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sábado, 6 de junho de 2026

Bolsa Familia leva Brasil a maior desenvolvimento humano de sua história


Índice avalia os parâmetros de saúde e longevidade, educação e geração de renda

O Brasil ingressou, pela primeira vez, na categoria de países com desenvolvimento humano “muito alto”.  Em 2024, o país alcançou 0,805 no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), em comparação a 0,744 em 2012. A escala para classificar o desenvolvimento humano varia de 0 a 1, sendo muito alto: acima de 0,800.

A informação é do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) Brasil que divulgou, na terça-feira (26/5), a pesquisa Radar IDHM.

O marcador avalia os parâmetros de saúde e longevidade, educação e geração de renda, de acordo com a cor (negro e branco) e o sexo (mulher e homem). A publicação considera os últimos 13 anos – de 2012 a 2024.

Quando o programa das Nações Unidas começou a calcular esse índice, há 30 anos, o Brasil era um país de IDHM baixo, ou seja, menor que 0,555.

Educação

O parâmetro que mais impulsionou o IDHM neste período foi a educação, ao passar de 0,679 em 2012 para 0,798 em 2024.

A coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Pnud Brasil, Betina Barbosa, destacou, nesse contexto, a concessão do Bolsa Família.

“É o programa Bolsa Família que retira quantidade enorme de crianças do trabalho e dá a elas a condição da escola e a obrigatoriedade, também, de estar na escola. Então, aqui vejo diretamente o efeito de uma política pública brasileira.”

Betina Barbosa lembrou que o programa, criado em 2003, começa a produzir efeitos cerca de dez anos depois, justamente quando o primeiro grupo de beneficiários completa um período satisfatório de ensino, do fundamental e médio.

Famílias negras

Segundo ela, a melhoria dos indicadores de educação nesse período é mais significativa entre famílias de renda mais baixa, em especial, as negras.

“É aqui que a população negra começa a apresentar melhores indicadores, melhor performance em educação. Então, a política pega um grupo que estava excluído e bota esse grupo para dentro do diálogo do desenvolvimento humano. Isso acontece a partir de 2016 de forma ascendente.”

A especialista ressalta que não existe alternativa para a melhoria do desenvolvimento brasileiro sem incluir a população negra na agenda de políticas públicas. O mesmo vale para as mulheres. “Esses são dois entraves sérios para o Brasil, a desigualdade de raça e a desigualdade de gênero.”

Saúde e renda

A coordenadora explicou que, dos subíndices, a política pública de saúde é a que mais produz resultados positivos para o país, com performance de “muito alto desenvolvimento” já em 2012 (0,829), em razão da consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) a partir da Constituição de 1988. Mesmo assim, é o que apresenta crescimento mais lento, chegando a 0,860 em 2024.

Já o parâmetro da renda cresce em baixa velocidade, de 0,732 em 2012, para 0,760 em 2024, no patamar de alto desenvolvimento.

Regiões metropolitanas

De acordo com os dados do Pnud, as regiões metropolitanas são os locais onde os brasileiros vivem melhor e puxam o IDHM do país para cima.

Alguns estados, sobretudo das regiões Sul e Sudeste, já têm IDH altíssimo, mas a média do Brasil é acompanhada por regiões metropolitanas que antes eram consideradas regiões da periferia brasileira.

Como exemplo, Betina cita a Grande Teresina, no Piauí, com índices muito altos de desenvolvimento humano: 0,809.

“Esses territórios que antes puxavam a média Brasil para baixo, porque não acompanhavam o ritmo de crescimento, agora são unidades que ajudam o país a alcançar a média ‘muito alta’.”

Entre os nove estados da Região Nordeste, sete regiões metropolitanas já apresentam o IDH muito alto. “Isso é algo inédito nos trabalhos que nós realizamos no Pnud.”

Veja lista dessas regiões:

Natal – 0822

Aracaju – 0,809

Grande Teresina – 0,809

Recife – 0,806

São Luís – 0,806

Salvador – 0,803

João Pessoa – 0,803

Negação

Para o Pnud, nos anos de 2020 a 2022, o país enfrentou uma crise sistêmica devido à pandemia de covid-19. Em 2021, o IDHM do país chegou a 0,757. A especialista pondera que o mais preocupante para o Brasil foi a negativa de que esse colapso iria produzir efeitos negativos sobre o desenvolvimento.

