quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

O que a análise de dados pode sugerir às escolas brasileiras


Experiências de instituições públicas reunidas em livro mostram medidas práticas que melhoram o cotidiano escolar.

O monitoramento de desempenho de uma escola é uma atividade inerente à gestão, e precisa ser realizado de forma contínua, sistemática e regular. Segundo a literatura da área de educação, ele é necessário para avaliar a eficácia do projeto pedagógico e trazer novos elementos para ações, intervenções e possíveis mudanças de rumo.

Em um contexto em que os diretores de escolas e suas equipes pedagógicas se ocupam majoritariamente de questões burocráticas ou em “apagar incêndios” do dia a dia, nem sempre há tempo disponível para avaliar o próprio trabalho e resolver desafios como o da evasão escolar, por exemplo, de maneira mais eficiente.

Neste texto, o Nexo explica como as escolas públicas brasileiras avaliam o seu desempenho e reúne práticas adotadas por instituições que passaram por uma formação para aprender a planejar e agir com base na análise de dados.

As avaliações oficiais

Os principais instrumentos de monitoramento da Educação Básica brasileira são o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica).

O Saeb avalia desde a década de 1990 a aprendizagem de alunos do 5° ao 9° ano do ensino fundamental e do 3° ano do ensino médio nas disciplinas de língua portuguesa e matemática.

Nas edições de 2019, 2021 e 2023, o sistema incorporou a avaliação do 2° ano do ensino fundamental e de ciências humanas e da natureza no 9° ano. Em 2019, também foi realizado um projeto piloto de avaliação da educação infantil.

Os resultados dessa avaliação nacional somados com a taxa de aprovação dos estudantes compõem o Ideb, índice criado em 2007. Juntos, Saeb e Ideb concedem aos gestores e formuladores de políticas públicas uma base para direcionar o trabalho das redes de ensino por meio de evidências. Além dos testes, questionários são aplicados aos secretários municipais de Educação, aos diretores de escolas e alguns professores. Essa medida busca contextualizar socioeconomicamente os dados.

Os resultados de 2021 apontam que houve uma piora na educação brasileira, impacto atribuído pelos pesquisadores à pandemia de covid-19, que colocou a necessidade de implementar ensino remoto em tempo recorde.

A evolução das proficiências médias no Saeb em matemática no ensino médio brasileiro, por exemplo, caiu de 277 pontos em 2019 para 270 em 2022. No 9° ano do ensino fundamental, houve perdas nas áreas de ciências humanas e nas de ciências da natureza.

Outro problema agravado pela pandemia de covid-19 no Brasil foi a evasão escolar. Dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2021 apontaram que 244 mil crianças e adolescentes entre 6 e 14 anos estavam fora da escola no segundo trimestre de 2021, um aumento de 171% em relação a 2019.

Em 2022, levantamento da Unicef, órgão da ONU para a infância, realizado pelo Ipec, mostrou que 11% dos brasileiros de 11 a 19 anos estavam fora da escola, o que corresponde a 2 milhões de pessoas.

Com esses dados oficiais em mãos, as escolas conseguem detectar problemas de aprendizagem, por exemplo, pois são gerados dados específicos de cada escola sobre o desempenho dos estudantes.

Há ainda avaliações estaduais, realizadas por meio das secretarias de educação, que fornecem um panorama sobre as instituições. Índices como nível de aprendizagem, frequência e abandono escolar entram nesta conta. As instituições também utilizam sistemas de gestão online para auxiliar no planejamento pedagógico e financeiro das escolas. Esses dados são mais uma maneira para gestores analisarem as suas realidades.

Os contextos particulares

A gestora Mara Nibia da Silva, doutora em educação pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e assessora do departamento de planejamento da Secretaria de Estado da Educação do Rio Grande do Sul, constatou, ao analisar os dados da rede estadual, um grande número de estudantes do ensino fundamental e médio que deixavam a escola, inclusive alunos aprovados, o que é menos comum do que em casos onde há reprovação, por exemplo.

Com isso, a conclusão foi de que a secretaria necessitava de um plano para entender quem são esses alunos para que uma abordagem fosse feita de maneira respeitosa e não invasiva.

“Compreender quem são os estudantes que deixaram a escola, o motivo que os afastou, o contexto socioeconômico no qual se inserem, suas considerações sobre a escola, são fundamentais. Não podemos esquecer que os estudantes têm nome, endereço, são filhos, irmãos, pais, mães, maridos e esposas, com as próprias trajetórias de vida, potencialidades, limites e aspirações. Os dados revelam histórias, vidas, e devem ser lidos sempre nessa perspectiva”, disse Silva em artigo no livro “Planejar e agir a partir de dados educacionais”.

