quinta-feira, 23 de julho de 2026

Academia enfrenta desafio de se adaptar a demandas geradas pelo crescimento do número de estudantes com autismo


Pesquisadores e graduandos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) relatam suas vivências na Unesp; na graduação da Universidade, há 403 alunos autodeclarados com TEA, o que representa 1,15% de todos os matriculados

Desde 2007, por decisão da Assembleia Geral da ONU, celebra-se em 2 de abril o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a população global que se insere no Transtorno do Espectro Autista (TEA) alcança cerca de 70 milhões de pessoas. No Brasil, o total de pessoas com diagnóstico de TEA é de 2,4 milhões, ou 1,2% da população, segundo dados coletados pelo IBGE no Censo Demográfico de 2022.

Em 2008, entrou em vigor no Brasil a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, com status de emenda constitucional. A nova legislação inseriu, no texto da Constituição, a condenação à discriminação contra indivíduos PCDs e o reconhecimento à sua diversidade. A Convenção, porém, não incluía os indivíduos com TEA. Estes só passaram a ser reconhecidos como pessoas com deficiência no Brasil em 2012. A Lei 12.764/2012, conhecida como Lei Berenice Piana, propôs diretrizes para a maior participação social da pessoa com TEA, garantindo o acesso ao trabalho, à proteção social e à educação.

Naquele ano, o ensino superior do país registrava apenas 244 matrículas de estudantes com TEA. Em 2024, o número já alcançava 15.941, contabilizando os inscritos em cursos presenciais e a distância. Na graduação da Unesp há 403 alunos autodeclarados com TEA, o que representa 1,15% de todos os matriculados. Na Pós-Graduação há 20 pesquisadores, que representam 0,16% do total de inscritos.

A física Anne Kétri Pasquinelli da Fonseca, de 25 anos, é um dos pós-graduandos com TEA na Unesp. Doutoranda em física pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), em Rio Claro, ela ingressou na graduação em física na Unesp em 2018 e desde então vem construindo sua trajetória científica dentro da Universidade.

Suas pesquisas na área de Caos e Sistemas Dinâmicos analisam as mudanças de fase em sistemas bilhares, campo de estudo na física de partículas, e buscam compreender de que forma os sistemas podem transitar de um comportamento mais estável para um regime caótico. A título de comparação, é como se as partículas fossem bolinhas coloridas de bilhar, e Fonseca investiga o comportamento destes objetos ao colidirem com as “bordas da mesa de sinuca”.

Em 2026, a pesquisa da cientista foi selecionada pelo edital Doctoral Dissertation Research Award, do Programa Fulbright, e Anne Kétri irá para a Universidade da Dakota do Norte, nos Estados Unidos, aprofundar os estudos.

Embora recebesse acompanhamento psiquiátrico e psicológico desde os 14 anos, a pesquisadora unespiana só obteve o laudo de TEA aos 22 anos, quando já estava no final da graduação. A pesquisadora foi enquadrada como pessoa com TEA nível 1, com menor necessidade de suporte. O entendimento sobre a condição, no entanto, é de extrema importância para que haja a compreensão de alguns eventos individuais.

“O universo acadêmico, assim como os demais ambientes, presume que, com o avanço da idade, você já saiba como agir e falar em certas situações”, diz Anne Kétri. “Mas enfrento muitas dificuldades com coisas que, às vezes, parecem que são parte do senso comum. Consigo fazer tudo que me pedem. Mas as instruções e a comunicação precisam ser claras”, explica a pesquisadora.

Para explicar a importância destas instruções, a física teórica usa como exemplo uma hipotética tarefa de organizar uma estante. Na ausência de orientações claras, são muitas as possibilidades de arrumação: por cores, pelos tamanhos ou pelas datas de publicação. Pessoalmente, ela pensa que o mais lógico seria uma organização baseada no sobrenome dos autores. Mas basta a possibilidade de que ocorra algum erro no processo de organização para gerar tensão e ansiedade nas pessoas com TEA. Daí a importância de prover instruções claras para assegurar o bem-estar destes indivíduos. Esta necessidade, porém, muitas vezes é taxada de frescura, e simplesmente ignorada.

