sexta-feira, 6 de março de 2026

Brasil perde 111 mil escolas do campo em 24 anos: ‘Estão matando a vontade do jovem ficar’


Pressionadas pelo agronegócio, escolas de décadas de existência são fechadas, sem consulta ou aviso prévio à comunidade


No dia 11 de fevereiro de 2026, quando visitou a Escola Estadual do Palmital 43, a agricultora Tatiane Loch Cequinel saiu de lá chorando. “A gente já vê sinais de abandono. Já não está com a graminha cortada, já não tem criança”, lamenta.

Tatiane foi até o prédio, agora abandonado, para assinar os documentos de encerramento da Associação de Pais e Mestres, um dos últimos atos de despedida da unidade de ensino que atendeu, por décadas, as comunidades rurais do entorno.

Ela estima que a escola, localizada no município de Roncador, no Paraná, tenha 80 anos de existência. “Eu estudei ali. Queria que meus filhos continuassem estudando”, conta a agricultora, mãe de um adolescente, ex-aluno, e de uma menina que ingressaria na unidade de ensino em 2026. “Ela ia entrar no primeiro ano”, diz.

Com o fim das atividades, as crianças e adolescentes precisaram ser remanejadas para outras áreas, mais distantes das casas das famílias – um problema corriqueiro para quem vive no campo.

De 2000 a 2024, as comunidades rurais brasileiras perderam 110.758 escolas do campo ou rurais, segundo um levantamento publicado pelo Fórum Nacional de Educação do Campo (Fonec), articulação em defesa desses espaços de ensino.

O número foi obtido a partir de dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e é referente às unidades estaduais e municipais, do ensino infantil ao médio, em comunidades rurais e assentamentos .

Somadas às unidades da área urbana, o Brasil perdeu 163.854 escolas públicas em 24 anos. Somente em 2024, 3.159 escolas foram extintas no país, sendo 1.585 nos territórios rurais e 1.574 nos urbanos, segundo o Fonec.

No Marajó, o rio seca no caminho da nova escola

Na região de São Sebastião da Boa Vista, na Ilha de Marajó, no Pará, quatro escolas rurais tiveram as atividades encerradas nos últimos três anos. “Uma escola que nós tínhamos aqui há 53 anos, com 54 alunos, eles fecharam”, conta o pescador Sebastião Rodrigues Pereira, que tinha uma neta matriculada na Escola Municipal de Ensino Infantil e Ensino Fundamental Bom Jardim, cujas atividades foram encerradas há três anos.

Para chegar até ali, o percurso era rápido, feito de barco pelo rio Tucupi Grande que, segundo o pescador, nunca seca. Agora, a menina precisa viajar até mais longe num caminho mais duro e perigoso para assistir às aulas. “Nós só ficamos tristes porque ele [o prefeito] fechou a nossa escola, que é no centro, para colocar a escola num riozinho estreitinho, onde seca a maré”, lamenta o pescador.

A alteração na rota resultou em atrasos e preocupação para a família. “A minha neta tinha dia que chegava aqui apavorada”, conta Sebastião. Com o rio seco, aumenta o risco da embarcação encalhar. Em outras épocas, o perigo está no movimento das águas no novo trajeto.

A logística imposta a essas famílias é somente um dos problemas resultantes do fechamento das escolas rurais. O fim de uma unidade de ensino no campo significa, também, um rompimento com um modo de vida.

Remanejado para uma escola de ensino integral, o filho de Tatiane – um adolescente de 13 anos – sofre com a nova rotina, bastante diferente daquela que tinha junto da família, acostumado aos trabalhos na roça ao lado do pai e do avô.

Agora, ele sai de casa antes das 6h e só retorna por volta das 18h. “Ele volta para casa desolado, porque não se acostuma”, conta a mãe. “A escola também já é um pertencimento da nossa comunidade. Ela já existia há tanto tempo e era um ambiente muito gostoso, um ambiente familiar”, diz.

Algumas dessas unidades ficam em área central para as comunidades, com fácil acesso para todos da região. Ali, as crianças se encontram e as famílias também. Na comunidade de Nossa Senhora Nazaré dos Chaves, onde vive a família de Sebastião, o espaço de ensino funcionava dentro de um barracão comunitário. “Foi uma tristeza, porque a nossa comunidade é muito antiga e todo mundo tinha um apego muito grande na escola”, lamenta o pescador.