“Essa negação e esse não envolvimento rápido com a criação de políticas públicas que combatam crises sistêmicas, isso é muito grave”, explicou. “Ainda não nos recuperamos aqui, em termos de esperança de vida, do baque da covid-19”, acrescentou.

Nesse aspecto, a mortalidade infantil é o indicador que mais preocupa o Pnud e que está atrelado a políticas públicas que precisam de uma resposta rápida. “E não houve no país uma resposta suficientemente rápida no sentido dos impactos da covid-19.”

Os resultados do Radar IDHM foram calculados com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a equipe técnica e pesquisadores da Fundação João Pinheiro.

Fonte: Agência Brasil com ICL Notícias em 27/05/2026.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Municípios gastam R$ 126 milhões em apostilas sem licitação mesmo com livros gratuitos do MEC


Compras públicas em todo o país revelam expansão de conglomerado na educação municipal, com os principais contratos em SC, RS, PR e MG

Diferentes cidades do país estão aderindo ao sistema de apostilamento na educação pública, mesmo com um serviço gratuito de fornecimento de livros didáticos por parte do Ministério da Educação. Dados públicos do Portal Nacional de Contratações Públicas indicam que, de 2024 até este ano, pelo menos 138 municípios contrataram algum produto do Aprende Brasil, do conglomerado Positivo, que, entre outras frentes, fornece um sistema de “soluções educacionais”.

A reportagem utilizou a plataforma do Projeto Sherlock para identificar compras públicas que continham a palavra-chave “Aprende Brasil”. Os contratos são mais comuns nos estados da Região Sul, mas abrangem todo o país.

Somadas, essas soluções custaram cerca de R$ 126 milhões a diferentes cidades brasileiras desde 2024 e começam a se disseminar por estados de todo o país. Santa Catarina foi o estado que mais investiu no serviço, com 34 cidades aderindo a contratos por inexigibilidade de licitação — modalidade usada quando não há possibilidade de concorrência. O dado chama atenção porque o Ministério da Educação oferece gratuitamente o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD).

Só Itajaí investiu mais de R$ 8 milhões na contratação da empresa para aquisição de material didático-pedagógico integrado do Sistema de Ensino Aprende Brasil, contemplando ambiente virtual, avaliação externa de aprendizagem, consultoria e assessoria pedagógica para atender às necessidades das escolas da rede municipal. Procurado, o município não se manifestou sobre as motivações para a escolha da empresa nem sobre o andamento da implantação do sistema na rede.

O professor da rede municipal Thiago Moreti, também conhecido como “Professor Tatuado” nas redes sociais, onde atua como produtor de conteúdo, avalia que o material não é bom, embora muitos professores gostem dele. “Ele tem um falso status. Tem colegas, pais e alunos que acham que é material de escola particular”, comenta.

Ele também critica a imposição da prefeitura para que os professores usem o material, com cursos de capacitação tratados como “convocações”. “É fora da realidade dos nossos alunos. O município sempre trabalhou com o PNLD, com livros bem melhores do que as apostilas.”

A cidade, um dos maiores PIBs de Santa Catarina, é comandada pelo bolsonarista Robison Coelho (PL). Em abril, uma formação orientou professores sobre o sistema de avaliação em Língua Portuguesa e Matemática. A “avaliação Sondar” é vendida como um “diagnóstico preciso” para o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Ministério da Educação. O município teve redução na nota do MEC, passando de 6,6, em 2019, para 6,3, em 2023.

O desempenho nessas avaliações é uma das métricas para a destinação de recursos públicos para a área e tem se tornado uma obsessão para gestores municipais. O Saeb 2023 indicou que Santa Catarina ficou abaixo das metas estipuladas, com os próximos resultados previstos para serem divulgados em junho deste ano.

A pesquisadora Juliana Lummertz, que estudou o tema em sua tese de doutorado, avalia que discursos de eficiência, inovação e melhoria da qualidade educacional são usados para legitimar o avanço de práticas empresariais nas redes públicas.

“Sob a promessa de modernização da escola pública, aumento do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e superação das dificuldades educacionais, introduzem-se mecanismos de controle, padronização e monitoramento inspirados na lógica corporativa, deslocando progressivamente o sentido público e democrático da educação”, analisa.