Ao comparar o quadro que viveu durante seu período na graduação com o momento atual de estudante na pós-graduação, Anne Kétri relata melhorias. “Com o surgimento das diretorias de acessibilidade e inclusão vão aparecendo oportunidades para solicitar uma monitoria, ou outras adaptações”, relata. “Antes, parecia não haver essa possibilidade. Era você que tinha que se adaptar, e não a universidade. Mas isso não faz sentido. Pense no caso de uma pessoa que usa cadeira de rodas: a universidade se responsabilizaria por inserir alguma adaptação. No caso do autismo, acho que isso está acontecendo aos poucos.”

Fonte: Jornal da UNESP em abril de 2026.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Aula de cidadania


Ministério Público contra oração evangélica na abertura do Fórum Permanente de Conselheiros e Ex-Conselheiros Tutelares

A promotora de Justiça Elayne Rodrigues, representante do Ministério Público, manifestou-se contra a realização de uma oração evangélica na abertura do Fórum Permanente de Conselheiros e Ex-Conselheiros Tutelares, em Duque de Caxias (RJ). A intervenção provocou reações no local e levantou a discussão sobre a manifestação religiosa em eventos abertos à população e a aplicação do princípio do Estado Laico.

Durante seu pronunciamento na mesa, a promotora relatou sua discordância com o ato realizado no início da cerimônia. "Ao início do evento, eu fui assolapada por uma oração evangélica", afirmou. Ela justificou que, por sua função, tem o dever de assegurar a liberdade religiosa dos presentes. Ao descrever que a atividade envolveu um "sentimento de Deus", ela declarou: "Tenho que esclarecer que isto é inconstitucional".

Para embasar o argumento, a representante do MP afirmou que o fórum, embora promovido por uma associação civil, caracterizava-se como um evento público. "A fé é um direito privado, que não deve ser estendido a outras pessoas num evento público", disse a promotora, acrescentando que se sentiu "extremamente ofendida" com a situação.

A declaração gerou divergências entre os participantes da cerimônia. Durante a exposição da promotora, uma pessoa na mesa tentou interrompê-la. A autoridade respondeu com uma advertência: "Se a senhora começar a interferir na minha fala, na fala do Ministério Público, eu me retiro". A representante informou que já havia comunicado aos organizadores que o órgão deixaria o local caso uma oração fosse conduzida e classificou a interrupção como um "deboche" que ofendia o Ministério Público e a Constituição da República.

Assista a polêmica AQUI!

Fonte: @jurinewsbr em 08/07/2026

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Você quebrou o sistema educacional


O sistema educacional é quebrado — mas ele não se quebrou sozinho. Nesse vídeo eu explico por que a crise da educação não é só culpa do governo, nem só do professor: é o resultado de uma ausência que ninguém quer admitir. @iuripiragibe

Assista ao vídeo AQUI!

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A decisão da China sobre IA nas escolas expõe um desafio para a educação brasileira


Embora 84% dos estudantes brasileiros já utilizem inteligência artificial nos estudos, apenas 32% receberam orientação da escola sobre como usar a tecnologia

A decisão da China de incluir inteligência artificial em todas as etapas da educação básica acende um alerta para outros países: a discussão sobre IA nas escolas já não está mais restrita ao uso de ferramentas digitais. O desafio agora é preparar crianças e adolescentes para compreender como esses sistemas funcionam, avaliar seus impactos e desenvolver competências que serão exigidas em um mercado cada vez mais orientado pela tecnologia.

Em abril deste ano, o Ministério da Educação chinês anunciou o plano nacional "AI+Educação", que prevê a universalização da alfabetização em inteligência artificial até 2030. A medida amplia uma política iniciada em 2025, quando estudantes de 6 a 15 anos passaram a ter contato obrigatório com conteúdos relacionados ao tema.

Diferentemente da abordagem mais comum em muitas escolas, centrada no uso de ferramentas como chatbots e assistentes virtuais, o modelo chinês busca ensinar os fundamentos da tecnologia. A proposta inclui lógica computacional, dados, pensamento algorítmico e programação de forma progressiva, desde os primeiros anos até as etapas mais avançadas da formação.

No Brasil, a realidade mostra que os estudantes já incorporaram a IA ao cotidiano escolar, mas ainda com pouca orientação estruturada. Pesquisa do Observatório Fundação Itaú aponta que 84% dos alunos brasileiros já utilizaram recursos de inteligência artificial no contexto escolar.

