quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Receita nega aumento de imposto para professores com novo piso


Fisco esclarece que reajuste vem acompanhado de redução de tributos


A Receita Federal rebateu, na noite da quinta-feira (22/1), informações falsas que circulam nas redes sociais sobre uma suposta elevação da tributação sobre professores em razão do reajuste do piso salarial do magistério. Segundo o órgão, as alegações ignoram as regras legais de apuração do imposto e levam à conclusão equivocada de que os profissionais da educação passariam a pagar mais IR após o aumento salarial.

Em nota, o Fisco destaca que a reforma do Imposto de Renda faz com que mais contribuintes deixem de pagar IR e outros passem a pagar menos, tornando a tributação mais progressiva. Sancionada no fim do ano passado, a Lei 15.270/2025 ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês e reduziu o imposto devido sobre rendimentos entre R$ 5 mil e R$ 7.350.

“Não procede a afirmação de que o reajuste do piso do magistério levaria automaticamente os professores a pagar mais Imposto de Renda. Os profissionais da educação são diretamente beneficiados pela redução prevista na Lei nº 15.270/2025”, destacou a Receita no comunicado.
De acordo com a Receita, a categoria está entre as diretamente beneficiadas pelas novas regras.

Em 2025, com o piso salarial de R$ 4.867,77, um professor pagava cerca de R$ 283,14 por mês de Imposto de Renda retido na fonte, considerando o desconto simplificado. Já em 2026, com o piso reajustado para R$ 5.130,63, esse mesmo profissional passará a pagar aproximadamente R$ 46,78 mensais de IR.

Segundo o Fisco, o efeito combinado do reajuste salarial e da redução do imposto garante ganho real no salário líquido, ao mesmo tempo em que corrige distorções na tributação sobre a renda dos profissionais da educação.

Fonte: ICL Notícias com Agência Brasil em 23/01/2026.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Agora é pra valer, o professor está abaixo do mínimo. Por Valter Mattos da Costa*


Quando ensinar vira sobrevivência: o salário do professor no Rio de Janeiro como síntese de um projeto de abandono da educação pública

Em plenas férias escolares, os professores do ensino básico e público do Estado do Rio de Janeiro, ao se depararem com o novo salário-mínimo nacional, R$ 1.621,00, estipulado pelo Governo Federal e em vigor desde 1º de janeiro deste ano, verificaram, agora oficialmente, que com seus R$ 1.588,41, ganham menos que um salário-mínimo.

Não se trata de retórica inflamada, nem de figura de linguagem. Trata-se de um dado objetivo, verificável, matemático. O vencimento base de um professor da rede estadual fluminense está abaixo do mínimo legal para a sobrevivência do trabalhador brasileiro.

O fato novo não veio do Palácio Guanabara. Veio de Brasília. Foi o reajuste do salário-mínimo nacional que escancarou, sem maquiagem possível, o rebaixamento salarial imposto aos docentes do Rio de Janeiro ao longo de anos.

O governo estadual, por enquanto, nada fez. Nada corrigiu. Nada recompôs. Apenas manteve congelada uma estrutura salarial corroída pela inflação, pelo custo de vida e pela deliberada política de desvalorização da carreira docente.

Convém insistir: não foi um acidente administrativo. Não foi erro de cálculo. Não foi um lapso técnico. Foi uma escolha política reiterada, sustentada por sucessivos governos estaduais, aprofundada pelo atual.

Quando um professor passa a ganhar menos que um salário-mínimo, algo muito mais grave está sendo dito. Diz-se que ensinar vale menos que sobreviver. Diz-se que a educação pública é descartável.

O governo Cláudio Castro precisa ser citado nominalmente, porque governos não são abstrações. Governos têm rosto, projeto, orientação ideológica e prioridades muito bem definidas. E a prioridade do atual governo do Estado do Rio de Janeiro — como os demais — jamais foi a educação pública. Basta observar a ausência de política de valorização docente, de carreira estruturada e de respeito ao piso nacional.

O piso do magistério, vale lembrar, não é teto. É referência mínima. Ainda assim, o Estado insiste em cumpri-lo apenas de maneira formal, por meio de abonos, penduricalhos e artifícios contábeis.

Esses mecanismos não integram o vencimento base, não repercutem na carreira, não incidem na aposentadoria. Servem apenas para simular cumprimento legal, enquanto esvaziam o sentido da valorização profissional.

O resultado é perverso: uma carreira achatada, sem atratividade, sem perspectiva e sem dignidade. Um convite permanente à evasão docente, ao adoecimento e ao abandono da sala de aula (um apagão da profissão docente aproxima-se).

Nenhuma sociedade que se pretenda minimamente civilizada pode tratar seus professores dessa maneira. Quando o professor é empurrado para a pobreza, a escola inteira adoece junto.

A retórica oficial costuma dizer que educação é prioridade. Mas prioridade que não se traduz em orçamento, salário e carreira é apenas propaganda vazia, típica de governos que governam por slogans.

No Rio de Janeiro, a contradição é gritante. Enquanto professores lutam para fechar o mês, o Estado mantém isenções, renegocia dívidas seletivamente e protege interesses que jamais passam pela escola pública.

O salário do professor não é um detalhe administrativo. Ele expressa o lugar simbólico que a educação ocupa no projeto de Estado. Hoje, esse lugar é marginal — e o sentido do que é a Educação pública está em disputa: que Educação queremos pagando tão mal aos seus professores?

Ganhar menos que um salário-mínimo não é apenas um problema financeiro. É uma violência simbólica. É o recado de que o trabalho intelectual, pedagógico e formativo não merece reconhecimento.

Esse quadro não afeta apenas os professores. Afeta estudantes, famílias, comunidades inteiras. Afeta a qualidade do ensino, a permanência dos profissionais e o futuro do próprio estado.

Sem professor valorizado, não há escola pública forte. Sem escola pública forte, não há desenvolvimento, não há cidadania, não há democracia que se sustente. A tentativa de naturalizar essa situação revela um projeto de sociedade profundamente desigual, em que educação pública de qualidade não é direito, mas privilégio de poucos.

