajuda dos especialistas no assunto. Então, há cerca de um ano, juntou-se ao time o professor André de Carvalho, que também é membro de um Cepid, o Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), que é sediado no ICMC. 

Com a parceria, os três pesquisadores conseguiram construir uma rede neural para prever a temperatura de transição vítrea de diferentes composições. Ou seja, essa ferramenta de inteligência artificial faz uma previsão do que vai acontecer quando vários elementos químicos são misturados bem como identifica o intervalo de temperatura em que essa composição passará por processos de transformação que gerarão um novo material vítreo. "Mesmo os profissionais mais experientes só conseguem estimar propriedades para misturas com até cinco ou seis elementos. Com mais componentes, eles interagem e as estimativas tornam-se muito complexas. Com essas redes inteligentes, poderemos desenvolver vidros sequer imaginados, com propriedades e aplicações exóticas. Vidros contendo até 10 elementos são relativamente comuns, mas há um universo a ser explorado: composições com 15 a 80 elementos, inacessíveis empiricamente. Trata-se de uma transformação radical", diz Zanotto. 

No artigo Predicting glass transition temperatures using neural networks, os três pesquisadores usaram 55 mil composições – obtidas em bases de dados com registros depositados durante mais de 50 anos – para treinar a rede neural. "Essas redes precisam de muitos dados de boa qualidade para aprender corretamente. Quanto mais dados, mais capacidade de generalização, e este foi outro grande esforço que precisamos fazer: extrair todos esses dados, treinar e validar a rede com eles", explica o diretor do CeRTEv. 

Hoje, o pioneiro Daniel Cassar já não é mais o único pesquisador a trabalhar com as redes neurais no grupo coordenado por Zanotto. Dois anos após a conversa inicial, já há um trabalho de conclusão de curso finalizado e outro em andamento, uma pesquisa de mestrado em andamento e um segundo pesquisador de pós-doutorado. Além disso, sob a orientação do professor André de Carvalho, no ICMC, estão sendo realizadas mais duas pesquisas de doutorado e outras duas de pós-doutorado. 

"Para nós, a rede é um produto, uma ferramenta para as nossas pesquisas em engenharia de materiais. Para o grupo do André, elas são o objeto de pesquisa, e eles já estão, por exemplo, estudando qual o melhor algoritmo para resolver um mesmo problema", conta Zanotto. "Já temos algumas redes treinadas, envolvendo diferentes propriedades de vidros, e uma pesquisa que é anterior às próprias redes, relacionada ao tratamento dos dados para que não sejam inseridos registros com erro no treinamento da rede. É espetacular o avanço em pouco mais de um ano. Estamos animados, cada nova propriedade, cada pesquisa abre um novo horizonte, é um tema infinitamente amplo, moderno e relevante", avalia. 

As atividades desenvolvidas também envolvem a frente da inovação, com a construção de softwares que permitam o uso das redes desenvolvidas por outros grupos na academia e na indústria. A partir da primeira rede desenvolvida por Cassar, o primeiro programa já está em desenvolvimento, em uma parceria com a empresa júnior de Computação da UFSCar (CATI Jr.). Nele, será possível inserir uma determinada composição química inorgânica, não-metálica, e prever a sua temperatura de transição vítrea. "Esta é uma aplicação com interesse principalmente científico. Mas, no futuro, quando unirmos as redes relacionadas às diferentes propriedades, poderemos ter a aplicação inversa, com uma relevância muito grande para a indústria. Com essas redes inversas, será possível dizer ao software quais propriedades são desejadas, e ele sugerirá algumas composições com maior probabilidade de apresentar essas propriedades", finaliza Zanotto. 


Texto editado pela Assessoria de Comunicação do ICMC a partir de informações da Coordenadoria de Comunicação Social da UFSCar 

Mais informações 
Link para o artigo: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1359645418306542
Assista à reportagem em vídeo do CeMEAI: icmc.usp.br/e/2031d
Assessoria de Comunicação do ICMC: (16) 3373.9666 
E-mail: comunica@icmc.usp.br

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Brasil não precisa ficar rico para dar salto de qualidade na educação