Além de Itajaí, considerada uma cidade de grande porte no estado, municípios menores também estão aderindo ao sistema privado, como Jacinto Machado, Sombrio e Santa Rosa do Sul, todas no Sul de Santa Catarina. Juntas, segundo o levantamento da coluna, representam um investimento de mais de R$ 1,7 milhão.

Uma professora que preferiu não se identificar afirmou que os contratos ocorrem sem consulta às equipes educacionais que vão utilizar o sistema. Para ela, além de ser um processo conduzido de cima para baixo, o negócio com o setor privado gera custos desnecessários. “Os livros do MEC são de excelente qualidade. Temos maior autonomia sobre quais conteúdos e habilidades podemos trabalhar. Existem muitas coleções e o município pode optar por aquela que considerar melhor”, disse.

Ela avalia que as apostilas também têm qualidade, mas engessam o professor, que perde autonomia sobre os conteúdos trabalhados. Além disso, os contratos envolvem acesso a dispositivos tecnológicos que as escolas não têm capacidade técnica de suportar. “O sistema oferece plataforma com videoaulas, jogos e atividades complementares, mas ela só pode ser utilizada com internet, sem possibilidade de download. Não conseguimos usá-la em salas de aula que não dispõem de internet.”

O sistema também exige uma série de equipamentos tecnológicos, como projetor, computador e televisão, o que acaba prejudicando seu aproveitamento efetivo em unidades escolares sem infraestrutura adequada. “Prefeituras pequenas, com orçamento limitado, gastam milhões com esse sistema.”

Privatização do ensino

A professora e pesquisadora Juliana Lummertz conheceu de perto o funcionamento do sistema de apostilamento no município de Gravataí, no Rio Grande do Sul, durante a produção de sua tese de doutorado. O estado também se destaca entre aqueles com maior número de municípios com contratos com o Grupo Positivo: são 31 cidades.

Apesar de Gravataí não figurar nessa lista recente, ela estudou como esse processo ocorreu entre 2013 e 2021, período em que também integrava o Conselho Municipal de Educação. A adoção de um sistema privado foi analisada, a partir das evidências coletadas, como um mecanismo de controle de conteúdo e monitoramento de dados. O impacto no trabalho dos professores também se manifestou em protocolos rígidos, padronizados e engessados.

“Quando a rede municipal passa a adotar um sistema privado estruturado, parte significativa das decisões pedagógicas deixa de ser construída coletivamente no interior da escola e passa a ser definida por empresas educacionais externas”, afirma a pesquisadora e professora da rede municipal de Porto Alegre. “A escola pública perde capacidade de definir seus próprios caminhos pedagógicos porque passa a operar a partir de uma lógica previamente organizada pelo mercado educacional.”

A pesquisadora avalia que esse processo esvazia a função intelectual do professor e a própria gestão democrática nas escolas, já que o docente deixa de participar de decisões importantes. Além disso, o foco na avaliação, igualmente padronizada, “deixa de ser compreendida prioritariamente como processo pedagógico construído pela escola e passa a funcionar como mecanismo de controle e mensuração de desempenho”.


Negócio lucrativo

Apesar de ter mais contratos no Sul do Brasil, a empresa responsável por esses sistemas também atua em outros estados, oferecendo diferentes tipos de serviço. Os maiores contratos partem de R$ 1 milhão, mas podem chegar a R$ 8 milhões, como no caso de Itajaí.

A cidade de Rondonópolis (MT) também investiu alto, com contrato no valor global de cerca de R$ 7 milhões, igualmente sem licitação. Chapadão do Sul (MS) assinou contratos da ordem de quase R$ 4 milhões, valor semelhante ao investido por Videira (SC), cujo contrato se restringiu a 30 unidades de ensino fundamental e infantil. Os contratos de menor valor são exclusivos para aquisição de livros.

A Gráfica e Editora Posigraf Ltda. comercializa outras soluções para a rede pública além do sistema Aprende Brasil. Entre elas, estão contratos de prestação de serviços não contínuos e especializados de impressão, acabamento, mixagem, separação, embalagem, transporte e distribuição de materiais didáticos.

Algumas contratações ocorrem via pregão, mas os serviços do Aprende Brasil são sempre contratados por inexigibilidade. Em determinados casos, os municípios contratam acervos de livros para o ensino fundamental, ensino religioso ou ainda consultoria pedagógica.