Por isso, é fundamental recolocar essa pauta no centro do debate público. Não como favor corporativo, mas como questão estrutural, social e política. A luta por recomposição salarial, carreira e piso real é uma luta pela própria existência da escola pública. Não se trata de aumento, mas de recomposição mínima do que nos foi retirado ao longo do tempo.

É preciso exigir audiência pública, transparência orçamentária e compromisso político real. Não apenas a categoria docente, mas a sociedade civil organizada, seus representantes, entidades, movimentos e instituições precisam lutar, exigir e propor ações concretas.

O Legislativo estadual não pode continuar fingindo que não vê, nem a sociedade aceitar que o futuro da educação seja tratado como assunto corporativo ou secundário. Valorização não é discurso emocionado em data comemorativa. Valorização é salário digno, carreira estruturada e respeito institucional cotidiano.

Enquanto o professor for tratado como custo e não como investimento, o Rio de Janeiro — e o país — continuará aprofundando seu próprio atraso social. O salário-mínimo subiu. O salário do professor ficou. Esse contraste não é casual. É pedagógico. Ensina, cruelmente, qual é o valor atribuído a quem educa.

Em 2026, essa realidade precisa ser enfrentada sem eufemismos. Professor não pode ganhar menos que o mínimo. Isso não é ideologia. É decência. Se o governo estadual insiste em ignorar esse limite civilizatório, caberá à sociedade cobrar. Porque precarizar o professor é precarizar o futuro. E um estado que despreza seus professores está, no fundo, desistindo de si mesmo.

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.

Fonte: ICL Notícias em 19/01/2026.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Professores municipais do Rio de Janeiro estão sendo obrigados a aprovar alunos sem critérios


Na cidade do Rio de Janeiro os professores estão praticamente proibidos de reprovar aluno, não importa se estão ou não alfabetizados. Aqueles que se opõem as diretrizes da Secretaria Municipal de Educação são pressionados. Se insistir na reprovação, as notas são alteradas no sistema à revelia do professor e a coordenadoria regional de educação manda a direção das escolas alterar notas e conceitos visando a aprovação.

Assista ao vídeo

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Como escola pública brasileira virou uma das melhores do mundo


A Escola Estadual Parque dos Sonhos, em Cubatão (SP), vivia enfrentando invasões, furtos e episódios de violência. Mas, neste ano, ganhou um prêmio internacional com o reconhecimento do trabalho feito para mudar essa realidade.

A escola pública venceu na categoria "Superação de Adversidades". Em 15 de novembro, o diretor foi a Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, para a cerimônia do Prêmio Melhor Escola do Mundo 2025 (World's Best School Prize), realizado pela organização britância T4 Education.

A repórter Rute Pina da BBC News Brasil foi até Cubatão entender como a escola, que já foi conhecida como "Parque dos Pesadelos", conseguiu mudar a sua imagem e ser reconhecida internacionalmente. Confira assistindo ao vídeo:
https://youtu.be/G1pY404I7kU

Fonte: BBC News Brasil no Youtube em 14/12/2025. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Decisão do STF redefine a jornada do professor


O Supremo Tribunal Federal (STF) julgou a ADPF 1058 e decidiu que, como regra geral, o recreio escolar e os intervalos entre aulas integram a jornada de trabalho dos professores e devem ser remunerados.

Isso vale porque, na prática, os docentes permanecem à disposição da escola ou faculdade durante esses momentos, ajudando alunos, supervisionando espaços ou planejando atividades.

Mais detalhes no vídeo: 

https://www.instagram.com/reel/DSnrWO2EuhO/?utm_source=ig_web_copy_link 

 

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Violência e censura afetam nove em cada dez professores brasileiros


Constata pesquisa do ONVE da Universidade Federal Fluminense


Nove em cada dez professores e professoras da educação básica e superior do ensino público e privado de todo o país já foram perseguidos diretamente ou presenciaram perseguições e censura contra profissionais da educação.

O dado consta da pesquisa inédita A violência contra educadoras/es como ameaça à educação democrática, realizada pelo Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras/es (ONVE), da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Ministério da Educação (MEC).

Participaram do levantamento 3.012 profissionais da educação básica e superior do ensino público e privado de todo o país.

O coordenador da pesquisa, professor Fernando Penna, da UFF, explicou à Agência Brasil que o trabalho teve como foco principal violências ligadas à limitação da liberdade de ensinar, tentativa de censura, perseguição política, embora tenha envolvido também a possibilidade de o professor registrar caso de violência física, embora esse não fosse o foco do relatório.

De acordo com Penna, o objetivo do trabalho foi identificar violências no sentido de impedir o educador de ensinar uma temática, de usar um material, ou seja, perseguição política.

“É mais uma censura de instituições em relação aos professores. E não são só instituições. Entre os agentes da censura, estão tanto pessoas dentro da escola, quanto de fora, figuras públicas”, informou.


Censura

Segundo o professor, um primeiro “dado preocupante” constatou que a censura se tornou um fenômeno disseminado por todo o território brasileiro e em todos os níveis e etapas da educação, englobando não só o professor, em sala de aula, mas todos que trabalham com educação.

A pesquisa mostrou um percentual alto de professores vítimas diretas da violência. Na educação básica, o índice registrou 61%, e 55% na superior. “Na educação superior, foi 55%, um pouquinho menor, mas, ainda assim, está acima de 50%”, destacou Penna.

Entre os educadores diretamente censurados, o levantamento constatou que 58% relataram ter sofrido tentativas de intimidação; 41% questionamentos agressivos sobre seus métodos de trabalho; e 35% enfrentaram proibições explícitas de conteúdo.

Os educadores também relataram casos de demissões (6%), suspensões (2%), mudança forçada do local de trabalho (12%), remoção do cargo ou função (11%), agressões verbais e xingamentos (25%), e agressões físicas (10%).
 

Temáticas

Fernando Penna analisou que os dados mostraram ainda que a violência e a censura já estão enraizadas no Brasil, nas instituições de educação básica e superior. “Isso é preocupante porque a gente está falando aqui de temáticas obrigatórias”.