Escolas do campo e públicas

De acordo com o Censo Escolar 2024, 98,9% das escolas de educação básico em áreas rurais são da rede pública. O país tem, atualmente, 178,5 mil unidades de ensino, entre públicas e privadas. O número se mantém elevado, porque enquanto escolas públicas – sobretudo no campo – fecham as portas, surgem novas instituições privadas, mas nas cidades.

Do total de escolas no Brasil, 23,3% pertencem à rede privada, mas apenas 1,1% fica no campo. A rede municipal, por seu dever constitucional, representa 59,8% das unidades de ensino do país.

A educação no campo é um pilar estratégico para um modelo de sociedade onde a soberania alimentar – ou seja, a capacidade de um povo produzir seus alimentos de modo saudável – é valorizada. O ensino nessas instituições preza pela compreensão da realidade no entorno, pelo respeito às tradições e saberes das comunidades rurais.

“Quando o governo tira os jovens, as crianças, da realidade do campo e quer levar para outro lugar, para outra realidade, eles estão matando aos pouquinhos, no pequeno agricultor, a vontade do jovem de ficar no campo”, lamenta a agricultora Iliane Meier, mãe de dois meninos, moradora da comunidade Linha Dois Vizinhos, no município de Mangueirinha, no sul do Paraná.

Por lá, a Escola Estadual do Campo Conceição Linhares de Almeida fechou as portas em janeiro deste ano.

Agronegócio acentua o processo

Produção de soja e expansão das usinas eólicas são dois fatores que acentuaram o fechamento de escolas rurais no Piauí, segundo a professora Jullyane Frazão, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), que observou o problema no estado entre 2007 a 2020, para a sua pesquisa de doutorado.

“Eu já tinha levantado todos os dados sobre o fechamento, então pedi para um colega da geografia fazer um mapa localizando onde tinha mais fechamento [de escolas] no Piauí”, conta. Os pontos coincidiam com as áreas . com as áreas de expansão do agronegócio e de apropriação da terra por grandes empreendimentos.

Em novembro de 2024, quando esteve na região do planalto Santareno, no Pará, a reportagem do Brasil de Fato observou essa dinâmica. A chegada das plantações de soja por lá resultou no fechamento de escolas e no desaparecimento de comunidades rurais. Em Mojuí dos Campos, das cerca de 130 comunidades rurais do município, 19 desapareceram por completo.

Outras escolas resistem, mesmo diante das ameaças. Em Belterra, perto de Mojuí dos Campos, a Escola de Ensino Fundamental Vitalina Motta está cercada por plantações de soja. Mais de uma vez, os alunos tiveram as aulas canceladas por causa da pulverização de agrotóxicos perto demais dos muros da instituição de ensino.

“A partir do momento que você fecha uma escola, você expulsa uma comunidade inteira”, alerta Jullyane.

Outro problema observado pela pesquisadora é a substituição das escolas por unidades de atendimento de saúde — muitas vezes instaladas no prédio onde, antes, havia um espaço de ensino.

“O fato das escolas que foram fechadas estarem sendo utilizadas para o atendimento a outros direitos, tais quais o direito à saúde, indica a existência de uma estratégia de desenvolvimento excludente, onde a população do campo só pode ter acesso a um ou outro direito”, afirma Jullyane.

Para o Fonec, o fechamento de escolas do campo não é um fenômeno isolado ou casual. “Trata-se de uma estratégia política intencional, que viola os princípios constitucionais da gestão democrática do ensino público e se impõe sem qualquer processo efetivo de escuta ou diálogo com as comunidades afetadas”, alerta o fórum, em nota publicada no site oficial.

Em resposta ao Brasil de Fato, o Ministério da Educação (MEC) afirma que atua na formulação de políticas públicas, no apoio técnico e financeiro aos entes federados e na defesa do cumprimento da legislação educacional, especialmente no que se refere à garantia do direito à educação e à valorização da educação do campo.