O Grupo Positivo é considerado um gigante nas áreas de educação e tecnologia. Em 2025, divulgou ao site Brazil Economy receita de R$ 1,2 bilhão, com previsão de alcançar R$ 1,3 bilhão em 2026. A empresa tem como braço a Positivo Tecnologia S.A., listada na bolsa de valores, com foco na divisão de tecnologia, e registrou prejuízo líquido de R$ 12,3 milhões no primeiro trimestre de 2026.

A empresa informou que os processos de contratação são idôneos e seguem o Pacto Brasil pela Integridade Empresarial, da Controladoria-Geral da União. “As contratações sem concorrência ocorrem de forma legal, justificadas pelas características próprias e exclusivas de nossas soluções pedagógicas, que envolvem metodologia, plataformas e consultoria”, informou a assessoria de imprensa.

Além disso, destacou que oferece “uma estratégia educacional integrada”, com livros que permanecem em definitivo com os estudantes. Segundo a empresa, as prefeituras recebem sistemas de gestão e avaliação, ambiente virtual de aprendizagem, consultoria personalizada e “sólida formação continuada para os professores”. O grupo afirma que 77% dos municípios parceiros superaram a média nacional nos anos iniciais e 74% nos anos finais do ensino fundamental no Ideb 2023.

Em contrapartida, o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) é vinculado ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e possibilita que as escolas tenham acesso gratuito a obras didáticas, pedagógicas e literárias. O material é distribuído a alunos e professores. Somente em 2026, estão previstos R$ 2,6 bilhões em investimentos, com mais de 213,4 milhões de livros entregues para escolas públicas em todo o país.

Para Juliana, esse tipo de vinculação entre público e privado constitui um espaço estratégico de expansão do mercado educacional. “A escola pública deixa de ser compreendida prioritariamente como espaço de formação humana e construção coletiva do conhecimento e passa a ser inserida em uma racionalidade empresarial orientada pela eficiência, pela padronização e pela obtenção de resultados mensuráveis.”

Além disso, segundo ela, como os grandes grupos buscam lucro, precisam mobilizar uma expansão contínua dos mercados educacionais, e os contratos públicos são estratégicos para isso. “A educação pública municipal torna-se um espaço altamente atrativo porque envolve contratos financiados com recursos estáveis do fundo público.”

Para a pesquisadora, o risco é de que a educação pública passe a funcionar cada vez mais como um mercado de serviços educacionais. “A pressão por retorno aos acionistas não afeta apenas aspectos administrativos ou financeiros das empresas educacionais. Ela altera a própria natureza da educação pública, subordinando processos pedagógicos, curriculares e formativos à lógica da mercadoria, da competitividade e da acumulação privada”, sintetiza.

Fonte: ICL Notícias em 15/05/2026.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Efeito Master: Secretaria erra folha de pagamento e mais de 14 mil professores ficam sem salários no DF


Professores temporários relatam contracheques zerados ou de até R$ 350; governo admite erro e promete regularização


Professores em regime de contratação temporária da rede pública do Distrito Federal denunciam que não receberam salários ou tiveram valores pagos de forma incorreta neste mês. Em alguns casos, conforme contracheques enviados para redação do Brasil de Fato DF, o pagamento se limitou ao auxílio-alimentação, no valor de R$ 349,09.

A crise no pagamento dos professores expõe fragilidades na gestão da folha salarial da rede pública do DF. De acordo com o Sindicato dos Professores (Sinpro-DF), foram mais de 14 mil profissionais afetados por atrasos e erros nos repasses, com relatos de ausência total de salários ou depósitos com valores irrisórios muito abaixo do devido.

Contracheques apresentados por professores da rede, mostram docentes que deveriam receber remuneração integral tiveram creditados apenas valores referentes ao auxílio-alimentação, na faixa de R$ 322 a R$ 350. Outros profissionais apontam inconsistências nos cálculos de horas-aula e atividades de coordenação pedagógica.

Uma professora em contrato temporário, que prefere não ser identificada, apontou que os impactos foram drásticos na vida financeira. “Além do atraso no pagamento (era para receber no dia 05/03 e recebemos no dia 12/03) o valor veio errado. Não contabilizaram o feriado e houve um desconto grande no salário. Teve professor que recebeu apenas 345 reais”.

De acordo com a professora, o dano não foi apenas financeiro, mas também moral. “Você trabalha o mês de forma adequada e não tem dignidade na hora de receber o salário. O ambiente de trabalho de um professor já é estressante, quando isso impacta também na sua manutenção da vida doméstica é mais um estresse para administrar”, argumenta.