Ele citou, como exemplo, o caso de uma professora do interior do estado do Rio de Janeiro, cujo um colega, durante a pandemia da Covid 19, pegou um material do Ministério da Saúde, com orientações sobre medidas sanitárias e a importância da vacinação, mas foi impedido sob argumento de “doutrinação”.

“E quando ele foi entregar isso à diretora da escola, ela disse para ele que na escola não ia ter doutrinação de vacina”.

A pesquisa identificou ainda professores proibidos de tratar, na sala de aula, temas como o da violência sexual, em que alerta o aluno sobre o fato desse tipo de violência ocorrer dentro de casa.

“E é depois de algumas aulas na escola sobre orientação sexual, gênero, sexualidade, que esse jovem que tem uma violência naturalizada acontecendo no espaço privado denuncia o autor disso”, explicou Pena, ao ressaltar a importância de o tema ser tratado no ambiente escolar. “Mas essa temática, que é a discussão dos temas envolvendo gênero e sexualidade, é que os professores mais indicaram como sendo o motivo da violência que eles sofreram”.

O professor disse ainda que o estudo deixa claro que essa violência não impacta só os educadores, mas a liberdade de ensinar e a liberdade de aprender. “Estudantes estão deixando de discutir temáticas vitais para a sua formação”, acrescentou.

Outro exemplo de tema óbvio, que é motivo de questionamentos de pais contra professores de ciência, é o da teoria da evolução. Alguns preferem que se discuta dentro da escola o criacionismo e não a teoria da evolução. “Então, professores que tentam fazer o trabalho de levar o conhecimento às crianças e adolescentes acabam sendo demitidos, transferidos”.

A proporção de professores que passaram diretamente por esse tipo de violência ficou em torno de 49% a 36%. A maior parte dos educadores disse que o episódio ocorreu quatro vezes ou mais.

Segundo o levantamento, os temas que motivaram o questionamento à prática do educador foram liderados por questões políticas (73%), seguidos por questões de gênero e sexualidade (53%), questões de religião (48%) e negacionismo científico (41%).


Polarização

A pesquisa pediu também que os educadores respondessem os anos que essa violência ocorreu, “porque uma das nossas hipóteses é que essa violência tem relação com a polarização política que nós vivemos. E quando eu falo polarização, eu estou dizendo extrema direita, extrema esquerda. É uma polarização assimétrica entre uma extrema direita e uma centro-esquerda, no máximo”.

“Os dados configuraram um gráfico que revela que a violência contra educadores sobe a partir de 2010 e tem um pico em 2016, em 2018 e em 2022, que são os anos do ‘impeachment’ e de duas eleições presidenciais”, destacou Penna, frisando que essa “tensão política que o país vive está, infelizmente, entrando nas escolas”.

Agentes da violência


Quando perguntados sobre quem foram os agentes da violência, os educadores citaram os próprios membros da comunidade interna da escola ou da universidade. Ou seja, a própria direção, coordenação, membros da família, estudantes. “Isso é muito grave porque traz um dado de pesquisa que mostra que essa violência pode ter partido de figuras públicas, de uma atenção política mais ampla, mas, infelizmente, ela já está dentro das comunidades educativas”.

A pesquisa identificou que são os próprios membros da comunidade educativa interna que estão levando essa violência para dentro da escola, liderados pelos profissionais da área pedagógica (57%), familiares dos estudantes (44%), estudantes (34%), os próprios professores (27%), profissional da administração da instituição (26%), funcionário da instituição (24%) ou da secretaria de educação (municipal ou esta- dual) ou reitoria, no caso das universidades (21%).


Perseguição

De acordo com o coordenador do estudo, esse quadro de perseguição e violência envolve tanto a política institucional, quanto a política partidária, mas também abre espaço para se pensar em dimensões políticas da vida comum. Então não é surpresa que o crescimento da violência que foi observado esteja mais vinculado ao dado político do momento. “Ele é um tema que realmente tenciona muito”.

A perseguição a educadores foi relatada como extremamente impactante para 33% dos educadores tanto na vida profissional como pessoal, e bastante impactante para 39% na profissão e também no lado pessoal. A consequência em muitos casos foi que grande parte dos professores que vivenciaram esses casos de violência acabaram deixando de ser educadores, o chamado apagão dos professores, confirmou Penna.

“Foi uma das ferramentas de manipulação política desse pânico moral usado pela extrema direita nos anos recentes”, afirmou.


Impacto

Fernando Penna salientou que os educadores nem precisam ter sido vítimas diretas da violência porque, quando ela acontece em uma escola ou universidade, “ela degrada o clima escolar”.

Quando perguntados sobre mudanças que esses eventos trouxeram para o seu cotidiano de trabalho, a maioria dos educadores afetados citou insegurança e desconforto. “O desconforto com o espaço de trabalho foi o terceiro maior impacto da censura citado pelos respondentes (53%). Isso levou 20% dos participantes a mudarem de local de trabalho por iniciativa própria.

“As pessoas estão com medo de discutir temas. Estão com medo de fazer o seu trabalho como elas foram formadas para fazer e de acordo com seus saberes da experiência. Aí você está falando que o dano para a sociedade é gigantesco. Porque, os professores estão com medo de discutir temas, alguns estão sendo prejudicados e não podem discutir temas, por exemplo, no caso do gênero”, afirmou Penna.


Vigiados

A pesquisa constatou que em torno de 45% dos professores entrevistados disseram se sentir constantemente vigiados. Fato que leva a censurar sobre o que falam na sala de aula. O coordenador do estudo disse ter encontrado professores que trabalham em escolas privadas e relatam já ter entendido que não podem abordar determinados assuntos sob risco de serem demitidos.

“Muitas vezes, esse educador precisa do emprego, mas pode estar sendo ameaçado ali no território onde ele vive”. Penna argumentou que é preciso reconhecer que esse é um problema da sociedade brasileira. “A gente está vivendo em uma sociedade na qual educadores têm medo de falar e de trabalhar de acordo com seu saber profissional”.