“Em 2025, a pasta lançou o Novo Pronacampo por meio da portaria 538, de 24 de julho de 2025, que tem entre os objetivos formular, em regime de colaboração, propostas de gestão da Educação do Campo, com vistas a superar o fechamento de escolas”, informa, em nota enviada pela assessoria de imprensa.

Ainda segundo a pasta, a decisão de fechamento de uma escola é de competência do ente federativo responsável pela oferta da educação, que atribui aos municípios a autorização, o credenciamento e a supervisão dos estabelecimentos de ensino de seus sistemas, assim como responsabilidades análogas aos estados em suas redes.

O encerramento de unidades escolares no Brasil ocorre, em geral, a partir de decisões administrativas dos sistemas de ensino responsáveis, sobretudo municipais e estaduais.

No caso das escolas do campo, indígenas e quilombolas, a legislação brasileira estabelece salvaguardas específicas para evitar fechamentos arbitrários e assegurar o direito à educação nas comunidades onde essas escolas estão inseridas.
Sem consulta às comunidades

Para que uma prefeitura ou governo estadual feche uma escola, é necessário, antes, ouvir as comunidades afetadas pela decisão. Em muitos casos, no entanto, essas populações sequer foram informadas com a antecedência.

Na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Nair Gaia Ataíde, no município de Vigia, no norte do Pará, o aviso do fechamento chegou aos pais dos alunos numa sexta-feira. Na segunda-feira seguinte, a unidade de ensino já não abriria as portas.

“Foi feita uma reunião, aí a população mandou um aviso que não queria fechamento”, conta a professora Edeny Vilhena. Apesar disso, a prefeitura não voltou atrás e os estudantes foram divididos em três grupos, direcionados para outras unidades de ensino da região.

No Paraná, as famílias foram informadas com seis meses de antecedência e, por isso, puderam convocar reuniões para debater o problema. Mesmo se manifestando contrariamente ao fechamento, não tiveram suas solicitações consideradas.

“Eles vieram ali só para comunicar. Tentaram pegar nós de surpresa, porque acharam que se tivesse poucas pessoas não ia ter nenhum problema, né? Eles iam logo fechar e pronto”, conta Iliane Maier.

Na teoria, o desejo dessas comunidades está resguardado pela portaria 391, de 10 de maio de 2016, que estabelece orientações e diretrizes aos órgãos normativos dos sistemas de ensino para o processo de fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas.

Segundo a portaria, o órgão normativo deverá considerar “a manifestação da comunidade escolar, no âmbito do respectivo território etnoeducacional ou território rural, se escola indígena ou do campo, onde houver”.

Além disso, a norma estabelece que “a justificativa deverá considerar o histórico da escola, o projeto político e pedagógico da unidade escolar, as condições de infraestrutura e os recursos humanos existentes, a participação da unidade escolar em políticas e programas do Governo Federal, os investimentos realizados com recursos próprios em infraestrutura e correspondentes ações pedagógicas”.

Na nota enviada ao Brasil de Fato, o MEC informa que a Lei nº 12.960/2014 determina que o fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas somente pode ocorrer após manifestação do órgão normativo do respectivo sistema de ensino, apresentação de justificativa formal pela Secretaria de Educação e realização de consulta prévia à comunidade escolar envolvida.

O descumprimento desses requisitos, especialmente a ausência de oitiva do Conselho Municipal de Educação e da comunidade, fere os princípios do direito à educação, à gestão democrática da educação escolar e às disposições da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, podendo tornar o processo irregular.

Na prática, no entanto, nem mesmo os protestos das comunidades barraram o encerramento de um espaço que, por muitos anos, foi central naquele lugar. “Nós conseguimos nos mobilizar e reunir bastante pessoas. Eu acho que umas 100 pessoas naquela reunião”, conta Iliane, sobre a resposta da comunidade após receber o comunicado do fechamento da Escola Conceição Linhares. “Todas contra o fechamento da escola, e foi debatido, porque é uma escola do campo de muitos anos. E foi tentado [evitar o fechamento]. Na verdade, nós tentamos o que nós podia, nós tentamos”, diz.

A reportagem entrou em contato com o governo do Paraná e a Prefeitura de Vigia, mas não obteve retorno. O texto será atualizado em caso de respostas enviadas.