Considerado uma das maiores autoridades no tema, o físico alemão de 54 anos é o idealizador do Pisa, o exame internacional aplicado pela OCDE a estudantes de 15 anos de 75 países, que se tornou o principal parâmetro para medir qualidade de ensino no mundo.
Em entrevista à BBC News Brasil, Schleicher diz que, mesmo num cenário de dificuldades fiscais e alta taxa de desemprego, o caminho para o desenvolvimento brasileiro precisará passar, inevitavelmente, pela educação.
"O Brasil não precisa esperar ter mais recursos. Aliás, se o Brasil não investir em educação, não se tornará um país rico. A Coreia do Sul era muito mais pobre que o Brasil nos anos 60 e usou todos os últimos recursos que tinha em educação. E foi isso que fez com que se tornasse um país rico", afirma.
Segundo ele, qualidade da educação num país não tem a ver com o nível de riqueza, mas sim com o investimento inteligente dos recursos de que dispõe.
"As pessoas dizem: 'O Brasil é um país pobre e precisa ficar rico antes de alcançar uma boa educação.' E isso não é verdade. Você pode ver países como o Vietnã, onde os mais pobres vão tão bem quanto os ricos no Brasil."
O diretor da OCDE critica o que chama de "investimentos desproporcionais" do governo brasileiro no ensino superior, em comparação com os gastos com ensino fundamental. Uma estratégia que, segundo ele, "cimenta desigualdades".
Mas vê como um grande feito do Brasil o fato de ter conseguido incluir a população na escola, na década de 90 e nos anos 2000, sem piorar resultados durante o processo.
Schleicher defende ainda que, em um país desigual em oportunidades como o Brasil, é importante direcionar investimentos públicos para quem mais precisa.
"É preciso alocar recursos onde eles realmente farão a diferença, ou seja, nas escolas e em pessoas em situação de desvantagem econômica e social. Se você vem de uma família rica, escolaridade pode não fazer toda a diferença na sua vida. Mas se você vem de uma família pobre, a escola pode ser sua única chance na vida. Se você perder esse barco, não haverá outra oportunidade."
Leia os principais trechos da entrevista, que faz parte de uma série de reportagens da BBC News Brasil sobre as lições que o mundo oferece à educação no país:
BBC News Brasil - Quais os pontos mais vulneráveis do sistema educacional brasileiro?
Andreas Schleicher - Eu não tenho uma postura crítica ao Brasil. O Brasil conseguiu expandir o seu sistema de ensino e, pelo menos, manter o nível dos resultados de aprendizado. Isso é raro. Muitos países que expandiram o acesso perderam qualidade. Mas claro que é um passo inicial e há muitos desafios pela frente.
O Brasil, por exemplo, investe de forma bem desproporcional em alunos universitários, ou seja, aqueles que sobreviveram ao sistema educacional ganham muitos fundos públicos. E, nos primeiros anos de escola, o investimento é bem modesto. Eu não acho que dinheiro seja tudo, mas é um ponto de partida.
Os países que vão bem focam em fatores que influenciam na qualidade dos professores, e esses profissionais cumprem um papel mais relevante no sistema educacional, para além da transferência de conhecimento aos alunos. Os professores no Brasil não têm uma verdadeira carreira e também não há uma variedade de oportunidades para os alunos. Tudo é muito centrado em universidade. Você não tem muita alternativa.
BBC News Brasil - No contexto brasileiro, em que é preciso educar e empregar os jovens? Seria recomendável investir mais em educação técnica?
Schleicher - É importante garantir variedade de formas de aprendizado, possibilitar o aprendizado de maneira mais prática e menos teórica. No momento, todo o foco está nas universidades, como se esse fosse o único caminho para o sucesso. E todos se digladiam para chegar lá. Se não conseguem em universidades públicas, vão para instituição privadas - algumas com qualidade questionável.
Muitos países ofereceram uma gama mais variada de opções de formação com alta qualidade. Imagino que muitas pessoas no Brasil não considerariam uma educação profissionalizante como primeira opção, porque ela não tem o mesmo nível de prestígio.
É diferente da Suíça e da Alemanha, onde esse tipo de qualificação tem o mesmo prestígio que a universitária, o que faz com que essas opções se tornem atrativas para os jovens. Em geral, as pessoas aprendem de maneiras diferentes e o sistema de ensino tem de ser capaz de criar essa diversidade. Professores em sala têm de abraçar técnicas pedagógicas variadas, mas também oferecer caminhos diferentes para os alunos.
BBC News Brasil - Então, a universidade não deve ser encarada como o melhor caminho para o desenvolvimento, e não deve ser prioridade em termos de investimentos públicos?