Ele indicou que todos os profissionais que trabalham com a produção de um conhecimento seguro, ou seja, que podem desmascarar mentiras, teorias da conspiração, ‘fake news’, são vítimas.

“Tanto que, em 2023, surgiu o Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras/es, que é quem fez a pesquisa. Mas também surgiu o Observatório Nacional da Violência Contra Jornalistas, que são outra categoria que sofreu muito durante o governo Bolsonaro. Uma perseguição incrível”.


Regiões de destaque

O impacto que está ocorrendo nas comunidades educativas, que demonstram medo de discutir abertamente temas importantes para a formação dos estudantes foi mais identificado nas regiões Sudeste e Sul, onde foram registrados casos de professores que passaram por essas situações de violência mais diretamente.

O dado não surpreendeu o coordenador da pesquisa. “Tanto que um dos estados que teve mais respondentes no Sul do país foi Santa Catarina, onde a gente sabe de muitos casos de violência. É um estado onde a extrema direita impera”, afirmou.

A sondagem apurou que em todas as cinco regiões brasileiras 93% dos educadores tiveram contato com situações de censura, sendo que 59% passaram diretamente por essa situação, 19% souberam que aconteceu com alguém e 15% ouviram falar.


Proteção aos professores

Fernando Penna afirmou a necessidade de serem criadas ações para proteger os professores, sobretudo em anos de eleição presidencial, quando se sabe que a tendência é essa violência recrudescer, se tornar mais intensa.

A pesquisa, até agora, gerou um banco de dados que ainda tem muitos cruzamentos para serem feitos, manifestou o coordenador.

“A gente pode fazer análises de estados separadamente. A segunda etapa da pesquisa, que está em curso, e de entrevistas. Do total desses de professores que responderam, a gente vai escolher 20 pelo país para entrevistar”, anunciando que serão divulgados outros relatórios vinculados a essa pesquisa inicial.

No relatório completo que está sendo preparado, o Observatório sugere a criação de uma política nacional de enfrentamento à violência contra educadores, como resposta do poder público. Essa política já estaria sendo elaborada no âmbito do MEC. O Observatório tem ainda um acordo de cooperação técnica com o Ministério dos Direitos Humanos.

“A gente tem insistido muito que os educadores trabalhem na perspectiva da educação e direitos humanos, porque são justamente aqueles que mais sofrem violência. Então, a gente tem uma demanda de que os educadores sejam reconhecidos como defensores de direitos humanos e incluídos como uma categoria específica nas políticas do ministério. É uma ferramenta de denúncia de violação de direitos humanos”, concluiu Penna.

Fonte: ICL Notícias com a Agência Brasil em 06/12/2025 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

‘O terror impera’


Pressão em escolas no governo Tarcísio leva dois professores e um diretor à morte; aluna de 14 anos tenta suicídio duas vezes


Maria Irene de Carvalho, 64 anos, lecionou na rede estadual de ensino em São Paulo por mais de 40 anos. Neste ano, não aguentou mais. “Eu pedi para sair da escola para continuar vivendo”, ela me disse. “As condições de trabalho estavam afetando a minha saúde. Passei a ter problemas emocionais e cardíacos”, conta a professora de sociologia na Escola Estadual Professora Odila Bento Mirarchi, em Mauá, na Grande São Paulo.

O governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, implementou em 2024 um sistema de metas agressivas baseado no desempenho dos estudantes, com a imposição do uso de plataformas online de ensino. 

Idealizado pelo secretário de Educação Renato Feder, o sistema, na teoria, visa implantar uma lógica agressiva de resultados e mercado para aumentar a eficiência e os resultados da educação pública. Na prática, está provocando uma onda de adoecimentos sem precedentes entre diretores, professores e alunos.

No ano passado, 42 mil professores foram afastados por causa de transtornos mentais e comportamentais, segundo o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo, conhecido como Apeoesp. O sindicato utiliza dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o Dieese, que assessora o movimento sindical. 

Professores, alunos, supervisores e diretores disseram ao Intercept Brasil estar sob constantes ameaças de demissão e afastamento. Eles são cobrados pelo desempenho dos alunos em provas de avaliação. Quando a escola apresenta baixos índices, diretores e professores são removidos.

Elísio Fagundes Santos era professor de Filosofia na mesma escola onde Irene lecionava. Morreu vítima de infarto em outubro. “Vão dizer que ele não morreu por isso. Mas o Elísio estava muito pressionado”, me disse a professora. “Passamos a trabalhar o dobro, com uma cobrança de metas absurda. Isso está abalando emocionalmente os professores. Eu resolvi sair, fui embora. E com ele aconteceu essa fatalidade”, lamenta.

    ‘Eles humilham as pessoas. Estão enlouquecendo a gente. Trouxeram agora um modelo de fábrica para as escolas.’

O Intercept apurou que ao menos outros dois educadores morreram após passar por pressões semelhantes. Uma professora da Escola Estadual Maria Carolina, de Diadema, no ABC, morreu também de infarto no dia 17 de março, enquanto trabalhava. Segundo o professor Wagner, seu colega, a professora tinha outras doenças e estava “alterada, muito machucada e insatisfeita com o trabalho”.

O professor ainda denunciou o caso de um outro colega, diretor  da Escola Pedro Madoglio, também de Diadema, que faleceu no dia 19 de abril, após abandonar um tratamento contra a leucemia. 

“Na escola dele, nenhum diretor parava lá. Ele vinha sendo cobrado de forma muito dura pelos dirigentes de ensino de Diadema. São ameaças fortes mesmo, do tipo perder a função e, consequentemente, o salário”, diz Wagner . “Eles humilham as pessoas. Estão enlouquecendo a gente. Trouxeram agora um modelo de fábrica para as escolas, com muita pressão”.

A Secretaria de Educação disse, em nota, acompanhar a situação de saúde dos educadores, mas contesta o número apresentado pela  Apeoesp. E afirma que seu serviço de teleatendimento psicológico e psiquiátrico “está à disposição de todos os servidores, com mais de 650 mil atendimentos realizados até 31 de outubro”.