Fonte: ICL Notícias com Brasil de Fato em 16/02/2026.

domingo, 1 de março de 2026

‘Acham que ela não se sentiu desrespeitada?’, diz mãe que defendeu filha que se recusou a orar em escola


Caso vivido pela filha de 12 anos, que foi repreendida ao não querer participar de uma oração em sala de aula. A Marie Claire, ela fala sobre o episódio e lamenta os ataques recebidos nas redes sociais.

A influenciadora Luana Cristina Ferreira, de 29 anos, decidiu criar os filhos, Ana, 12, e Davi, 8, com liberdade para escolherem a própria crença. Como não tem uma religião, ela optou por também não os direcionar a nenhuma doutrina específica. “Não seguimos o estudo bíblico, mas procuro sempre ensinar para eles sobre o que é ter moral”, contou em entrevista a Marie Claire.

Dentro de casa, a catarinense não transmite valores cristãos como regra, mas aborda a religião de forma ampla, como parte da cultura e da formação social. “O que eu faço, tanto para o Davi quanto para a Ana, é ensinar sobre religiões como cultura”, explica. As conversas surgem espontaneamente, a partir das curiosidades dos próprios filhos. “Eles perguntam: ‘Mãe, tal religião, como funciona?’ E eu conto o que eu sei.”

Foi por isso que a mãe se surpreendeu ao saber que a filha foi repreendida por não querer se levantar para rezar o “Pai-Nosso”, tradicional oração católica. Na escola onde estuda, uma instituição pública em Joinville (SC), a prática acontece com frequência. Pela Constituição Federal (arts. 5º, VI, e 19, I) e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (art. 33), manifestações religiosas em escolas públicas só são permitidas quando partem de iniciativa voluntária e individual dos alunos e não podem ser impostas.

Segundo a mãe, a oração foi conduzida durante uma aula que não tinha relação com ensino religioso, e a adolescente acabou sendo encaminhada à secretaria e, em seguida, para a psicóloga do colégio, por se recusar a participar.

Quando Luana pediu esclarecimentos, a coordenação afirmou que a professora teria se sentido desrespeitada pela postura da aluna. A mãe, porém, contestou: “Vocês acham que a minha filha não se sentiu desrespeitada ao ser tirada da sala por não ter religião? Eu sempre falo para meus filhos: a escola não é lugar de prática religiosa. Vocês aprenderem sobre ensino religioso, cultura e história, tudo bem. Mas não práticas de orar, rezar.”

De acordo com a mãe, a escola também afirmou que Ana não foi encaminhada à psicóloga por ter se recusado a rezar, mas porque não havia outro adulto responsável disponível para conversar com a estudante naquele momento. “Ela levantou essa questão de que a professora era mais idosa, mas que não justificava o fato de que a Ana também deveria ter sido respeitada”, afirmou.

Ainda que a profissional tenha acolhido a aluna, a instituição argumentou que o "Pai-Nosso" era uma oração universal. “Eu falei para eles que, para quem não tem religião, não é”, rebateu Luana. O confronto fez com que a escola mudasse o padrão na atividade diária.

    “A direção resolveu nas entrelinhas, falando que não iriam mais fazer a prática religiosa. Agora, a medida que tomaram foi fazer um ‘agradecimento geral’. A professora deixa cada aluno agradecer ao universo, a Deus, pelo dia.”

Por conta da resolução, a mãe decidiu não tomar nenhuma medida judicial. A adolescente também preferiu continuar estudando na mesma escola. “Ela ficou tachada como ‘a menina sem religião’ pelos outros alunos por um tempo, gerou um burburinho, mas ela não quer sair de lá por conta das amizades”, justificou.

Mãe foi criticada nas redes sociais

O acontecimento compartilhado por Luana no fim do ano passado em suas redes sociais, viralizou. Ela contou que, a princípio, não tinha intenção de expor a situação. “A escola ficou meio desconfiada quando descobriu que eu era influencer”, lembra.

A decisão surgiu após acompanhar um episódio envolvendo outra situação de intolerância religiosa. Em novembro, ganhou repercussão o caso de um pai que acionou a polícia após uma criança de quatro anos desenhar um orixá em uma atividade, parte de uma proposta pedagógica dentro do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena.