A obra, disponível online gratuitamente, reúne experiências de gestores educacionais, como diretores de escolas e membros de secretarias de educação, que passaram em 2022 pelo curso “Gestão para as aprendizagens: trabalhando os dados na prática”, desenvolvido pelo Instituto Singularidades em parceria com o Instituto Unibanco.

Busca ativa contra evasão

A gestora Gisane Cordeiro Raposo de Paula, diretora da escola Professora Maria Trindade de Oliveira, em Ibatiba, no Espírito Santo, município de 26 mil habitantes, também identificou a evasão como o problema central ao analisar dados do sistema de frequência escolar utilizado pela escola.

Localizada em uma região cafeeira do estado, a escola passa por uma situação peculiar: na época de colheita do café, muitos jovens abandonam os estudos, principalmente os que estão no ensino médio. Segundo Paula, por já terem 17 anos completos, eles acabam priorizando o trabalho em detrimento dos estudos por causa das dificuldades financeiras.

Quando a gestora iniciou a formação pelo instituto, 50 alunos do ensino médio parcial (a escola também tem ensino médio integral) não estavam frequentando as aulas. E a escola não estava conseguindo trazer os alunos de volta, mesmo com a abordagem família a família.

“A grande maioria dos responsáveis relatou que os filhos estavam trabalhando e, por isso, não conseguiam matriculá-los”, disse a gestora em texto do livro.

O primeiro passo dela foi alinhar o plano de equipe para planejar estratégias consistentes e a curto prazo que resolvessem o problema.

Para isso, a escola implementou algumas estratégias, como:

- Busca ativa (ou seja, contato com os alunos e as famílias) logo na primeira semana de aula em que a criança ou jovem não compareceu

- Retomada da rotina escolar. A gestora percebeu que, pós-pandemia, os estudantes perderam habilidades de convívio. Ela realizou reuniões com as famílias e organizou palestras e rodas de conversa sobre temas como saúde mental e comunicação não violenta

- Aulões e gincanas pedagógicas para melhorar a aprendizagem e frequência

Depois das ações, o número de alunos do ensino médio que não estavam frequentando a escola caiu quase pela metade, passou de 50 para 26.

“Ainda há muitos alunos fora da escola e a aprendizagem precisa avançar, principalmente nesse cenário pós-pandemia. O importante é que o primeiro passo foi dado, e é preciso fazer diferente”, afirmou Gisane de Paula no livro.

Família e escola

A escola estadual Pedro Amazonas Pedroso, em Belém, no Pará, precisava melhorar a frequência escolar e impedir o abandono dos estudos, um padrão detectado a partir dos dados coletados dentro da própria escola via sistema de gestão próprio.

A diretora da instituição, Elisabete Silveira Aguiar Farias, observou os dados de evasão e frequência e iniciou com a equipe pedagógica um trabalho de busca ativa escolar, uma estratégia de acompanhamento pedagógico que investiga e registra dados tanto de estudantes que já saíram da escola como os que estão na iminência de deixar os estudos.

O trabalho, realizado em 2022, reparou resultados como:

- maior envolvimento com a família.

- linha direta com pais e alunos.

- intervenções em aspectos psicossociais junto aos órgãos estaduais e municipais responsáveis.

controle mais eficaz da presença durante as aulas/chamada ativa.

Segundo os gestores escolares, tanto a avaliação de alunos como da própria escola deve ser a base de diálogo, e não a origem de descrições assertivas unilaterais e de julgamentos autoritários. Por isso, os diretores e gestores educacionais devem tornar-se participantes construtivos nas conversas dentro da escola, em vez de geradores de informação inquestionável ou arbítrios autoritários.

Logo, a comunicação com a equipe pedagógica, professores, alunos, pais e comunidade escolar em geral é fundamental, em conjunto com a análise dos dados coletados, seja por meio de sistemas próprios, seja dos resultados de provas como o Saeb.

Os gestores educacionais pontuam no livro a importância dessa análise de dados não ser puramente numérica: é necessário elaborar projetos pedagógicos pensando nas condições da comunidade onde a escola está inserida, considerando sempre uma perspectiva antirracista e de diferentes realidades socioeconômicas.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2023/12/01/O-que-a-an%C3%A1lise-de-dados-pode-sugerir-%C3%A0s-escolas-brasileiras

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