As pressões também começam a afetar os alunos, denunciam os educadores. Em Ribeirão Preto, uma estudante de 14 anos do 9ª ano de uma escola estadual tentou o suicídio duas vezes, em outubro e no final de novembro. O motivo, segundo relatou ao Intercept o professor João, da rede estadual na cidade, seriam as cobranças de um colega dele para a aluna conseguir melhores resultados em avaliações. 

O Intercept apurou que a família confirmou que o professor “pegava no pé” da estudante, e a “diretora falava que tinha metas”. 

A Secretaria de Educação disse que não havia recebido “denúncias sobre as irregularidades mencionadas” até o momento na escola estadual em que a menina estuda.

Após a publicação da reportagem, a Seduc afirmou que as ligações entre os óbitos dos servidores e as políticas educacionais são “não comprovadas e sem fundamento” e que “os casos citados apresentam causas médicas relatadas por colegas e amplamente conhecidas no ambiente escolar, totalmente alheias ao trabalho”.

A secretaria também afirmou que não há denúncias registradas nos canais oficiais até o momento e afastamento automático por metas, e que “todas as denúncias — oficiais ou informais — são apuradas com seriedade”.
‘Todos agora são inimigos. O diretor é inimigo do professor, e o professor inimigo do aluno’

Por ocuparem o topo na escala hierárquica de cada escola, os diretores são os primeiros a serem pressionados por resultados pela Secretaria de Educação de São Paulo. 

“A gente mudou a lei aqui em São Paulo. Se o diretor não entrega resultado, ele perde o cargo”, disse o secretário de Educação, Renato Feder, ao podcast Market Makers em agosto. “Eles têm meta mínima. Tem de subir 0,2 a cada ano. Se não subir, tchau!”.

Entre janeiro e novembro de 2025, 294 diretores da rede estadual foram afastados pela gestão de Tarcísio de Freitas por terem sido apontados como responsáveis pelo mau desempenho de suas escolas em avaliações, segundo Chico Poli, presidente do Sindicato dos Especialistas de Educação, a Udemo. O órgão coletou as informações por meio de dados no Diário Oficial do Estado. 

“A lógica agora é a de uma empresa: se ela vai mal, muda o gerente. As questões que levam a esse quadro na educação não são consideradas. O secretário de Educação age como se a escola fosse um supermercado. É só mudar o gerente. Se a escola não funciona do jeito que ele quer, ele manda embora”, afirma Poli.

No modelo atual de ensino na rede estadual, a maioria das aulas é assistida por um coordenador da área lecionada ou um coordenador pedagógico, ou ainda pelo diretor e vice-diretor. 

“Criou-se uma situação de animosidade. Todos agora são inimigos. O diretor é inimigo do professor, e o professor inimigo do aluno. É uma situação de total pressão, constrangimento e coerção”, avalia Chico Poli.  

Os docentes consideram a situação insustentável. “Os professores estão ficando malucos, sem saber o que fazer para os alunos atingirem o resultado. A gestão cobra, porque é a cabeça da gestão que está na linha de tiro. A coordenação cobra, porque também está na mesma linha. E nós, professores, acabamos cobrando os alunos. Isso gera um adoecimento geral, de professores e alunos. Aqueles que não conseguem atingir um resultado, ficam ansiosos e mal em todos os sentidos”, avalia o professor Walter, da rede estadual na cidade de Salto, no interior paulista. 

Professor diz já ter presenciado alunos serem retirados de suas casas para avaliações

Em um manifesto, estudantes do ensino médio da rede pública no dia 11 de novembro, revelaram que algumas escolas teriam facilitado a ocorrência de fraudes e colas durante a Prova Paulista com o objetivo de elevar seus índices de desempenho, beneficiando tanto a escola quanto as diretorias de ensino. 

O Intercept também teve acesso a mensagens e depoimentos que mostram que, diante da pressão, escolas têm adotado diferentes estratégias para cumprir as metas – elas vão de exposição vexatória de quem foi mal a driblar o sistema de faltas para não contar os alunos com desempenho ruim.

Em Ribeirão Preto,  um professor da rede estadual, João Carlos, afirmou ao Intercept que, na mesma escola em que a aluna de 14 anos tentou o suicídio, outra solução estaria sendo adotada. “Tem alunos que frequentam as aulas, mas recebem faltas para que, assim, saíam de uma vez da escola e não piorem os índices”, revelou o professor.  

O Intercept teve acesso a mensagens da direção da escola determinando a professores que alunos presentes à sala de aula fossem registrados como ausentes. 

O professor diz também já ter presenciado alunos serem retirados de suas casas, “à força”, segundo ele, para avaliações, como a chamada “prova paulista”, “que é de sumo interesse, tanto para a diretora quanto para o governador do estado”.

O professor conta que dirigentes da escola costumam colocar nas paredes dos corredores os resultados de avaliações de alunos que tiveram resultados pífios. Para ele, essa atitude expõe os alunos a situações vexatórias e geram problemas emocionais.
 Educação como mercadoria: a estratégia de Feder

O modelo empresarial de gestão nas escolas implantado por Tarcísio de Freitas foi importado do Paraná, onde o empresário Renato Feder foi secretário de Educação na gestão de Ratinho Júnior, do PSD, entre 2019 a 2022. 

Embora professor de formação, Feder é empresário, com longa carreira no setor privado, principalmente como CEO da Multilaser, empresa de tecnologia, entre 2003 e 2018. 

No Paraná, sua gestão marcada pela implementação das escolas cívico-militares e pela privatização encantou Tarcísio de Freitas, que o chamou para a secretaria estadual paulista – ao mesmo tempo em que fazia negócios milionários com a Multilaser.

Ao assumir o cargo em São Paulo em janeiro de 2023, Renato Feder afirmou que pretendia transformar São Paulo em uma “potência educacional”. 

Em 2024, o novo secretário decidiu avaliar os alunos da rede escolar a partir da frequência nas aulas e de resultados em provas bimestrais e desempenhos como a do Saresp e do Sistema de Avaliação da Educação Básica, o Saeb. 