Entre eles, 90% recorrem à tecnologia para pesquisas e esclarecimento de dúvidas, enquanto 80% a utilizam para realizar atividades. Apesar disso, apenas 32% afirmam ter recebido orientação da escola sobre o uso adequado dessas ferramentas.

Para Marco Giroto, fundador da SuperGeeks, escola especializada no desenvolvimento de competências tecnológicas, esse contraste mostra que o debate precisa avançar.

"Os estudantes já estão usando inteligência artificial. A questão é se eles estão apenas consumindo respostas prontas ou aprendendo a entender como essas respostas são produzidas. A diferença entre usar uma ferramenta e compreender sua lógica será cada vez mais importante para a formação das novas gerações", afirma.

O movimento também acompanha mudanças previstas para o mercado de trabalho. Segundo o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades exigidas pelas empresas deverão mudar até 2030, enquanto 59% dos trabalhadores precisarão passar por processos de requalificação. Entre as competências com maior crescimento projetado estão alfabetização tecnológica, inteligência artificial, pensamento analítico, adaptabilidade e aprendizado contínuo.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em estudo publicado em junho de 2026, reforça essa direção ao destacar que o desafio não está apenas em formar especialistas em IA, mas em ampliar a alfabetização sobre a tecnologia e desenvolver competências que permitam à população compreender, utilizar e trabalhar de forma crítica com esses sistemas.

Segundo Giroto, ensinar IA na infância não significa formar programadores desde cedo, mas desenvolver raciocínio lógico, pensamento crítico, criatividade e capacidade de resolver problemas.

"A inteligência artificial vai mudar muitas profissões, mas isso não significa que toda criança precise se tornar especialista em tecnologia. O ponto é prepará-la para entender o mundo em que vai viver. Quem compreende a lógica por trás da IA tem mais condições de questionar, criar, tomar decisões melhores e participar de forma ativa das transformações que virão", conclui.

Sobre

A rede de franquias SuperGeeks nasceu com o objetivo de formar não somente consumidores, mas também criadores de tecnologia. Desde 2014, a marca assume uma posição importante ao preparar as novas gerações para os desafios e oportunidades do futuro tecnológico, dedicando-se a ensinar programação, robótica e inteligência artificial, de forma lúdica e criativa, atendendo todas as faixas etárias. 

Fonte: Lucky Assessoria de Comunicação. patricia@luckyassessoria.com.br (11) 99279-8889

quarta-feira, 8 de julho de 2026

'Educação sem propósito vira distração.'


No Arco Day 2026
, Débora Garofalo trouxe uma reflexão importante sobre inovação na educação: tecnologia, por si só, não transforma a aprendizagem.

É a intencionalidade que transforma ferramentas em oportunidades, estudantes em protagonistas e informação em reflexão.

Porque, no fim, quando falamos de educação, estamos falando de pessoas.

@arcoeducacao

Só nós professores sabemos dessas histórias. O mundo não tem noção dos gênios que chegam até nós, e às vezes não temos como dar o encaminhamento que eles merecem.

@fabianoazevedo333

Assista o vídeo no Instagram AQUI!


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Um exemplo de educadora


"Marva Collins
era professora em Chicago nos anos 70 e recebia as crianças que as outras escolas mandavam embora, as que tinham sido rotuladas como “burras”, “problemáticas”, sem futuro.

Ela não aceitou esses rótulos. Criou a própria escola no segundo andar da sua casa, com método rigoroso, afeto inabalável e uma crença simples: toda criança é capaz de aprender, desde que alguém acredite nela primeiro." @vivianborgespsicopedagoga

"Sua história inspirou o filme para televisão The Marva Collins Story, estrelado por Cicely Tyson.... Até porque os conceitos de "pobre" e "negro" ou seja qual for a classificação social que dão não definem quem uma pessoa é. Condições socioeconômicas e etnia não determinam caráter, capacidade ou valor humano, muitas dessas associações foram fortalecidas por uma lógica de opressão e por um pensamento colonizador que hierarquizou pessoas e naturalizou desigualdade e que perdura ainda nos tempos de hoje... superar esses rótulos também faz parte do amadurecimento social. e Marva Collin trouxe outra postura , com sua atitude perspicaz , eficazmente Collin fez. Isso nos leva a refletir: a necessidade de mais responsabilidade na gestão dos recursos públicos e um compromisso constante com uma educação e políticas públicas de qualidade." @silviapedneuro


Assista AQUI!