    “Começou a circular essa questão e eu citei no vídeo: se a professora na situação com a minha filha fosse de uma religião de matriz africana, as pessoas estariam indignadas. Mas como foi uma religião cristã, foi relevado.”

Sobre lidar com a repercussão, Luana admite que se preocupou com a imagem pública e os julgamentos que poderia enfrentar. “Ainda se tem aquela ideia de que não ter religião é ser uma pessoa ruim. Eu sou ateia, mas nunca me denomino desse jeito publicamente porque as pessoas imaginam que sou a pior pessoa do mundo.”

A influenciadora relata que foi alvo de ataques por conta de sua aparência. “Fui taxada como diabólica. Ligaram a minha ética ao fato de eu ter cabelo pintado e usar piercing. Acham que uma pessoa assim não é um exemplo de mãe”, lamenta.

“Nada disso define caráter. O que define é respeito. E respeito é justamente o que faltou quando tentaram obrigar uma criança a participar de algo que não faz parte da nossa criação. Minha filha tem voz, tem escolha e tem direito e aparência nenhuma muda isso”, conclui.

Fonte: Bruna Liu , redação Marie Claire — de São Paulo (SP) em 15/02/2026. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Censo: 30% dos municípios dizem não ter profissionais de apoio para alunos com deficiência


Profissionais são responsáveis por dar suporte aos estudantes na locomoção, higiene, alimentação e integração ao ambiente escolar

No Censo Escolar 2024, levantamento mais recente do governo federal, 30% dos municípios brasileiros declaram não ter profissionais de apoio escolar na rede pública para alunos com deficiência, transtorno do espectro autista e superdotação. Os profissionais são responsáveis por dar suporte aos estudantes na locomoção, higiene, alimentação e integração ao ambiente escolar.

No total, há nesses municípios 226 mil alunos com deficiência em classes comuns e exclusivas da educação especial. Metade desses estudantes está no estado de São Paulo, que concentra o maior número de cidades que informaram não ter acompanhantes, são 528.

Entre os 1.659 municípios que declaram não ter profissional de apoio, Feira de Santana (BA) é o que tem mais alunos com deficiência matriculados (6.262). Procurada, a secretaria de Educação do município não respondeu à reportagem.

Os números do Censo, porém, podem ser menores que os reais. No levantamento, São José dos Campos (SP), com 4.893 estudantes da educação especial, consta como tendo só um profissional. Mas a Secretaria de Educação e Cidadania do município informou em nota ter 1.519 acompanhantes nos ensinos infantil e fundamental, além de 318 estagiários de pedagogia. O órgão não esclareceu por que declarou um quantitativo diferente ao Censo Escolar.

O Inep, autarquia federal ligada ao MEC (Ministério da Educação) responsável pelo Censo Escolar, afirma não haver evidências de falhas de processamento interno que justifiquem uma eventual lacuna nos dados.

Segundo o instituto, a responsabilidade pela veracidade e inserção das informações nos sistemas oficiais é dos gestores das escolas e das respectivas redes de ensino, por se tratar de uma pesquisa declaratória.
Luiz Miguel Garcia, presidente da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação) e secretário de Educação de Sud Mennucci (SP), vê com preocupação que tantos municípios tenham declarado não ter profissionais de apoio. Para ele, os números são pouco condizentes com a realidade e a discrepância nos dados pode ser causada por problemas nos questionários do Censo.

“É muito importante que a gente tenha dados reais, para sabermos qual o atendimento feito, de que forma os governos federal e estaduais podem apoiar municípios mais vulneráveis a planejar capacitação de profissionais”, afirma.

Tanto o Estatuto da Pessoa com Deficiência quanto a Política da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista garantem o direito a ter um acompanhante especializado em sala de aula quando necessário.
No entanto, no Censo 2024 constam 189,5 mil profissionais para 1,8 milhão de alunos da educação especial na rede pública em todo o território nacional. A média é de quase dez alunos por acompanhante.

Apenas o município de Pedro Teixeira (MG) tem mais profissionais do que estudantes, são 10 profissionais para 8 alunos, número confirmado pela Secretaria de Educação do município.