O Saresp avalia o desempenho da escolaridade básica no estado; e o Saeb, por meio de testes e questionários a estudantes, professores e gestores escolares, é utilizado para o cálculo do Índice de Desenvolvimento de Educação Básica, o Ideb.

A Secretaria de Educação nega que haja afastamento automático de professores e diretores e diz que “nenhum diretor ou professor é afastado exclusivamente por resultados de avaliações externas”. 

Segundo o governo, a avaliação considera múltiplos critérios, como frequência, participação em formações, acompanhamento pedagógico”, além das provas do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo, o Saresp, e indicadores de desigualdade.

 Plataformas digitais não melhoraram resultados escolares

Além das metas agressivas, outra aposta de Tarcísio e Feder para turbinar os índices de qualidade do ensino na rede estadual de São Paulo foi a adoção massiva de plataformas digitais de ensino na rede pública. 

O uso desses sistemas começou na gestão do governador João Doria, ex-PSDB, entre 2019 e 2022, e foi intensificado – e se tornou um dos pontos de maior tensão entre os educadores e o governo. 

O sistema utilizado,  chamado Bussiness Intelligence, ou BI, serve para monitorar as atividades em várias plataformas educacionais, entre elas a Leia SP (para incentivar a leitura), Speak (idiomas) e Alura (tecnologia). Diversas empresas desenvolvem essas ferramentas e plataformas de BI, que é um conjunto de processos e tecnologias 

O governo Tarcísio gastou R$ 471 milhões somente em 2024  nessas plataformas – e a iniciativa não melhorou o desempenho das escolas estaduais no sistema de avaliação de rendimento, o Saresp, segundo um estudo da Rede Escola Pública e Universidade, que reúne pesquisadores de universidades paulistas. 

    ‘Vive-se num clima de terrorismo. O terror impera. Houve uma mudança radical no sistema educacional para impor o uso dessas plataformas.’

Mesmo as escolas que atingiram as metas de uso das plataformas definidas pelo governo não registraram melhora de fato, de acordo com o estudo. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram os dados da própria Secretaria de Educação. 

O governo de São Paulo, porém, ao divulgar os resultados do Saresp de 2024, em fevereiro, anunciou que houve uma melhora no desempenho dos alunos da rede estadual, principalmente em Português e Matemática. Os educadores contestaram. 

“Não melhorou o ensino. A Secretaria de Educação alterou a métrica utilizada para avaliar o ensino de Português e Matemática. Antes, era um total de pontos acumulados. Agora, mudou para notas. Disseram que melhorou, mas apenas falsearam os dados”, critica Chico Poli. 

Além de questões educacionais, a plataformização do ensino levanta questões de privacidade e de segurança. Em julho, a Folha de S.Paulo denunciou que alunos das escolas estaduais hackearam as plataformas para realizar as tarefas em segundos. Alguns deles cobravam entre R$ 2,50 e R$ 10 para realizarem as tarefas de colegas. No Discord, em um grupo com mais de 200 mil usuários, eram compartilhados os métodos para burlar as plataformas. 

No início de outubro, o Ministério Público de São Paulo após um pedido do deputado estadual Carlos Giannazi, do Psol, recomendou que a gestão de Tarcísio deixe de obrigar o uso de plataformas nas escolas, e deu um prazo de 30 dias. Se o governo não acatar o pedido, o MP prometeu adotar “as medidas cabíveis”. A Secretaria diz que “analisa” a recomendação. 

Giannazi pediu ao MP e ao Tribunal de Contas do Estado de São Paulo para que sejam apurados os valores gastos com as plataformas digitais nas escolas e os contratos firmados com esse objetivo com a Secretaria de Educação.

Para diretores e professores da rede estadual de ensino, as plataformas estão muito distantes das necessidades para a aprendizagem dos alunos. 

“O projeto de educação é baseado num sistema absurdo de plataformização, que afronta inclusive a liberdade de cátedra dos professores”, critica Fábio de Moraes, primeiro-presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, a Apeoesp. “O professor é obrigado a seguir as plataformas. Não somos contra a implementação de tecnologia, mas o protagonista não é o professor”. 

“Agora, vive-se num clima de terrorismo. O terror impera. Houve uma mudança radical no sistema educacional para impor o uso dessas plataformas”, diz Moraes. “Isso foi feito por meio de contratos milionários, para as empresas que geram essas plataformas. Toda a rede de ensino está linkada nela. Somos 645 municípios com características totalmente diferentes, e há uma padronização nas plataformas, o que é errado. As próprias avaliações do governo já deixaram claro que não tem dado resultado, mas o governo continua insistindo”, protesta Moraes. 

“Já está provado que esse tipo de material não funciona. A tecnologia é importante, mas para outra finalidade”, corrobora o diretor Chico Poli, da Udemo. “É um material de segunda categoria. Tem vários erros e virou motivo de piada. Como apareceu em uma das plataformas que quem libertou os escravos no Brasil foi dom Pedro 1º, e não a Princesa Isabel. E mais recentemente, outro erro grave: foi dito que Segunda Guerra Mundial ocorreu nos anos 1950 e 1960, quando foi entre 1939 e 1945”, lembra.

O governo do estado, ainda assim, defende o uso das plataformas e contesta as críticas. Segundo a Secretaria da Educação, “análises preliminares indicam que as unidades escolares que integram os recursos digitais à rotina pedagógica tendem a apresentar melhores níveis de engajamento e avanços no processo de ensino-aprendizagem ao longo do tempo”. 

A Secretaria afirma que elas não substituem o professor e nem impõem metodologias “e são ferramentas complementares de apoio, diagnóstico e organização de dados”.  Após a publicação da reportagem, a Seduc afirmou que suas diretrizes oficiais não impõem o uso de plataformas.

Enquanto isso, alunos da rede pública têm que lidar com um problema muito mais rudimentar: eles não têm computador para usar as plataformas. “Há um para cada três alunos e a Secretaria reconhece isso. Isso faz com que os estudantes não consigam dar conta dos exercícios e questionários propostos em salas de aula”, diz Poli. “Eles também não têm computador em casa. Para que consigam cumprir o que é solicitado, os professores precisam ajudá-los a concluir as tarefas em salas de aula”.