Schleicher - Com certeza, não. Não é bom para as pessoas e não é bom para o Brasil. Os conhecimentos e qualificações de que a sociedade brasileira precisa são muito diversos e o sistema deve responder de forma criativa. O foco não deve ser só nas universidades.
Por um lado, você pode dizer que é bom que o dinheiro público esteja indo para as universidades, mas ele acaba sendo direcionado somente àquelas pessoas que foram bem sucedidas da escola. E, normalmente, os jovens de famílias mais ricas, que têm mais apoio e foram para boas escolas, se beneficiam com a maior parcela do dinheiro público. Isso praticamente cimenta as desigualdades que vemos no Brasil.
BBC News Brasil - E em que o Brasil deveria focar, no próximo governo?
Schleicher - Seria melhor garantir que todas as pessoas, nos primeiros anos de vida, recebam mais apoio e acesso aos melhores professores, além de desenvolver a capacidade de atrair os professores mais talentosos para as escolas de maior vulnerabilidade, dando a melhor educação às crianças em maior desvantagem socioeconômica.
Queremos que os melhores alunos consigam vagas nas universidades, não os mais ricos. Investir nos primeiros anos de escolaridade, criar fundamentos sólidos já no início da infância é o melhor investimento. Isso inclui garantir fundamentos psicológicos e emocionais sólidos aos jovens estudantes.
BBC News Brasil - Então, universidade não deve ser vista como algo que precisa ser universalizado?
Schleicher - A tendência é que algum tipo de formação continuada, após o ensino médio, seja universalizado. No século 21, especialização ou formação técnica é o que o ensino médio era no século 20. As pessoas precisam de algum aprendizado para além da escola. Mas isso não significa ir para a universidade. E não significa uma formação que venha logo após o ensino médio.
Precisamos pensar em um aprendizado ao longo da vida, que garanta que as pessoas tenham mais controle sobre o que querem aprender, como e onde. No momento, a ideia preponderante (no Brasil) é que temos que ter um bom diploma de ensino médio, depois um bom diploma universitário e, então, eu paro de aprender. Esse não é o modelo do século 21. O Brasil deve oferecer a todos uma oportunidade de continuar sua formação educacional. Isso deve ser universal, mas isso não significa que a universidade deva ser o único caminho.
BBC News Brasil - Que outros caminhos para o sucesso o senhor sugeriria?
Schleicher - Poderia ser uma formação técnica de alta qualidade, poderia ser treinamentos de alto padrão diretamente nos locais trabalho, nas empresas. Há vários caminhos para expandir seus horizontes.
BBC News Brasil - Ter uma boa política de qualificação e valorização dos professores é chave para bons resultados educacionais, segundo os relatórios da OCDE. Como o Brasil pode melhorar?
Schleicher - Tudo começa por selecionar os melhores profissionais. Isso significa tornar a formação para o magistério bem seletiva, e garantir que uma parte considerável do treinamento se dê nas salas de aula das escolas, não apenas nas universidades. As salas de aula são os locais onde os professores adquirem boa parte da técnica e da qualificação.
Em resumo, ter um equilíbrio entre formação teórica e prática e ser seletivo na contratação seriam bons pontos de partida. E, por fim, o que eu acho que é muito importante no contexto brasileiro dar aos professores oportunidades para continuar a aprender e se desenvolver.
BBC News Brasil - A valorização da carreira de professor passa primeiro por melhores salários?
Schleicher - Por um lado, podemos dizer que o Brasil tornou dar aulas um pouco mais atrativo financeiramente nos últimos anos. Os salários aumentaram um pouco. Mas o Brasil não fez o suficiente para tornar a carreira de professor intelectualmente atrativa. E você quer que as pessoas mais talentosas e competentes da sociedade se tornem professores. É o que aprendemos da Finlândia. Lá, os salários de professores não são fantásticos, mas todos querem se tornar professores, porque é considerado uma carreira incrível. Professores estão sendo melhor pagos no Brasil do que antes, mas o tipo de trabalho que eles exercem é industrial.
BBC News Brasil - No Brasil, não existe um currículo nacional. Mais recentemente, foram lançadas diretrizes nacionais para o ensino fundamental e está em elaboração um projeto semelhante para o ensino médio. Seria recomendável haver um currículo nacional a ser seguido pelas escolas?
Schleicher- Esse é um tema controverso no Brasil, mas a minha visão sobre isso é clara. A grande maioria dos países com bom desempenho tem um currículo nacional. Não se trata de dizer às pessoas o que ensinar e como ensinar, é sobre ter uma visão compartilhada do que são bons resultados de aprendizado.
É algo que sobre o que a sociedade precisa refletir: o que é importante para nós em termos de aprendizado, que metas educacionais queremos alcançar? Poucos países vão bem sem ter essa visão compartilhada.