 

domingo, 5 de julho de 2026

Sem barba, bigode ou brinco: alunos denunciam preconceitos em escolas cívico-militares de São Paulo


Baseadas em regimento experimental do governo estadual, normas de padronização visual geram atrito e ameaçam diversidade

Estudantes de uma escola cívico-militar de São Paulo denunciaram, à direção escolar, militares que estariam agindo de forma preconceituosa com os alunos. Um deles teria afirmado que “cabelo comprido e brinco não é coisa de menino”. Em resposta, o diretor afirmou aos estudantes, durante uma formação, que a permanência deles na escola é uma escolha dos responsáveis legais, sugerindo que os descontentes busquem outras unidades de ensino. Na declaração, à qual o Brasil de Fato teve acesso, o administrador anuncia a implementação de um regime disciplinar mais rígido a partir da semana seguinte.

“Já acabou a paciência. Vocês têm que entender o que vocês têm que fazer aqui dentro dessa escola. Eu já falei: não são obrigados a estarem aqui. Estão aqui porque os pais escolheram aqui. A mesma coisa que eu falei nas duas turmas: quem manda ainda em vocês são os responsáveis de vocês, porque vocês são todos menores”, afirmou o diretor. “Querem reclamar? Reclamem em casa. Não está feliz aqui, seja feliz em outro lugar. Só que quem estiver aqui vai seguir as regras do Círculo Militar, e que fique entendido para todos. A partir de segunda-feira, vai ser uma nova escola.”

As escolas cívico-militares do estado de São Paulo, implementadas pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), seguem um regimento interno “experimental”, que define, entre outros tópicos, regras de comportamento e estilo. De acordo com a Secretaria de Educação estadual, ainda não há um regimento finalizado publicado, e as escolas se baseiam no documento descrito como experimental. Ainda segundo a pasta, o documento final trará alterações.

As normas determinam que o cabelo dos meninos seja mantido no estilo conhecido como meia cabeleira, com formato considerado discreto e harmonizado em toda a cabeça. O documento também define limites para as costeletas, que devem terminar na altura das incisuras laterais das orelhas. Além disso, orienta os alunos a não adotarem cortes raspados, desenhos com letras, símbolos ou riscos, pinturas coloridas, topetes e penteados do tipo moicano.

As regras proíbem ainda o uso de bigode, barba e cavanhaque. O regimento também veta alterações nas sobrancelhas por meio de cortes ou riscos, conhecidos como talhos, para evitar mudanças em sua forma natural. Segundo o texto, as orientações têm como objetivo padronizar a apresentação pessoal dos estudantes dentro do ambiente escolar. Adereços como brincos, colares, pulseiras, relógios e anéis são permitidos somente para as meninas e devem ser utilizados “de forma discreta”.

Questionado se possui algum documento com diretrizes para esse modelo escolar, o Ministério da Educação informou que descontinuou o Programa de Fomento às Escolas Cívico-Militares (Pecim), por meio do Decreto 11.611/23 que estabeleceu um processo de transição para seu encerramento de forma cuidadosa, de maneira a não prejudicar as escolas que haviam aderido. Desde 1º de janeiro de 2024, portanto, todas as escolas cívico-militares criadas pelo Decreto 10.004/19 deixaram de existir. Com o fim do Programa de Fomento às Escolas Cívico-Militares (Pecim) não existe incentivo por parte do MEC para iniciativas de escolas cívico-militares.

Autoritarismo ligado ao modelo

As imposições reclamadas condizem com o regimento do governo estadual. Ainda que experimentais, as regras demonstram o aspecto autoritário do modelo das escolas cívico-militares. 

Catarina Santos, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora associada da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), afirma que as restrições relacionadas ao cabelo, às vestimentas e aos comportamentos não surgem do ambiente escolar, mas são transferidas do modelo militar para dentro das salas de aula.

“Quando você pega as regras e como os monitores estão implementando isso na escola, você pode pegar os regimentos dos quartéis e eles vão ter as mesmas proibições. O que acontece quando a escola é militarizada? Leva-se para a escola as mesmas regras do quartel. Não por acaso, a gente cunhou isso muito da pedagogia do quartel. Você imprime aos estudantes as regras que são impostas aos militares ou aos soldados”, diz. 

