A realidade histórica do final dos anos 1960 começou a ser reescrita na matéria Operação Mata-Estudante, publicada e impressa no “Correio da Manhã” em 4 de outubro de 1968, dois meses antes da promulgação do ato institucional número cinco, o famigerado AI-5. Foi esse terrível AI-5 que abriu o doloroso período dos “anos de chumbo”, a face mais autoritária e cruel da ditadura militar implantada em 1964 que durou até 1985 e que, no atual ciclo histórico, alguns simulam renascer usando a mesma vestimenta glamorosa de duplo combate à corrupção e aos “inimigos” de esquerda. Aparentemente, simples e “inocente” nova versão da anterior. Agora, para superar barreiras e obstáculos, fortalecida via urnas eleitorais, impulsionada por uma avalanche de toques nas redes sociais.
Dentro do mais rigoroso profissionalismo jornalístico, este trabalho procura trazer fatos com versões contra ou a favor. Inclusive a partir dos pouco lembrados "considerandos" do AI-5 e de todos os demais atos institucionais anteriores e posteriores: desde o AI-1, inicialmente não enumerado, até o AI-17, na que foi uma sequência acelerada de apenas cinco anos, de 1964 a 1969, que acabou por matar a democracia brasileira e permitir, sob rígida censura, 21 anos somados de regime autoritário. Lendo-se os tais "considerandos" dos Atos Institucionais, entendem-se melhor os velados objetivos a que se propunham e que, na verdade, ficavam sempre mais claros e melhor definidos a cada edição das medidas de endurecimento do regime. Crescia, por certo, a necessidade da retórica, do discurso de convencimento.
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Alguns desses fatos ficaram, registre-se, por longo período foram ignorados pela imensa maioria da sociedade brasileira, tanto em função de sistemática e inclemente censura da ditadura, quanto da pior forma de ocultação da memória, a autocensura dos próprios meios de comunicação. Agora, aos poucos, alguns deles fazem renascer os fatos e, assim, recuperam para o público a verdade histórica antes tão dramaticamente amordaçada.
Sobre o autor:
Pery Cotta é jornalista, escritor e professor universitário.
Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001) e Mestre em Comunicação e Cultura também pela ECO-UFRJ (1999), aprovado com conceito "A" (excelente) summa cum laude (conceito Capes 6). Graduado em Direito pela UERJ - Universidade Estadual do Rio de Janeiro (1962) e inscrito sob número 18.175, na OAB/RJ. Professor adjunto da Faculdade Hélio Alonso, área de comunicação social (ingresso em março/1997). Avaliador do INEP/MEC, de 2003 a 2006, para a Comunicação Social, cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda.Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa, presidiu o Conselho Deliberativo da ABI por cinco mandatos consecutivos até abril/2014.
Pery Cotta é autor de dois livros didáticos: "Jornalismo - teoria e prática" (Editora Rubio, 2005) e "Jornalismo Avançado" (CCAA Editora, 2010) e ainda de "Calandra - o sufoco da imprensa nos anos de chumbo" (Bertrand Brasil,1997), além de “A radical ideologia da ditadura militar e o cruel poder sobre a vida humana”, agora em maio/2019, registrado na Biblioteca Nacional e prestes a ser lançado.
Como jornalista, denunciou o “Caso Parasar”, em outubro/1968, às vésperas do AI-5, no “Correio da Ma\nhã”. E, em 1982, na volta às eleições diretas para governador, impediu a fraude eleitoral, na “Rádio Jornal do Brasil”, no “Caso Proconsult”. Foi escolhido como um dos depoentes de "Memória de Repórter - lembranças, casos e outras histórias de jornalistas brasileiros, décadas de 1950 a 1980" (Verso Brasil, 2010, editado pelo Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro).
É também autor do artigo "Quarenta anos da Passeata dos Cem Mil e da edição histórica do Correio da Manhã", publicado na revista Comum, das Faculdades Integradas Hélio Alonso, edição número 30, de janeiro/junho 2008).
Acesse aqui para baixar o livro em PDF.
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