Medidas jurídicas

Diante do cenário, o Sinpro-DF afirma ter iniciado medidas políticas e jurídicas para pressionar o Governo do Distrito Federal (GDF) a regularizar imediatamente os pagamentos. A entidade também anunciou atendimento jurídico aos profissionais prejudicados, com o objetivo de reunir documentação e avaliar a possibilidade de ações por danos morais.

A diretora do sindicato, Márcia Gilda, criticou duramente a situação e cobrou solução urgente. “É inadmissível o governo pagar atrasado o salário de mais de 14 mil trabalhadores e trabalhadoras que têm conta para pagar e, ainda quando faz esse pagamento, ele sai errado, a menor. Foram inúmeras pessoas que receberam apenas o auxílio-alimentação”, afirmou. Ela defende a correção imediata por meio de folha suplementar ainda neste mês.

Presidente da Comissão de Educação na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), o deputado distrital Gabriel Magno (PT-DF) classificou o episódio como um “escândalo” e denunciou falhas sistêmicas na Secretaria. “A Secretaria pagou semana passada e pagou errado. Eu tenho contracheques de professores que receberam R$ 322. É um escândalo o que está acontecendo”, disse. O parlamentar ainda atribuiu parte do problema ao sistema EducaDF, criticado por falhas operacionais.

Em resposta, a Subsecretaria de Gestão de Pessoas da Secretaria de Educação reconheceu, em nota pública, que houve “inconsistência na base de dados utilizada para o cálculo da remuneração dos professores substitutos”, durante a implantação e expansão da plataforma EducaDF. Segundo o órgão, o erro resultou nas divergências observadas nos valores creditados.

A pasta informou que após identificar a origem do problema, a equipe técnica realizou a correção na base de cálculo e garantiu que a falha não afetará o próximo pagamento.

Em posicionamento enviado ao Brasil de Fato DF, a Secretaria reiterou que os valores revisados serão pagos até o quinto dia útil de abril e que o próximo repasse salarial não será impactado. O órgão também afirmou lamentar os transtornos e reforçou o compromisso com a transparência e a regularização da situação “Reconhece e lamenta os transtornos”

“Meu primeiro contracheque veio com R$ 322, depois corrigiram e veio errado novamente os valores. Todas as minhas contas ficaram atrasadas, tudo foi pago com juros. A promessa é que vem corrigido no próximo pagamento. O GDF odeia os professores”, disse uma outra professora, que também preferiu não se identificar e que atua em contrato temporário em uma escola pública no Paranoá.

 Fonte: ICL Notícias com Brasil de Fato em 20/03/2026. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Receita nega aumento de imposto para professores com novo piso


Fisco esclarece que reajuste vem acompanhado de redução de tributos


A Receita Federal rebateu, na noite da quinta-feira (22/1), informações falsas que circulam nas redes sociais sobre uma suposta elevação da tributação sobre professores em razão do reajuste do piso salarial do magistério. Segundo o órgão, as alegações ignoram as regras legais de apuração do imposto e levam à conclusão equivocada de que os profissionais da educação passariam a pagar mais IR após o aumento salarial.

Em nota, o Fisco destaca que a reforma do Imposto de Renda faz com que mais contribuintes deixem de pagar IR e outros passem a pagar menos, tornando a tributação mais progressiva. Sancionada no fim do ano passado, a Lei 15.270/2025 ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês e reduziu o imposto devido sobre rendimentos entre R$ 5 mil e R$ 7.350.

“Não procede a afirmação de que o reajuste do piso do magistério levaria automaticamente os professores a pagar mais Imposto de Renda. Os profissionais da educação são diretamente beneficiados pela redução prevista na Lei nº 15.270/2025”, destacou a Receita no comunicado.
De acordo com a Receita, a categoria está entre as diretamente beneficiadas pelas novas regras.

Em 2025, com o piso salarial de R$ 4.867,77, um professor pagava cerca de R$ 283,14 por mês de Imposto de Renda retido na fonte, considerando o desconto simplificado. Já em 2026, com o piso reajustado para R$ 5.130,63, esse mesmo profissional passará a pagar aproximadamente R$ 46,78 mensais de IR.

Segundo o Fisco, o efeito combinado do reajuste salarial e da redução do imposto garante ganho real no salário líquido, ao mesmo tempo em que corrige distorções na tributação sobre a renda dos profissionais da educação.

