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sexta-feira, 2 de maio de 2014

"Gastar mais de uma hora para ir ao trabalho é contraproducente"

"Gastar mais de uma hora para ir ao trabalho é contraproducente". O professor Robert Cervero, da Universidade de Berkeley, nos EUA, veio ao Brasil para um congresso sobre desenvolvimento urbano em São Paulo e ficou impressionado com a falta de mobilidade das nossas cidades. Saiu-se com essa frase simples e precisa. No mesmo evento, foram divulgados números dando conta de que o carioca perde mais tempo que o paulistano no caminho do batente (quem diria?). Mas não é só na ida e volta do escritório que a gente amarga horas engarrafado. Eu tenho até saudades de quando a hora do rush se restringia ao início e ao começo do dia.
 

O problema generalizado da mobilidade no Rio desvalorizou o tempo das pessoas. O morador de Botafogo não "compra" mais um chope no Leblon ou um passeio no Jardim Botânico com duas horas livres, que serão em boa parte consumidas no trajeto de ida e volta. Em "meia horinha", o sujeito que trabalha no Flamengo não chega mais à Gávea para uma reunião qualquer fora do escritório no miolo da tarde. Em "meia horinha", aliás, não se vai muito longe. Nosso trânsito aposentou esses diminutivos levianos.

 

Para o morador da Zona Sul, onde a quinta marcha nos automóveis está a um passo de se tornar obsoleta, uma ida até a Barra da Tijuca virou empreendimento. A gente se programa para aproveitar a viagem e fazer compras no supermercado, pegar uma praia e ver aqueles amigos queridos com quem só tem conversado via Facebook e What-sApp. Os exagerados dizem que ir à Barra está igual a ir a Búzios, mas não é verdade. Até porque a cidade na Região dos Lagos também ficou mais longe. Num fim de semana qualquer, não precisa ser na alta temporada, gastam-se até cinco horas para cumprir os 180 quilômetros até lá. Muito caro.

 

Para Cervero, essa "poluição do tempo" é tão nefasta quanto a do ar. Em outras palavras, o trânsito caótico deduz parte da nossa cidadania. Sem falar que é capaz de fazer até uma pessoa educada cuspir os piores impropérios ao se deparar com outro ônibus fechando mais um cruzamento.  Na megalópole paulistana, assim como no Rio, o dia de muitos de nós é regido pelas horas que vamos perder no caminho para nossos afazeres. Aqui, o tempo é protagonista.


Fonte: Panorama carioca - O Globo, em 19/4/2014.

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