Quando um profissional é responsável por vários estudantes com deficiências diferentes, ele fica sobrecarregado, assim como os docentes desses alunos, afirma a pedagoga Neide Azevedo de Brito, especialista em educação especial e inclusiva.

“O profissional de apoio não é um extra, ele é um recurso de acessibilidade, fundamental para ajudar aquele estudante. Quando esse apoio falta, as condições do estudante na escola ficam comprometidas”, diz.

Para Rodrigo Hübner Mendes, fundador do Instituto Rodrigo Mendes, que produz pesquisas e indicadores da educação especial no Brasil, os números do Censo são alarmantes. Ao mesmo tempo, ele afirma não ser necessário haver a proporção de um acompanhante para cada estudante com deficiência, porque nem todos precisam de suporte.

É o mesmo entendimento do presidente da Undime, Luiz Miguel Garcia. “Um profissional por aluno pode, em algumas circunstâncias, limitar o desenvolvimento, ser um fator complicador. É óbvio que nove alunos por profissional, dependendo do tipo de deficiência, trata-se de um déficit. Há uma necessidade de melhorar, mas o número esconde em quais municípios [a política] está dando certo e em quais há urgência.”

Segundo o Censo, apenas 15% dos profissionais de apoio registrados em 2024 na rede pública têm formação continuada em educação especial, com cursos de ao menos 80 horas. Esse era o requisito mínimo estabelecido pela Pneei (Política Nacional de Educação Especial Inclusiva), instituída por decreto assinado pelo presidente Lula no fim de outubro de 2025.

Em dezembro, porém, a norma foi revista e passou a exigir, além da formação mínima no ensino médio, cursos de educação especial com carga horária de pelo menos 180 horas —o que reduz ainda mais o contingente de profissionais que atendem aos critérios.

Em resposta à reportagem, o MEC informou que o período para a adequação das redes de ensino às exigências de formação mínima será discutido com o Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) e a Undime.

O ministério também afirmou oferecer apoio técnico e financeiro às redes de ensino para a especialização de profissionais de apoio e professores, tendo disponibilizado 250 mil vagas em cursos de educação especial em 2025, das quais 88 mil foram preenchidas. O ministério não comentou se há um déficit na oferta de profissionais de apoio na rede pública.

Fonte: ICL Notícias com Folhapress em 12/02/2026. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Em defesa da universidade pública


A lei de cotas no Brasil é uma das políticas públicas mais transformadoras das últimas décadas. Ela abriu as portas da universidade pública para jovens de escola pública e de famílias de baixa renda, que por muito tempo ficaram de fora de espaços historicamente reservados à elite brasileira.

E ao contrário do mito repetido por quem nunca leu uma linha de pesquisa sobre o tema, os estudos são claros e amplamente divulgados: estudantes cotistas apresentam desempenho igual ou até superior ao de não cotistas. Quando a oportunidade chega, o talento aparece.

A universidade pública fica mais diversa, mais representativa e mais justa. E o país ganha profissionais que conhecem de perto os desafios reais da população.

O problema são os pobres coitados que caem no discurso fajuto e simples de políticos que dizem que a Universidade pública é lugar de drogas, militância e doutrinação. 

Cotas não são privilégio. São reparação, inclusão e eficiência social.

Assista ao comentário completo AQUI!

Prof. Marcio Ladeira


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A polêmica das escolas cívico-militares


"Tenho alertado e sendo contra a implantação de escolas cívico-militares. Isso não é educação, é militarização. Colocar policiais sem formação pedagógica em sala de aula, que cometem erros básicos de escrita, enquanto eles ensinam outras coisas, não é o correto. 

Isso não forma cidadãos críticos, acaba formando soldados. Em São Paulo, o governo desmonta o ensino médio, retira disciplinas fundamentais e destrói a antiga educação para impor uma visão autoritária e conservadora de sociedade. 

Educar não é treinar para a guerra e criar soldados, educar é ensinar a pensar."

