Os brasileiros passavam, em média, dois anos na escola nas
décadas de 1960 e 1970 — quando mais de um terço da população com mais de 15
anos era completamente analfabeta no país. As informações são de um estudo do
Inep-MEC chamado “estatísticas da educação
básica no Brasil“. É um dos raros compilados de dados
educacionais que incluem o período da ditadura militar (1964-1985) no Brasil.
Para
termos uma ideia, na década de 1960 os homens brasileiros estudavam, em média,
2,4 anos ao longo da vida. Já o tempo de escola das mulheres era ainda menor:
1,9 ano. Entre a população negra, a taxa de escolarização total caía para menos
de um ano (0,9 ano de estudo). Nesse período, quase 46% da população era
analfabeta, ou seja: tinha mais de quinze anos e não conseguia nem escrever o
próprio nome.
A
média de tempo na escola se manteve na faixa dos dois anos também na década de
1970: 2,6 anos para os homens e 2,2 anos para as mulheres. Nesse
período, quatro em cada dez brasileiros ainda eram analfabetos. A taxa de
analfabetismo cai para um terço dos brasileiros (33%) na década de 1980.
Na
prática, os dados mostram que a escola nessa época era para poucos: há os que
conseguiam estudar e os que estavam excluídos do sistema — o que joga a média
para baixo. Faz sentido: a ideia de “educação para todos” para o
exercício da cidadania e para qualificação para o trabalho é um conceito da
redemocratização. Surge na Constituição de 1988 como um direito de
todos e um dever do Estado e da família.
A
Constituição de 1988 define, por exemplo, que a educação básica seria obrigatória
e gratuita dos 4 aos 17 anos de idade “assegurada inclusive sua oferta gratuita
para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria” (art. 208).
Hoje,
o tempo de escolarização dos brasileiros subiu para sete anos — ainda
longe dos doze anos que representariam ensino fundamental e médio completos.
Todos os alunos do país estão matriculados no início da escola, mas, em média,
um em cada dois estudantes deixa a escola no caminho e não termina o ensino
médio. Os analfabetos ainda representam cerca de 7% dos brasileiros.
Informações
sobre escolarização nas décadas de 1960 e 1970 eram tiradas de levantamentos do
IBGE, mas não há dados efetivamente sobre “qualidade” da educação nesse
período. Os censos anuais da educação básica do Inep-MEC, por exemplo, que
mostram aspectos estruturais das escolas, começaram a ser feitos na década de
1990. Por esses dados, é possível saber que, ainda hoje, há escolas no Brasil
sem banheiro e que só 10% das instituições de educação básica no Brasil contam
com laboratório de ciências. Já o Ideb (Índice da Educação Básica), calculado a
partir das notas dos alunos e do fluxo, tem pouco mais de uma década.
Entre
especialistas, no entanto, o acesso à educação é o primeiro ponto a ser
analisado nas políticas públicas na área. “Não dá para se falar em qualidade
sem falar em acesso à educação”, diz Luiz Cláudio Costa, ex-presidente do
Inep-MEC e um dos principais experts em avaliação de educação do país.
Costa costuma repetir que acesso é o “primeiro indicador de qualidade de
educação”. “Um sistema de educação não será bom enquanto houver estudante
de fora dele.”
Fonte: abcedario.blogfolha Sabine Righetti em 08/10/2018.
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