Santos, no entanto, defende que essa transposição descaracteriza a escola como espaço de convivência entre diferentes formas de expressão e identidade. “A escola não é um quartel, os estudantes não são soldados. Essas regras que são definidas para uma categoria profissional, no caso dos militares, ao levar isso para a escola, destituem-na da sua característica de diversidade. A escola pública é essa escola de convivência com as diferenças, com quem tem o cabelo comprido, com quem tem o cabelo colorido, com quem tem cabelo curto, com quem raspa a cabeça, com quem usa brinco, com quem usa cabelos diferentes.”

A professora afirma ainda que a estrutura militar é baseada em hierarquia e cumprimento de ordens, o que seria incompatível com a construção de um ambiente democrático. “No quartel, você tem regras muito rígidas e muito definidas. O militarismo é um espaço autoritário, é um espaço que funciona a partir de regras estabelecidas hierarquicamente. Isso na escola não cabe. Quando você leva para a escola a lógica desse militarismo, você destitui a escola de ser um espaço de construção de democracia”, diz. 

Catarina também questiona os fundamentos utilizados para sustentar a constitucionalidade dos programas de militarização das escolas. Segundo Santos, os próprios manuais que orientam o funcionamento do modelo entram em conflito com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. A pesquisadora diz que a padronização imposta aos estudantes contraria princípios de respeito à diversidade e às diferenças garantidos pela legislação brasileira.

Para a pesquisadora, os relatos apresentados por estudantes reforçam críticas já registradas em outras regiões do país. “Tudo isso que vocês vão trazendo, que vocês ouvem, mas que eu vivencio das denúncias, mostra o quão é furada essa tese da constitucionalidade da militarização.”

A professora avalia ainda que a expansão das escolas cívico-militares está associada à construção de uma narrativa segundo a qual esse modelo garantiria segurança, disciplina e melhores resultados educacionais. A pesquisadora argumenta, porém, que a disciplina e a convivência social não dependem da lógica militar.

“Há um processo de convencimento desta sociedade. Constrói-se um entendimento de que a escola militar será a escola segura, a escola ordenada. Vai se dizer que as escolas não militarizadas são escolas indisciplinadas, desordeiras e que não entregam resultados. Mas a disciplina não tem a ver com a disciplina militar. A convivência precisa ser pautada no respeito e não no medo”, afirma.

Sobre a expansão das escolas, Fernando Cássio, professor da Faculdade de Educação da USP, afirma que a militarização é apresentada como uma solução para problemas históricos da educação pública, como falta de investimentos, infraestrutura insuficiente e carência de professores. Segundo o docente, a proposta se apoia na percepção de parte da população de que a escola pública está abandonada pelo Estado e oferece a militarização como um caminho para melhorar a qualidade do ensino.

No entanto, Cássio avalia que a expansão dessas escolas não pode ser explicada apenas pelo conservadorismo. Segundo o professor, embora existam demandas conservadoras em determinadas regiões, a procura pelo modelo também está relacionada à expectativa de melhoria das condições das escolas. “Não é a militarização necessariamente, é a melhoria da qualidade da escola. A escola vai ser pintada, a escola vai ter professor com dedicação exclusiva, a escola vai ter climatização nas salas”, diz. 

O pesquisador destaca ainda que, em São Paulo, a maioria das escolas militarizadas está localizada no interior do estado e que grande parte delas já funcionava em tempo integral. Segundo Cássio, essas unidades costumam receber mais recursos e apresentar melhores condições de funcionamento, o que dificulta atribuir eventuais resultados à militarização.

Ele também chama atenção para municípios pequenos que passaram a concentrar todas as matrículas do ensino médio em escolas militarizadas. “Não tem escola de ensino médio que não seja militarizada. Então não tem nem opção.” Segundo Cássio, a ausência de alternativas limita a escolha das famílias e amplia os impactos do modelo sobre todo o sistema de ensino.

Para Cássio, embora a proposta seja apresentada como um instrumento para melhorar a disciplina e a qualidade do ensino, os efeitos observados nas escolas seguem outra direção. “Ela piora a vida dos alunos, porque estimula o bullying, o assédio, uma série de violências que supostamente a militarização desejaria combater. Ela, na verdade, reforça tudo isso”, afirma. 