José Dirceu

Assista AQUI os comentários a respeito da polêmica.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Nikolas não entende nada de Educação

 


Nikolas Ferreira finalmente admitiu que votou contra o gás para a população pobre. Para tentar justificar essa ação, ele resolveu atacar a educação brasileira, mas os dados do PISA, o ranking internacional de educação, mostram uma realidade que ele tenta esconder. O gráfico é claro: os níveis de ciência, matemática e leitura subiram de forma consistente durante os governos Lula, mas despencaram no período liberal e militarizado de Temer e Bolsonaro. 

Assista ao vídeo AQUI! 

Samuel Braun 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Como fica o novo piso salarial dos professores e o Leão

 


Café com Seu Professor

Maneira didática de entender como fica o aumento do Piso Nacional e o desconto no Imposto de renda. Assista ao vídeo aqui.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Receita nega aumento de imposto para professores com novo piso


Fisco esclarece que reajuste vem acompanhado de redução de tributos


A Receita Federal rebateu, na noite da quinta-feira (22/1), informações falsas que circulam nas redes sociais sobre uma suposta elevação da tributação sobre professores em razão do reajuste do piso salarial do magistério. Segundo o órgão, as alegações ignoram as regras legais de apuração do imposto e levam à conclusão equivocada de que os profissionais da educação passariam a pagar mais IR após o aumento salarial.

Em nota, o Fisco destaca que a reforma do Imposto de Renda faz com que mais contribuintes deixem de pagar IR e outros passem a pagar menos, tornando a tributação mais progressiva. Sancionada no fim do ano passado, a Lei 15.270/2025 ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês e reduziu o imposto devido sobre rendimentos entre R$ 5 mil e R$ 7.350.

“Não procede a afirmação de que o reajuste do piso do magistério levaria automaticamente os professores a pagar mais Imposto de Renda. Os profissionais da educação são diretamente beneficiados pela redução prevista na Lei nº 15.270/2025”, destacou a Receita no comunicado.
De acordo com a Receita, a categoria está entre as diretamente beneficiadas pelas novas regras.

Em 2025, com o piso salarial de R$ 4.867,77, um professor pagava cerca de R$ 283,14 por mês de Imposto de Renda retido na fonte, considerando o desconto simplificado. Já em 2026, com o piso reajustado para R$ 5.130,63, esse mesmo profissional passará a pagar aproximadamente R$ 46,78 mensais de IR.

Segundo o Fisco, o efeito combinado do reajuste salarial e da redução do imposto garante ganho real no salário líquido, ao mesmo tempo em que corrige distorções na tributação sobre a renda dos profissionais da educação.

Fonte: ICL Notícias com Agência Brasil em 23/01/2026.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Agora é pra valer, o professor está abaixo do mínimo. Por Valter Mattos da Costa*


Quando ensinar vira sobrevivência: o salário do professor no Rio de Janeiro como síntese de um projeto de abandono da educação pública

Em plenas férias escolares, os professores do ensino básico e público do Estado do Rio de Janeiro, ao se depararem com o novo salário-mínimo nacional, R$ 1.621,00, estipulado pelo Governo Federal e em vigor desde 1º de janeiro deste ano, verificaram, agora oficialmente, que com seus R$ 1.588,41, ganham menos que um salário-mínimo.

Não se trata de retórica inflamada, nem de figura de linguagem. Trata-se de um dado objetivo, verificável, matemático. O vencimento base de um professor da rede estadual fluminense está abaixo do mínimo legal para a sobrevivência do trabalhador brasileiro.

O fato novo não veio do Palácio Guanabara. Veio de Brasília. Foi o reajuste do salário-mínimo nacional que escancarou, sem maquiagem possível, o rebaixamento salarial imposto aos docentes do Rio de Janeiro ao longo de anos.

O governo estadual, por enquanto, nada fez. Nada corrigiu. Nada recompôs. Apenas manteve congelada uma estrutura salarial corroída pela inflação, pelo custo de vida e pela deliberada política de desvalorização da carreira docente.

Convém insistir: não foi um acidente administrativo. Não foi erro de cálculo. Não foi um lapso técnico. Foi uma escolha política reiterada, sustentada por sucessivos governos estaduais, aprofundada pelo atual.

Quando um professor passa a ganhar menos que um salário-mínimo, algo muito mais grave está sendo dito. Diz-se que ensinar vale menos que sobreviver. Diz-se que a educação pública é descartável.