“Não há equipamento tecnológico para todos os alunos usarem ao mesmo tempo. Não há como concluir tudo”, confirma o professor Walter, da cidade de Salto. 

Fonte: Intercept Brasil em 11/12/2025.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Alunos de colégio tradicional no Rio são suspensos após denúncia de racismo


Mãe acusa omissão da escola e diz que ofensas racistas eram conhecidas por funcionários

O tradicional Colégio Pedro 2º, no Rio de Janeiro, escola pública federal, suspendeu alunos suspeitos de prática de racismo contra um colega de 12 anos. A mãe do adolescente afirma que o filho era chamado de macaco e recebia outras ofensas em relação à cor da pele dele.

A instituição não detalhou quantos foram suspensos nem por quanto tempo. Em nota, o Colégio Pedro 2º afirmou que “situações de racismo são tratadas com máxima seriedade” e que “reafirma seu compromisso inegociável com a defesa dos direitos humanos, o combate a todas as formas de discriminação e a construção de um espaço seguro, acolhedor e respeitoso para todas e todos”.

A mãe do adolescente acusa o colégio de omissão. De acordo com ela, funcionários da unidade Centro -uma entre os 14 campi do colégio- já sabiam que o filho era alvo de racismo, mas não informaram a família do problema em nenhum momento.

A mãe diz ter sido convidada para uma reunião quarta-feira (17/12) e afirma que, na ocasião, a direção afirmou que soube do caso pela repercussão na imprensa. Antes, instâncias de pedagogia do colégio, segundo a mãe, já estavam cientes do que aconteceu.

Na reunião, segundo a mãe, a diretora ofereceu tratamento psicológico -que foi recusado, pelo fato de o menino estar sendo atendido por um psicólogo do Conselho Tutelar- e perguntou se havia algo a mais a ser feito pela escola.

A mãe informou que avalia quais providências legais irá tomar em relação ao crime cometido contra o filho, mas lamenta que a ação tenha sido partilhada por mais de um aluno.

“Hoje está acontecendo com meu filho, amanhã será outra criança. É preciso fazer algo para parar [o racismo] no ambiente escolar”, declarou a mãe à reportagem, que não cita seu nome para não expor o estudante menor de idade.

Em nota, a direção-geral do colégio Pedro 2º, campus centro, disse que o Setor de Orientação Educacional e Pedagógica foi procurado para relatar uma situação envolvendo prática de racismo.

“Diante da gravidade do ocorrido e do rigor que casos dessa natureza exigem, os procedimentos de apuração foram imediatamente iniciados, em conformidade com os ritos institucionais”, diz o comunicado. Segundo o colégio, as famílias envolvidas “já foram convocadas para esclarecimentos e oitivas, junto aos setores pedagógicos e à direção do campus”.

Assim que for concluída a apuração, o colégio diz que tomara as “medidas disciplinares cabíveis”, conforme previsto no Código de Ética Discente, “assegurando o devido processo e a responsabilização adequada”.

“Destacamos ainda que o Colégio Pedro 2º desenvolve ações pedagógicas permanentes voltadas ao enfrentamento do racismo, compreendendo que a educação é elemento central na promoção do respeito.”

Fonte: ICL Notícias em 18/12/2025. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

A saúde mental dos professores brasileiros vai de mal a pior, por Valter Mattos da Costa*


Quando a vocação de ensinar torna-se um pesadelo diário em nossas escolas


“Muito cansativo e estressante, todos os dias são sofridos, dentro de um quadrado, com a porta fechada, com algumas dezenas falando alto. O corpo é obrigado está ali, mas a cabeça… Ah!… foge pra praia…. Mas não adianta, a realidade se impõe…” 

Qualquer professor do ensino básico brasileiro poderia ter dito isso.

Os estudos mais recentes mostram que o adoecimento psíquico docente deixou de ser exceção e tornou-se uma constante preocupante.

Pesquisas acadêmicas nacionais revelam níveis elevados de estresse crônico, exaustão emocional, ansiedade e sintomas compatíveis com burnout em faixas amplas da categoria, variando conforme região, rede e condições de trabalho.

Dados públicos apontam que transtornos mentais já figuram entre as principais causas de afastamento de professores no Brasil.

E, no meio desse cenário, o sistema segue cobrando “inovação”, “engajamento”, “flexibilidade” e até alegria compulsória – um convite direto ao colapso subjetivo.

A sala de aula, meio estressor docente, encrustada no chão de fábrica da escola, é o ambiente que mais tem incidido na saúde mental dos professores, que, não à toa, anda mal, muito mal.

A situação se agravou na última década – devido a “Pedagogia da Métrica” -, com a combinação perversa entre precarização estrutural, burocracias inúteis, violência simbólica cotidiana e políticas que fingem modernizar a educação enquanto apenas deslocam a culpa.

A lógica é simples: se o sistema falha, o professor vira réu. E quando o professor quebra, ninguém assume a autoria do problema.

O mais inquietante é perceber como a estrutura escolar contemporânea produz um tipo específico de sofrimento: aquele que faz o professor até duvidar de si mesmo.

Não basta estar exausto; é preciso sentir-se culpado por estar exausto.

Vladimir Safatle, filósofo da USP, em “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico” (Autêntica, 2021), diz que o neoliberalismo encontrou “o melhor aproveitamento do sofrimento no trabalho, extraindo o máximo de cansaço com o mínimo de risco jurídico…” (p. 10).

Isso vale também para a docência. No caso do ensino básico público, são inúmeros decretos, resoluções e exigências de uma “burocracia pedagógica”, inscrita em forma de “leis”, que esgotam o professor.

E aí o cansaço torna-se sinal de incompetência, e não um sintoma óbvio de um trabalho emocional impossível.

O docente, vencido, ainda precisa performar entusiasmo para agradar gestores, famílias e algoritmos de desempenho.

