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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Instituição só colabora com 30% do desempenho escolar

Uma quantidade enorme de pais está às voltas, a esta altura do semestre, com o desempenho escolar do filho. Professores particulares, tutores, psicopedagogos e outros profissionais cuja atuação pode colaborar para que crianças e jovens melhorem nos estudos têm sido convocados pelos pais para trabalhar com seus filhos.


Isso significa, para quem paga a mensalidade escolar, que em geral já é cara, um senhor acréscimo nos gastos que envolvem a vida escolar dos filhos. Muitas vezes, é quase uma segunda mensalidade! Mas outros pais, que não querem ou não podem recorrer a esse tipo de ajuda, decidem, eles mesmos, acompanhar de perto os estudos do filho em casa.

Há uns 20 anos, no mínimo, que os pais que têm filhos que estudam têm precisado se envolver com trabalhos escolares, explicações de conceitos ou de tópicos das mais diversas disciplinas, pesquisas de conteúdos, redações e leituras de livros e lição de casa, por exemplo.

Esses pais, chamados por muitos educadores de "pais presentes" na vida escolar dos filhos, têm agora de rever muito do que estudaram quando eram crianças ou jovens e frequentaram a sua escola, ou seja, quando eram alunos. E, nessa época, é bom lembrar, eles não tiveram a ajuda dos pais para resolver suas questões escolares, ou tiveram, de vez em quando, uma ajuda irrisória. Não fazia parte de nossa cultura essa história de participar da vida escolar dos filhos.

Antes da década de 1960, os pais não eram convidados ou convocados para nada que tivesse relação com a escola dos filhos. Nem mesmo essas reuniões escolares, hoje consideradas tão importantes, eram realizadas.

Mas o mundo mudou... E a escola, apesar de pouco ter mudado, mudou sua ideologia e sua prática em relação aos pais de seus alunos: passou a creditar a eles o fracasso escolar dos filhos, passou a cobrar dos pais muito do que seria tarefa dela e a chamar isso de "parceria". Um bom exemplo é a lição de casa, que podemos muito bem chamar de "lixão de casa", expressão utilizada por Gabriel Perissé, de quem a tomo emprestada, por considerá-la bastante apropriada. Como essas lições são chatas!

O primeiro passo para a escola responsabilizar os pais por essa tarefa foi a prática de enviar --malditos-- bilhetes quando o aluno não fazia sua lição. O texto "Senhor pai, seu filho não fez a lição de casa. Favor tomar providências" foi escrito e enviado milhares de vezes e devolvido à escola devidamente assinado pelos pais, como era solicitado.

Depois, a escola passou a afirmar, devidamente amparada em pesquisas --e todas as mídias repercutiram isso-- que os alunos que tinham o acompanhamento dos pais na vida escolar aprendiam mais e melhor. Chegamos a ter notícias de que até 70% do desempenho escolar era devido ao "background" familiar.

Você não tem ideia, caro leitor, da quantidade de pais que foi aprender a chamada matemática moderna, a fazer síntese de livro, a tentar entender o que são gêneros e o que é letramento, por exemplo. Tudo em nome do sucesso escolar do filho.

Agora, cá entre nós: se a escola só colabora com 30% do desempenho de seus alunos, por que mandamos nossos filhos a essa instituição, aceitamos pagar mensalidades tão caras e valorizamos tanto esse tipo de escola? Alguém sabe responder a tais questões? 

Fonte: Rosely Sayão*, Folha de São Paulo, em 13/5/2014.

* Articulando esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do coletivo de educadores.

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