O governo Cláudio Castro precisa ser citado nominalmente, porque governos não são abstrações. Governos têm rosto, projeto, orientação ideológica e prioridades muito bem definidas. E a prioridade do atual governo do Estado do Rio de Janeiro — como os demais — jamais foi a educação pública. Basta observar a ausência de política de valorização docente, de carreira estruturada e de respeito ao piso nacional.

O piso do magistério, vale lembrar, não é teto. É referência mínima. Ainda assim, o Estado insiste em cumpri-lo apenas de maneira formal, por meio de abonos, penduricalhos e artifícios contábeis.

Esses mecanismos não integram o vencimento base, não repercutem na carreira, não incidem na aposentadoria. Servem apenas para simular cumprimento legal, enquanto esvaziam o sentido da valorização profissional.

O resultado é perverso: uma carreira achatada, sem atratividade, sem perspectiva e sem dignidade. Um convite permanente à evasão docente, ao adoecimento e ao abandono da sala de aula (um apagão da profissão docente aproxima-se).

Nenhuma sociedade que se pretenda minimamente civilizada pode tratar seus professores dessa maneira. Quando o professor é empurrado para a pobreza, a escola inteira adoece junto.

A retórica oficial costuma dizer que educação é prioridade. Mas prioridade que não se traduz em orçamento, salário e carreira é apenas propaganda vazia, típica de governos que governam por slogans.

No Rio de Janeiro, a contradição é gritante. Enquanto professores lutam para fechar o mês, o Estado mantém isenções, renegocia dívidas seletivamente e protege interesses que jamais passam pela escola pública.

O salário do professor não é um detalhe administrativo. Ele expressa o lugar simbólico que a educação ocupa no projeto de Estado. Hoje, esse lugar é marginal — e o sentido do que é a Educação pública está em disputa: que Educação queremos pagando tão mal aos seus professores?

Ganhar menos que um salário-mínimo não é apenas um problema financeiro. É uma violência simbólica. É o recado de que o trabalho intelectual, pedagógico e formativo não merece reconhecimento.

Esse quadro não afeta apenas os professores. Afeta estudantes, famílias, comunidades inteiras. Afeta a qualidade do ensino, a permanência dos profissionais e o futuro do próprio estado.

Sem professor valorizado, não há escola pública forte. Sem escola pública forte, não há desenvolvimento, não há cidadania, não há democracia que se sustente. A tentativa de naturalizar essa situação revela um projeto de sociedade profundamente desigual, em que educação pública de qualidade não é direito, mas privilégio de poucos.

Por isso, é fundamental recolocar essa pauta no centro do debate público. Não como favor corporativo, mas como questão estrutural, social e política. A luta por recomposição salarial, carreira e piso real é uma luta pela própria existência da escola pública. Não se trata de aumento, mas de recomposição mínima do que nos foi retirado ao longo do tempo.

É preciso exigir audiência pública, transparência orçamentária e compromisso político real. Não apenas a categoria docente, mas a sociedade civil organizada, seus representantes, entidades, movimentos e instituições precisam lutar, exigir e propor ações concretas.

O Legislativo estadual não pode continuar fingindo que não vê, nem a sociedade aceitar que o futuro da educação seja tratado como assunto corporativo ou secundário. Valorização não é discurso emocionado em data comemorativa. Valorização é salário digno, carreira estruturada e respeito institucional cotidiano.

Enquanto o professor for tratado como custo e não como investimento, o Rio de Janeiro — e o país — continuará aprofundando seu próprio atraso social. O salário-mínimo subiu. O salário do professor ficou. Esse contraste não é casual. É pedagógico. Ensina, cruelmente, qual é o valor atribuído a quem educa.

Em 2026, essa realidade precisa ser enfrentada sem eufemismos. Professor não pode ganhar menos que o mínimo. Isso não é ideologia. É decência. Se o governo estadual insiste em ignorar esse limite civilizatório, caberá à sociedade cobrar. Porque precarizar o professor é precarizar o futuro. E um estado que despreza seus professores está, no fundo, desistindo de si mesmo.

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.

Fonte: ICL Notícias em 19/01/2026.