Durante uma década e meia, votei na mesma escola pública em que
fiz parte da educação infantil e os quatro primeiros anos do ensino
fundamental. Era uma forma tanto de manter os laços com a cidade em que cresci
quanto um exercício de nostalgia. Adorava voltar ao prédio, entrar nas salas e
relembrar aqueles momentos da infância. Foi naquelas lousas que aprendi as
quatro operações e a história do meu município. Foi num daqueles banheiros que
descobri como fazer canivetes com tubo de caneta e lâmina de apontador. Era o
começo dos anos 1990, anterior à progressão continuada.
Me
lembro bem. Eu tinha nove anos e dividia sala com adolescentes de 14, 15, 16
anos. Em vez de repetir só ao final de cada ciclo, como é hoje em muitas
cidades e estados pelo país, os alunos estavam sujeitos à reprovação todos os
anos. Muitos ficavam para trás, formando um caldo de ressentimento e frustração
que explodia de tempos em tempos.
Na
prática, a pedagogia era refém da disciplina. Os professores ameaçavam os
estudantes com notas baixas e retenção. Era uma tática muito usada e, ao mesmo
tempo, inútil. Os repetentes, como os chamávamos, continuavam sem aprender com
os professores, mas passavam a ensinar outras habilidades às crianças.
A minha vida certamente teria sido melhor sem essa
violência na infância-assim como a vida de muitas crianças e adolescentes do
Brasil de hoje seria melhor se elas tivessem condições mais dignas para
aprender. Embora a educação tenha avançado da minha época para cá, ainda há
muito a fazer. Ao longo de 2019, vou continuar escrevendo aqui sobre as
urgências brasileiras. Mas, neste primeiro texto do ano, quero ressaltar o
outro lado da escola pública.
Obviamente, a escola não tinha apenas violência.
Eram os primeiros anos da universalização do acesso, e muitos dos meus colegas
eram os pioneiros da família a entrar numa sala de aula. O filho da professora
(eu), do comerciante, do pedreiro e do lixeiro compartilhavam a mesma sala.
Havia crianças brancas e negras, filhas de migrantes do Nordeste e netas de
imigrantes da Itália. Havia um aluno que se descobriria transgênero muitos anos depois. Eu não sabia disso na época, mas a
escola era o meu encontro com o Brasil.
Ali, naquela escola no bairro do Serpa, em
Caieiras, eu começaria a entender que o mundo era muito maior do que a minha
família e muito mais complexo do que as minhas relações pessoais. Obviamente,
eu não tinha noção de tudo isso ainda. Mas, com os anos, ela foi ficando clara-especialmente
na medida em que meu mundo foi diminuindo.
Em 1993, meus pais me tiraram da escola pública. Eu
ganhara uma bolsa de estudos num colégio particular da cidade e, apesar do
ensino ser do mesmo nível, ao menos não havia riscos de eu chegar em casa
machucado. Foi um choque.
Embora estivesse a 30 minutos de caminhada de casa,
as salas de aula eram muito diferentes. A diversidade era menor e a quantidade
de experiências, de origens, também. Quando passei na universidade, a sensação
se agravou. O meu conhecimento aumentava, mas o Brasil com quem eu pareava as
mesas, não. Eu agradeço à escola pública por ter me ensinado, mesmo sem querer,
a noção de bolhas muitos anos antes de existir os muros invisíveis das redes
sociais. Foi uma das maiores lições que tive na vida.
Por isso, defendo a existência e o fortalecimento
das escolas públicas. Nenhuma outra instituição é capaz de responder com mais
força às divisões, às bolhas e à insanidade quanto os lugares nos quais pessoas
tão diferentes vão para aprender juntas.
Sim, o Brasil não vai virar um país melhor apenas
com boas escolas. A educação não é a resposta para todos os nossos dilemas.
Porém, sem boas salas de aula, o país é apenas um rascunho do que poderia ser.
Ele se olha no espelho e é incapaz de se enxergar. Perdido, fica disposto a
seguir qualquer caminho. Briga contra inimigos imaginários e ignora toda sua
beleza e potência. A bolha floresce ai. A mentira também.
*
Leandro Beguoci é diretor editorial de Nova Escola
(novaescola.org.br).
** Articulando esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do coletivo de educadores.
Os ataques à escola pública representam o conhecimento pérfido que os representantes eleitos têm do seu papel. Sabem do potencial do povo e precisam ameaçá-lo com a ignorância.
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