Fonte: ICL Notícias com Agência Brasil em 23/01/2026.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Fusões e aquisições de Educação caem 63% no primeiro trimestre

Educação não deveria ser mercadoria.

O Brasil registrou 7 fusões e aquisições de empresas de Educação no primeiro trimestre de 2023, uma queda expressiva de 63% na comparação com o primeiro trimestre de 2022, quando 19 transações desse tipo foram realizadas, evidenciando um cenário setorial de baixa. Das 7 transações do primeiro trimestre de 2023, 5 foram domésticas e 2 do tipo CB1, quando empresa de capital majoritário estrangeiro adquire, de brasileiros, capital de empresa estabelecida no Brasil. Os dados constam na tradicional pesquisa da KPMG sobre o assunto, realizada com empresas de 43 setores da economia brasileira.

O setor de educação apresentou o melhor desempenho em quantidade de fusões e aquisições em 2022, totalizando 53 operações. Foi a melhor marca da série histórica desde 2008. “Com isso, é natural que haja um período de retração e acomodação no mercado, pois as entidades estavam integrando os negócios recém-adquiridos. Foi o que ocorreu no início de 2023. Além disso, o mercado também estava aguardando decisões que poderiam afetar e alterar os rumos do setor de educação no Brasil”, afirma Marcos Boscolo, sócio-líder do setor de Educação da KPMG no Brasil.

Os setores que mais se destacaram no primeiro trimestre de 2023 foram companhia de internet com 81 transações, tecnologia da informação com 66, e instituições financeiras com 36. Os outros que receberam investimentos foram os seguintes: companhia de serviço com 15; mídia e telecomunicação com 24; companhias de energia, 14; seguro, 11; hospitais e laboratório de análises clínicas, 14; e transportes 12.

A pesquisa da KPMG revelou ainda que foram realizadas 372 operações de fusões e aquisições no primeiro trimestre de 2023, uma queda de 32,7% em relação ao mesmo período do ano passado quando foram fechados 553 negócios. Este número também aponta para um cenário de estabilidade com leve recuperação em relação aos dois trimestres anteriores onde foram concluídas 370 e 344 transações respectivamente. Estas são as principais tendências observadas no levantamento realizado trimestralmente.

“Aparentemente, as atividades de fusões e aquisições se estabilizaram neste novo patamar de negócios desde a queda pelo apetite em transações relacionadas às empresas de tecnologia verificada no primeiro semestre de 2022. Outro fator que contribui para esta redução é o agravamento do cenário econômico global e local”, analisa Luis Motta, sócio-líder de Fusões e Aquisições Proprietárias da KPMG no Brasil.

Fonte: KPMG, junho de 2023. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Banco do Brasil pede falência de famosa faculdade para Justiça

BB pressiona Justiça do Rio para o decreto da falência de uma instituição universitária conhecida.

Uma das instituições de ensino privadas mais conceituadas na área da Comunicação Social solicitou recuperação judicial. Contudo, o Banco do Brasil começou a pressionar o Tribunal de Justiça para que esta declare estado de falência.

Em 2022, a Organização Hélio Alonso de Educação e Cultura (OHAEC) – constituída pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha) e pelo Colégio Hélio Alonso (CHA) – entrou com um pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

Desde então, o pedido tem passado por diversas etapas de análise e se encontra, atualmente, sob análise do juiz Alexandre Mesquita, da 3ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro.

Recuperação judicial e falência: entenda os conceitos

Em síntese, a recuperação judicial se baseia na suspensão temporária de cobranças, na nomeação de um representante da Justiça para ser o intermediário entre credores e a empresa devedora e, enfim, a elaboração de um plano de recuperação.

Neste plano, a proposta engloba prazos mais acessíveis para os devedores para quitar as pendências junto aos credores. Caso a empresa não cumpra o acordo ou não seja possível uma negociação, os credores podem solicitar a falência da empresa devedora.

Neste caso, a empresa fecha as portas, encerrando toda e qualquer atividade. Além disso, todas as propriedades do negócio vão para leilão, a fim de abater parte das dívidas.

