Botões

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Quase 20% dos futuros professores no Brasil têm 'nota vermelha'

Com baixos índices de qualidade da educação, o Brasil está recrutando futuros professores entre os piores alunos do ensino médio.

O resultado pode ser observado em levantamento feito pelo Inep, instituto ligado ao Ministério da Educação, sobre as notas obtidas no Enem por calouros de diferentes cursos universitários.

Os dados revelam que 19,1% dos candidatos do Enem 2014 que ingressaram em uma graduação de pedagogia no ano seguinte não conseguiriam sequer um certificado de ensino médio com a nota do exame. Tiraram até 450 pontos, considerando-se a média aritmética das quatro provas objetivas e da redação.

Para obter um certificado de ensino médio —possibilidade aberta a pessoas com mais de 18 anos e fora da escola—, é preciso tirar 450 pontos em cada prova e 500 na redação. Mais, portanto, do que esse grupo de quase 1 em 5 futuros professores.

O parâmetro de 450 pontos foi adotado pelo Inep em 2014 após o instituto constatar que essa já é, em regra, a "nota de corte" praticada pelas escolas de ensino médio para passar os alunos de ano.

Mas é uma pontuação "muito baixa", ressalta José Francisco Soares, presidente do Inep à época dessa definição e professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais. Segundo ele, 450 pontos equivale ao acerto de 6 a 8 questões por prova no Enem, de um total de 45. "É preocupante que futuros professores terminem a escola com formação tão frágil."

Os cursos de pedagogia formam, principalmente, profissionais que atuam até a quarta série e educadores em cargos de chefia, como coordenadores e supervisores.

A proporção de calouros com desempenho ruim nessa graduação é bem maior do que a média. Entre os universitários em geral, 9,9% tiraram até 450 pontos. Entre os ingressantes nas áreas de matemática e ciências, é de 5,6%. E, entre os aspirantes a médicos, a faixa é tão insignificante que não entrou na conta.

O grupo dos alunos com pior desempenho vai até 550 pontos. Do total de candidatos, 98,4% estão acima desse patamar —em pedagogia, apenas 16,9%.

O Enem é usado como forma de seleção por universidades federais e particulares. É requisito para o acesso ao Fies (programa de financiamento estudantil) ou ao Prouni.

Em outros processos seletivos, como o da USP, cursos de pedagogia também têm mais alunos com notas abaixo da média geral, o que vai na contramão do que ocorre nos locais com ensino de ponta. Na Finlândia e na Coreia do Sul, alunos de cursos de formação de professores são selecionados entre os melhores.

Para especialistas, há duas explicações para a situação. A primeira é a baixa concorrência dos cursos. A graduação em pedagogia é terceira com mais vagas no país.

A segunda explicação é a falta de atratividade da carreira. "Como parte significativa dos alunos vocacionados com boa formação não busca o curso, aumenta o número de vagas para alunos com pior formação que gostariam de fazer qualquer um", diz o professor José Carlos Rothen, da Universidade Federal de São Carlos.

O salário é um fator chave —um professor ganha 39% a menos que outros profissionais com nível superior.

Mas a remuneração não é o único fator, diz Priscila Cruz, presidente da ONG Todos pela Educação. Pesam as condições de trabalho e o desprestígio da carreira. "Os governos precisam agir, mas a sociedade também cobra pouco."

Mercado de trabalho amplo e facilidade de entrar atraem alunos para cursos de pedagogia, que têm o terceiro maior número de universitários do país, atrás apenas de direito e administração.

São 656 mil alunos, a maioria em cursos a distância, e uma concorrência de menos de dois candidatos por vaga.

Aos 37, Cibele Rodrigues escolheu pedagogia por causa das oportunidades de trabalho e por considerar a formação versátil. "Mesmo se não conseguir emprego na área, vai ser bom, porque o mercado exige. Hoje, ter nível superior é igual ao que antes era ter ensino médio", diz ela, no primeiro semestre de uma faculdade particular em Itaquera, na zona leste de SP.

Aluna de outra instituição privada na periferia, Ana Paula Neris, 30, conta que optou por pedagogia porque era o curso mais barato, mas depois se apaixonou. "Tem um sentido de transformação com que me identifico muito."

Filha de mãe faxineira e pai pedreiro, é a primeira da família a cursar o ensino superior. Para se manter, trabalha na cozinha de uma escola municipal e, depois de formada, pretende continuar trabalhando na periferia, dando aulas.

Para alcançar seu sonho, Ana Paula sabe que tem que fazer mais do que o curso oferece. Juntou-se com um grupo de mulheres que estudam juntas. "Na faculdade, são só quatro horas, e tem muita teoria e pouca prática", diz.

Tatiane Cavalcanti, 24, teve a mesma percepção. Abandonou o curso no quarto semestre depois de trabalhar em uma escola na região metropolitana de São Paulo. "Pedagogia é uma coisa muito bonita dentro da faculdade. Fora é muito diferente", diz ela, que hoje cursa direito.

A distância entre teoria e prática em cursos de formação de professores é citada em diversas pesquisas sobre o tema. Elas mostram que faltam nas universidades conteúdos sobre como atuar na sala e como alfabetizar, por exemplo.

A qualidade dos cursos também é bastante heterogênea e depende do perfil dos alunos que entram. Nas que recebem os de pior desempenho, com média abaixo de 450 pontos no Enem, alunos têm dificuldade pensamento lógico, de leitura e de texto, afirma Carlos Monteiro, consultor de ensino superior.

Boas faculdades, no entanto, têm conseguido suprir lacunas de formação, diz Clarilza Prado, pesquisadora da área e professora da PUC-SP.

"São os alunos de escolas públicas, ou de menor desempenho, que veem na pedagogia uma das únicas possibilidade de ingressar no ensino superior. Mas os que entram em universidades de melhor nível acabam por modificar sua trajetória de menor qualificação", diz.

Hoje, o mercado de trabalho tem vagas tanto para professores com boa formação como para os que têm deficiências, diz César Callegari, integrante do Conselho Nacional de Educação e ex-secretário municipal da área em SP.

Diante dessa realidade, ele defende uma reformulação dos cursos de formação para profissionais que já estão na sala de aula, com um reforço maior da parte prática.

"Hoje, os cursos satisfazem mais a necessidade de obter títulos para progredir na carreira do que a as demandas efetivas dos alunos e professores", diz. Ele também defende um exame nacional de admissão para atuar na área.

Priscila Cruz, do Todos pela Educação, defende começar a formação de professores já no ensino médio, colocando a educação como uma possível área de especialização. Para ela, a ampliação do período integral, prevista pela proposta de reforma no ensino médio, deve começar por esses alunos.


Fonte: Folha UOL, em 28/11/2016.

Nenhum comentário:

Postar um comentário