Até maio de 2026, as escolas militarizadas estavam presentes em 862 municípios brasileiros, o equivalente a 15,5% das 5.571 cidades do país. O levantamento, do grupo de estudos Direito à Educação, Economia e Políticas Educacionais (Deep) da USP, aponta a existência de 1.578 unidades com esse modelo de gestão. Desse total, 1.047 são estaduais, o que representa 66,3% das escolas militarizadas. Outras 499 pertencem às redes municipais, correspondendo a 31,6%, enquanto 32 são privadas, ou 2% do total.

O número de escolas militarizadas cresceu 595% em relação a 2019, ano em que o governo de Jair Bolsonaro criou o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), descontinuado em 2023, e passou a incentivar a adoção do modelo nas redes públicas de ensino.

Entre os municípios com maior número de escolas estaduais militarizadas estão Cuiabá, com 42 unidades, Curitiba, com 35, Manaus, com 29, Brasília, com 25, Londrina, com 21, e Boa Vista, com 20. Nas redes municipais, os maiores números foram registrados em Maracanaú, no Ceará, com 13 escolas militarizadas, seguido por Paço do Lumiar, no Maranhão, com nove, e Mirador, também no Maranhão, com oito. 

Fonte: Brasil de Fato em 23/06/2026

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Rio: Escola da Maré está entre as melhores e recebe prêmio internacional


O reconhecimento internacional é só uma parte dessa história

Por trás dele, existem alunos que sonham, profissionais que acreditam, famílias que caminham juntas e uma comunidade que faz da educação um espaço de transformação todos os dias.

Conheça um pouco mais do GET IV Centenário, escola finalista do Prêmio Melhores Escolas do Mundo 2026 na categoria “Superação de Adversidades”.

Assista o vídeo AQUI!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Mãe denuncia ameaça a filho de 3 anos em escola militar no RS


'Chora com vontade, senão vou te dar um tiro'

A psicóloga Shaiane Costa achou estranho quando o filho de 3 anos começou a acordar de madrugada, aos prantos, perguntando se tinha que ir para a escola no dia seguinte.

Causou desconfiança na mãe o fato de a criança chorar rotineiramente no caminho para a Escola de Educação Tio Chico, em Porto Alegre. Mantida pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul, a instituição atende gratuitamente filhos dos brigadistas com idades entre 2 e 6 anos.

Ela conta que Pedro, cujo nome foi alterado para preservar a criança, chegava em casa dizendo que havia ficado de castigo. Desculpava-se, com insistência, diante de qualquer situação. "Se ele derrubasse uma água, ele me pedia desculpas várias vezes", diz. E começou a chorar muito ao se aproximar da escola.

Foi depois de mais um dia em que Pedro entrou pelo corredor da escola aos berros, pulando, "sendo levado", sem que ela pudesse acompanhá-lo, que a situação chegou ao limite para Shaiane.

No dia seguinte, ela colocou um gravador dentro da mochila da criança.

No início, Shaiane disse que não tinha razões para se preocupar com a instituição onde seu filho passava algumas horas do dia.

Para chegar ali, a família esperou que ele completasse dois anos — pré-requisito para a matrícula — e passou por um processo seletivo, do qual ela desconhece os critérios de aceitação.

Mas, como o pai é brigadista, e a proposta apresentada à família era de uma escola de educação infantil, a instituição parecia uma boa escolha, segundo ela afirma.

Passado o período comum de adaptação, Pedro foi se acostumando e começou a fazer amiguinhos.

Esporadicamente, algumas situações na escola incomodavam a mãe, como quando ele chegou com uma mordida no braço sem explicação.

"Perguntei se ele não avisou à professora [sobre a mordida] e ele disse que não, que ela estava ocupada cuidando de outros coleguinhas e por isso ele não quis falar", conta ela.

"Fiquei sem entender. Como ninguém viu aquela mordida?"

Ao perguntar à professora, a mãe ouviu que ninguém viu o ocorrido e que o menino não havia chorado.

"Achamos estranho. Uma mordida daquelas deve ter doído, e é normal que a criança chore."

Na mesma lista de situações que causaram estranheza à família do menino, está o dia em que ele voltou para casa com febre alta sem que ninguém houvesse avisado a mãe ou o pai, segue ela.