Isso tudo ocorre em um país onde a violência escolar normalizou-se como se fosse parte natural da paisagem urbana (é só estar atento aos meios de comunicação, para perceber que estar em uma escola é risco de vida).

O professor entra em sala com receio de questionar, chamar atenção ou tentar conter conflitos.

O medo – esse velho conhecido da classe trabalhadora (em um sistema violentamente capitalista) – agora mora na porta da escola e nos seus corredores.

O professor entra em sala com receio de questionar, chamar atenção ou tentar conter conflitos.

Os episódios de agressão, intimidação e hostilidade, que deveriam ser exceções, tornaram-se comuns o suficiente para deixar qualquer profissional em estado de alerta permanente. E quem vive a educação básica sabe que isso não é novidade alguma.

Junte-se a isso a burocracia imposta pelo nível central, que empilha tarefas como se o tempo docente pudesse ser esticado até a ruptura.

Relatórios intermináveis, plataformas digitais travadas (que às vezes consomem as noites dos professores), metas inatingíveis, avaliações externas que fingem diagnosticar um problema que elas mesmas ajudam a produzir.

E ainda querem que o professor sorria para a foto nas reuniões pedagógicas que encerram o ano letivo – num claro sinal de que estaria ainda satisfeito com sua profissão.

No fim das contas, o sofrimento psíquico do professor brasileiro é uma soma de violências pequenas, contínuas, invisíveis e previsíveis. Nada ali é “acidental”.

Cada sala superlotada, cada política improvisada, cada ataque moralista à profissão forma, dia após dia, o mapa da exaustão docente.

E quando alguém adoece, tratam como fragilidade individual – nunca como efeito de uma estrutura que precisa funcionar justamente à custa do corpo e da mente de quem ensina.

Enquanto isso, o país segue discutindo tudo, menos a pergunta fundamental: quem cuida de quem cuida da escola?

Ah! Não podemos esquecer: e o nosso piso salarial nacional da educação? Dinheiro público para financiar existe, só falta a vontade política.

Porque, se a sala de aula e a escola podem matar – e às vezes matam -, o que exatamente esperam que reste da vocação de ensinar?

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora.

Fonte: ICL Notícias em 01/12/2025. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

‘Quem mandou dar zero?’: alunos usam avaliação criada em SP para ameaçar professores


Professores contam que não são informados sobre perguntas feitas a alunos no questionário criado pelo governo Tarcísio.

Dezenas de vídeos têm viralizado nas redes sociais com alunos dando nota zero para os professores em uma avaliação criada pelo governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Nas postagens, os estudantes dizem que estão se vingando dos docentes.

Em maio deste ano, o secretário de Educação, Renato Feder, publicou resolução que instituiu uma avaliação do desempenho dos professores, coordenadores e diretores das escolas. Nesse processo, os alunos do 6º ano do Ensino Fundamental até o 3º ano do Ensino Médio passaram a ser um dos avaliadores.

O sistema da rede estadual com o questionário de avaliação foi aberto aos alunos na última semana. Desde então, dezenas de vídeos mostram os alunos debochando por dar notas ruins aos docentes.

“Hoje teve avaliação de professores na minha escola e eu pude me vingar de todos”, diz uma aluna. Em outro, um aluno grava a tela do computador, onde é possível ver que ele atribuiu nota zero a todos os professores. “Agora na minha escola estão mandando dar nota pra professor. Vai tudo tomar zero. Quem mandou dar zero pra mim? Agora vai tudo perder o serviço”, diz o jovem.

Procurada, a Secretaria de Educação não quis comentar.

Avaliação do professor

Segundo a resolução, as notas dos alunos vão compor uma “avaliação de desempenho diagnóstica” de cada profissional de ensino. O texto diz que esse é um instrumento com “finalidade formativa” com o objetivo de orientá-lo em sala de aula.

O texto diz ainda que essa avaliação final, que conta ainda com outros critérios, como avaliação dos diretores, assiduidade, participação em formações e alcance de metas, pode ser usada para decidir sobre a continuidade do professor na escola em que atua ou em programas e projetos específicos.

Assim, caso o desempenho não seja considerado satisfatório, os profissionais podem ser realocados para outras unidades.

À Folha de S. Paulo, docentes contaram que alguns alunos têm usado a avaliação para ameaçá-los. Eles dizem que irão se vingar caso recebam notas baixas em provas.
Ameaças e deboches

Uma professora de Português contou que chamou a atenção de duas alunas que estavam usando o celular em sala de aula, o que é proibido por lei nacional e estadual. As jovens então ameaçaram dar nota ruim para ela.

A docente atua há 20 anos na rede estadual e disse estar se sentindo desrespeitada e desamparada. Ela pediu para não ser identificada por medo de represália.

Os professores contam ainda que sequer são informados sobre as perguntas feitas aos alunos. Pela resolução, os questionários avaliativos consideram 11 dimensões relacionadas às competências esperadas.

Entre elas estão, por exemplo, domínio do conteúdo ensinado, se usam metodologia dinâmica e inovadora, gestão de sala de aula, comunicação clara e objetiva e dedicação ao processo de aprendizagem.

Para Márcia Jacomini, professora do Departamento de Educação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), os alunos utilizam a avaliação para ameaçar e humilhar os docentes porque percebem a falta de autonomia e proteção aos profissionais.

“O governo primeiro exigiu que os professores seguissem o conteúdo e a forma definidos pela secretaria para ensinar aos alunos, sob o risco de serem punidos caso se negassem. O professor perdeu a autonomia de elaborar a aula, de decidir como ensinar e os alunos perceberam isso. Agora, colocam esse aluno para avaliar o professor”, diz.

Ela avalia ainda que há um desvirtuamento do significado de avaliação, já que não houve um diálogo com os alunos sobre o processo.

“Os alunos podem e devem ser ouvidos para uma avaliação da escola e dos professores, mas isso não deveria ser feito por meio de nota. Mas, sim, com escuta. Nesse formato, o governo abre espaço para o aluno pensar que pode se vingar, que pode ameaçar o professor.”

Fonte: ICL Notícias em 19/11/2025.