BBC News Brasil - Qual país seria um bom exemplo de uso de currículo nacional, sem que isso signifique reduzir a autonomia do professor?
Schleicher - Currículo não precisa ser algo imposto de cima para baixo. O Japão, por exemplo, tem um currículo nacional e um único livro didático usado nas escolas. Quem vê de fora pode achar que os professores não têm influência no que está sendo ensinado, mas é o contrário. Todo professor do Japão participa da elaboração desse currículo. Eles participam de debates nas escolas e encaminham material, revisam.
Então, o currículo não é algo que cai do céu de repente ou que é feito só pelo Ministério da Educação. Acho que o Brasil está tentando fazer isso. Considero que o processo (de elaboração das diretrizes nacionais para ensino fundamental e médio) tem sido bem aberto e inclusivo.
BBC News Brasil - No Brasil, mesmo os alunos das escolas com mais recursos não chegam nem à média das notas dos países analisados pela OCDE. Há uma 'universalização' da baixa qualidade na educação?
Schleicher - Essa é uma observação importante. As escolas privilegiadas não estão entregando os resultados que se esperaria dentro do contexto econômico e social. O que isso mostra é que alguns retrocessos em qualidade educacional no Brasil não têm nada a ver com pobreza, são problemas sistêmicos que o Brasil precisa resolver. Isso inclui qualidade dos professores e ter currículos inspiradores.
Em algumas áreas ricas do Brasil, os alunos têm boas notas no boletim, mas resultados ruins no Pisa. Há claramente um desencontro entre o que se espera do sistema e o que ele entrega em resultados. Mas eu vejo um lado positivo nisso. Isso mostra que nem tudo tem a ver com pobreza. Tem muita coisa que pode ser feita no atual contexto econômico para melhorar os resultados em educação.
BBC News Brasil - Os 10% mais pobres do Vietnã apresentam os mesmos resultados que os 10% ricos do Brasil...
Schleicher - Exatamente, as pessoas dizem: 'O Brasil é um país pobre e precisa ficar rico antes de alcançar uma boa educação.' E isso não é verdade. Você pode ver países como o Vietnã, onde os mais pobres vão tão bem (nos testes) quanto os ricos no Brasil. Isso mostra que é mais uma questão de política pública: de como investir os recursos; atrair os professores mais talentosos para as escolas mais pobres; priorizar a qualidade do ensino na sala de aula; elevar aspirações e expectativas tanto para alunos quanto para professores; e garantir caminhos diversos.
O Brasil não precisa esperar ter mais recursos. Aliás, se o Brasil não investir em educação, não se tornará um país rico. A Coreia do Sul era muito mais pobre que o Brasil nos anos 60 e usou todos os últimos recursos que tinha em educação. E foi isso que fez com que se tornasse um país rico.
BBC News Brasil - Uma minoria dos professores brasileiros tem especialização nas áreas que eles ensinam. Segundo a OCDE, só 29% dos que lecionam matérias de ciência têm especialização ou mestrado. Isso afeta diretamente os resultados?
Schleicher- Com certeza. A primeira coisa que você como aluno percebe é se o seu professor realmente domina a matéria que ele está ensinando, então, claramente é uma vantagem ter um profissional com especialização na área que ele ensina. Mas há países com as mesmas limitações que o Brasil nesse quesito que melhoraram a qualidade da educação dando oportunidades de aprendizado continuado aos professores e apoio profissional. Então, eles podem desenvolver essa qualificação.
BBC News Brasil - Quais seriam as recomendações da OCDE na área de investimento em educação para o futuro novo governo brasileiro?
Schleicher - Acho importante continuar o empenho em desenvolver um currículo nacional e, principalmente, investir nos professores. A qualidade da educação nunca será melhor que a qualidade dos professores. E se o Brasil não tiver, no momento, muito dinheiro para investir em educação, é preciso refletir mais sobre como investir da maneira mais produtiva. E isso significa, por exemplo, priorizar a qualidade do professor em detrimento de reduzir o número de alunos por profissional. Então, se você tem uma escolha entre contratar mais professores para uma turma ou um bom professor, melhor investir no bom professor. Significa priorizar investimento nos primeiros anos de ensino, em vez de focar nos últimos (universidade).
E, por fim, alocar recursos onde eles realmente farão a diferença, ou seja, nas escolas e pessoas em situação de desvantagem econômica e social. Se você vem de uma família rica, escolaridade pode não fazer toda a diferença na sua vida. Mas se você vem de uma família pobre, a escola pode ser sua única chance na vida. Se você perder esse barco, não haverá outra oportunidade.
Fonte: BBC News Brasil em Londres em 03/10/2018.