Um dia, Pedro chegou com uma assadura tão severa que ficou com dificuldade de caminhar pela casa.

Em nenhum desses episódios a escola demonstrou ter tomado conhecimento do ocorrido, de acordo com a mãe.

"Essas situações pequenas iam acontecendo e parecia que ninguém estava vendo", diz ela.

As tentativas de contato com a escola, segundo a mãe, eram todas frustradas.

"Eu tenho vários registros de mensagens que eu tentava mandar para a professora, e ela sempre minimizando", afirma. "Eu não tinha nenhum acolhimento da parte deles, era sempre 'ah, isso aí acontece, é normal'."

"Mandei mensagens para a sarjenta, que é como se fosse a coordenadora da escola, e não tive retorno", diz. "Eu ficava ali sendo ignorada."

Com o passar dos meses, a mãe diz ter percebido que a primeira coisa que o filho perguntava ao acordar era se ele teria de ir para a escola. Diante da resposta positiva, ela diz, o menino permanecia a manhã toda em casa calado.

"Ele não brincava, não tinha aquela energia, não tinha disposição. Parecia que ele ficava a manhã inteira só esperando aquela hora [de ir para a escola] que ia ser um sofrimento."

Sem diálogo com a escola e diante dos episódios duvidosos, Shaiane teve a ideia do gravador.

No dia em que ela colocou o aparelho na mochila do menino, ele voltou para casa rouco.

"Ele chegou quase sem voz, e eu lembro que naquele dia mandei mensagem para o meu esposo e falei 'olha, ele está resfriando'."

Em seguida, a mãe foi ouvir as gravações.

"Aí foi um choque."

A BBC News Brasil teve acesso a trechos da gravação. É possível ouvir o menino chorando, pedindo a chupeta e chamando pela mãe.

"Meu filho ficou cerca de 40 minutos berrando, e acaba se acalmando sozinho, porque tem um momento da gravação que ele volta e diz 'eu me acalmei'", conta. "Ele foi totalmente escanteado."

Em um trecho, é possível ouvir uma mulher dizendo para o garoto: "O que tu tá fazendo? Tu não vais pintar mais", e o menino responde: "Desculpa".

A mulher então diz "não, tu não vais pintar mais, acabou. Eu adoro pintar e vou". O menino então começa a chorar e pede pela mãe. A mulher responde: "Não me vem com mamãe".

Em outro trecho, o que deixou Shaiane mais assustada, ouve-se a voz de uma mulher dizendo: "Chora, pode chorar, chora bastante, chora com vontade. Senão vou te dar um tiro".

"Na gravação é possível ouvir barulhos o tempo inteiro, e eu escuto ele berrando, pedindo pela mamãe", conta Shaiane.

"Ou seja, naquele dia, ele chegou em casa rouco, não era por causa de um resfriado. Foi de tanto que ele chorou."

Legenda da foto, Shaiane procurou a professora de Pedro para perguntar sobre uma marca de mordida, mas ouviu que ninguém viu o que aconteceu e que a criança não chorou

'O que mais ele passou?'

Os episódios relatados ocorreram no ano passado. Shaiane e o marido recorreram ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), que os orientou primeiro a realizar uma denúncia via Corregedoria da Brigada Militar do Rio Grande do Sul.

A BBC News Brasil procurou o departamento de imprensa da Brigada que afirmou, por meio de nota, que um inquérito foi aberto para apurar os fatos e que a professora de Pedro foi afastada durante o período de investigação.

No entanto, ela retornou à escola antes da conclusão do inquérito. Segundo Shaiane, famílias de outras crianças fizeram um abaixo-assinado pedindo a volta da servidora.

"Tentaram nos calar. Uma mãe inclusive colocou no grupo de WhatsApp um trecho do processo, que corria em sigilo", conta Shaiane.

Segundo a nota da Brigada, o laudo pericial feito pela própria Corregedoria concluiu que "os arquivos analisados não apresentaram elementos técnicos suficientes para confirmar integralmente o conteúdo divulgado, nem permitiram a identificação conclusiva da autoria vocal".

"Com base no conjunto de provas reunido, incluindo depoimentos e laudo pericial, não foram identificados elementos suficientes para comprovar ilícito penal ou transgressão disciplinar", diz a nota.

