quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Terrorista louro de olhos azuis...

Preconceitos,  como mentiras, nascem da falta de informação (ignorância) e excesso de  repetição. Se pais de uma criança branca se referem em termos pejorativos a  negros e indígenas, judeus e homossexuais, dificilmente a criança, quando  adulta, escapará do preconceito.

      A  mídia usamericana incutiu no Ocidente o sofisma de que todo muçulmano é um  terrorista em potencial. O que induziu o papa Bento XVI a cometer a gafe de  declarar, na Alemanha, que o Islã é originariamente violento e, em sua  primeira visita aos EUA, comparecer a uma sinagoga sem o cuidado de repetir o  gesto numa mesquita.

      Em qualquer  aeroporto de países desenvolvidos um passageiro em trajes islâmicos ou cujos  traços fisionômicos lembrem um saudita, com certeza será parado e  meticulosamente revistado. Ali reside o perigo... alerta o preconceito  infundido.

      Ora, o terrorismo não foi  inventado pelos fundamentalistas islâmicos. Dele foram vítimas os árabes  atacados pelas Cruzadas e os 70 milhões de indígenas mortos na América Latina,  no decorrer do século 16, em decorrência da colonização  ibérica.

      O maior atentado terrorista da  história não foi a queda, em Nova York, das torres gêmeas, há 10 anos, e que  causou a morte de 3 mil pessoas. Foi o praticado pelo governo dos EUA: as  bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Morreram 242.437  mil civis, sem contar as mortes posteriores por efeito da  contaminação.

      Súbito, a pacata Noruega  – tão pacata que, anualmente, concede o Prêmio Nobel da Paz – vê-se palco de  dois atentados terroristas que deixam dezenas de mortos e muitos feridos. A  imagem bucólica do país escandinavo é apenas aparente. Tropas norueguesas  também intervêm no Afeganistão e deram apoio aos EUA na guerra do  Iraque.

      Tão logo a notícia correu  mundo, a suspeita recaiu sobre os islâmicos. O duplo atentado, no gabinete do  primeiro-ministro e na ilha de Utoeya, teria sido um revide ao assassinato de  Bin Laden e às caricaturas de Maomé publicadas pela imprensa escandinava. O  preconceito estava entranhado na lógica  ocidental.

      A verdade, ao vir à tona,  constrangeu os preconceituosos. O autor do hediondo crime foi o jovem  norueguês Anders Behring Breivik, 32 anos, branco, louro, de olhos azuis,  adepto da fisicultura e dono de uma fazenda de produtos orgânicos. O tipo do  sujeito que jamais levantaria suspeitas na alfândega dos EUA. Ele “é dos  nossos”, diriam os policiais condicionados a suspeitar de quem não tem a pele  suficientemente clara nem olhos azuis ou  verdes.

      Democracia é diversidade de  opiniões. Mas o que o Ocidente sabe do conceito de terrorismo na cabeça de um  vietnamita, iraquiano ou afegão? O que pensa um líbio sujeito a ser atingido  por um míssil atirado pela OTAN sobre a população civil de seu país, como  denunciou o núncio apostólico em  Trípoli?

      Anders é um típico  escandinavo. Tem a aparência de príncipe. E alma de viking. É o que a mídia e  a educação deveriam se perguntar: o que estamos incutindo na cabeça das  pessoas? Ambições ou valores? Preconceitos ou princípios? Egocentrismo ou  ética?

      O ser humano é a alma que  carrega. Amy Winehouse tinha apenas 27 anos, sucesso mundial como compositora  e intérprete, e uma fortuna incalculável. Nada disso a fez uma mulher feliz. O  que não encontrou em si ela buscou nas drogas e no álcool. Morreu  prematuramente, solitária, em casa.

      O  que esperar de uma sociedade em que, entre cada 10 filmes, 8 exaltam a  violência; o pai abraça o filho em público e os dois são agredidos como  homossexuais; o motorista de um Porsche se choca a 150km por hora com uma  jovem advogada que perece no acidente e ele continua solto; o político fica  indignado com o bandido que assaltou a filha dele e, no entanto, mete a mão no  dinheiro público e ainda estranha ao ser  demitido?

      Enquanto a diferença gerar  divergência permaneceremos na pré-história do projeto civilizatório  verdadeiramente humano.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria  com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de “Conversa sobre a fé e a ciência”  (Agir), entre outros livros.
http://www.freibetto.org/>     twitter:@freibetto.

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