No entanto, depoimentos de duas servidoras da escola aos quais a BBC News Brasil teve acesso, e que constam no processo, mostram que elas reconheceram a voz e identificaram a professora de Pedro.

Mesmo com a Brigada alegando ausência de provas, a professora deixou a escola no fim do ano. Mas não houve uma explicação para a saída dela do cargo.


"Não cabe à instituição divulgar informações individualizadas sobre servidores ou empregados", afirmou a Brigada.

Perguntada se a professora reconhece o que diz nos áudios, a instituição afirmou que "não está autorizada a divulgar manifestações, declarações ou posicionamentos atribuídos a pessoas específicas envolvidas em procedimentos administrativos ou investigatórios".

Sobre as tentativas frustradas de diálogo de Shaiane com a escola, a Brigada afirmou que "mantém canais permanentes de comunicação com as famílias e trata com seriedade todas as demandas recebidas". No entanto, não confirmou ou comentou "fatos específicos" em razão da proteção de dados e informações.

Por fim, o inquérito aberto pela Corregedoria pediu pelo arquivamento na Justiça Militar do Rio Grande do Sul, mas o processo ainda não está encerrado.

Agora, a mãe espera que o MPRS realize sua própria investigação. Há um inquérito aberto na promotoria, mas a BBC News Brasil não conseguiu mais informações sobre a situação do processo nem com a assessoria de imprensa e nem com a promotora do caso.

Fonte: BBC News Brasil em 24/06/2026.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Rio fica em penúltimo em ranking de educação mesmo liderando gastos por aluno


Rio aplica R$ 19,5 mil, anuais por estudante, mas amarga a penúltima posição no Ideb

Líder do ranking nacional de investimentos por aluno, o estado do Rio de Janeiro amarga a penúltima posição no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O Rio aplica R$ 19,5 mil anuais por estudante, valor 83% maior do que o investido por Goiás (R$ 10.704), que lidera o ranking de qualidade do Ideb.

Os dados foram revelados por um levantamento do Movimento EducAçãoRio, baseado em dados oficiais do Siope e do FNDE.

O levantamento revela ainda que as despesas correntes, informadas pelo estado do Rio, avançaram em mais de 110% em cinco anos. “Esse investimento não chegou na valorização dos professores e nem na sala de aula”, afirmou Carla Jucá, diretora-executiva do Movimento EducAçãoRio, ao jornal “O Globo”.

Marcada por escândalos

A educação enfrentou escândalos ao longo dos últimos anos. No mês passado, um diretor denunciou à Polícia Federal que o deputado estadual Thiago Rangel, atualmente preso, o pressionava para desviar R$ 200 mil de uma escola no Noroeste Fluminense para financiar a campanha eleitoral de sua filha em 2024.

Recentemente, o governador interino, Ricardo Couto, confirmou a existência de funcionários fantasmas recebendo salários na rede pública. Além disso, professores estaduais relatam que enfrentam anos de defasagem, sem qualquer reajuste significativo no salário-base.

Alunos da rede pública também citam problemas, sobretudo na segurança e estrutura. Professores relatam que receberam livros em volume superior às necessidades dos alunos.

A Secretaria Estadual de Educação informou ao jornal “O Globo” que a distribuição do material didático contempla, além do atendimento aos alunos matriculados, uma reserva técnica destinada a novas matrículas, transferências e reposições ao longo do ano letivo.

A Secretaria afirma, ainda, que foi iniciada uma auditoria administrativa “de todos os procedimentos relacionados às obras de manutenção e reparo nas unidades da rede estadual”.

O Executivo diz ainda que passa a adotar medidas como “a definição de um teto de R$ 130 mil, em conformidade com a Lei de Licitações 14.133, para intervenções classificadas como manutenção e pequenos reparos. Quaisquer obras que ultrapassem esse limite passarão a ser executadas pela Empresa de Obras Públicas (Emop-RJ)”.

Outros estados

No país, o Piauí foi o único estado a registrar melhorias consecutivas, tendo hoje o sexto maior indicador no ensino médio estadual.Já o Rio, que chegou a ocupar a quarta colocação em 2013, despencou para a penúltima posição nos resultados mais recentes.

Fonte: ICL Notícias em 01/06/2026.