Facha se posiciona quanto a pedido de Banco do Brasil

Em nota oficial, a instituição universitária aponta que o pedido não tem respaldo em lei. Veja:

“A recuperação judicial da OHAEC, mantenedora da Facha, encontra-se em tramitação regular. E a etapa atual, fundamental para o bom andamento do processo, é a de negociação do plano com os credores. A posição do Banco do Brasil (…) é tecnicamente uma manifestação isolada de ‘objeção ao plano’, além de não ter qualquer respaldo na lei, uma vez que a deliberação acerca dos meios para renegociação das dívidas é prerrogativa da coletividade dos credores (…) e não sua isoladamente”.

Ademais, a nota também reforça o otimismo da empresa em quitar as pendências e manter as atividades.

“A OHAEC está segura e confiante em sua capacidade de preservar sua relevante e cinquentenária atividade em benefício de toda a sociedade, bem como de alcançar junto aos seus credores uma negociação saudável e responsável”.

Fonte: Seu Crédito Digital em 16/02/2023.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Gastos da União com educação chegaram a R$ 84 bilhões em 2022

As despesas executadas com saúde somaram R$ 151,9 bilhões

Os gastos em manutenção e desenvolvimento do ensino realizados pela União em 2022 chegaram a R$ 84 bilhões, contra R$ 76,3 bilhões executados em 2021. O valor representa 133,8% do limite mínimo constitucional estabelecido para esse tipo de despesa no ano, de R$ 68,2 bilhões. Os dados constam do Relatório Resumido de Execução Orçamentária da União (RREO em Foco), de dezembro, divulgado hoje (30) pelo Tesouro Nacional.

No ano, as despesas executadas com ações e serviços públicos de saúde atingiram R$ 151,9 bilhões, uma redução de R$ 27,2 bilhões em relação aos valores aplicados no ano anterior, que somaram R$ 179,1 bilhões. O montante representa 108,6% do limite mínimo constitucional calculado para o exercício, de R$ 139,8 bilhões.

“A Constituição Federal estabelece que a União deve aplicar em despesas com manutenção e desenvolvimento do ensino e ações e serviços públicos de saúde o valor equivalente ao limite mínimo do exercício anterior, corrigido pelo IPCA de doze meses encerrado em junho do exercício anterior a que se refere a lei orçamentária. Entram nessa conta as despesas liquidadas no exercício e os valores inscritos em restos a pagar não processados”, informou o Tesouro.

Quanto à seguridade social, no ano passado, foi registrado um déficit de R$ 276,3 bilhões, resultante do recolhimento de receitas de R$ 1,114 trilhão e despesas de R$ 1,391 trilhão. O Regime Geral de Previdência Social (RGPS) apresentou déficit de R$ 270,2 bilhões, enquanto o Regime Próprio de Previdência dos Servidores Públicos (RPPS) apresentou resultado negativo de R$ 50,8 bilhões e o Sistema de Proteção Social dos Militares das Forças Armadas, de R$ 48 bilhões.

O resultado entre as receitas e as despesas previdenciárias dos servidores do Distrito Federal, custeadas pelo Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF), resultou em um déficit de R$ 6,6 bilhões.

A Receita Corrente Líquida (RCL) totalizou R$ 1,25 trilhão no ano, o maior resultado observado na série histórica iniciada em 2011. A RCL é o somatório das receitas tributárias, de contribuições, patrimoniais, industriais, agropecuárias, de serviços, transferências correntes e novas receitas correntes, deduzidas as transferências constitucionais e legais a estados e municípios e algumas contribuições.

Em 2022, as despesas de capital (investimentos, inversões financeiras e amortização da dívida) somaram R$ 1,77 trilhão, enquanto as receitas de operações de crédito atingiram R$ 1,7 trilhão. Com isso, o governo conseguiu cumprir a regra de ouro, que veda que as receitas decorrentes do endividamento (operações de crédito) sejam superiores às despesas de capital ao final de cada exercício fechado (janeiro a dezembro de cada ano). O valor remanescente foi de R$ 63,76 bilhões.

Fonte: Agência Brasil em 30/01/2023.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Educadores de todo o Brasil recebem prêmio por projetos sobre educação financeira

O Instituto BEI reuniu educadores, especialistas em economia e organizações da sociedade civil na sede da B3, em São Paulo, para a cerimônia de premiação da primeira edição do Prêmio BEI de Educação Financeira para Escolas Públicas.

Foram reconhecidos educadores de diversos estados do país, que se inscreveram no edital do prêmio e foram avaliados por um Comitê de Especialistas. Os projetos selecionados foram desenvolvidos em escolas públicas e envolveram o tema da educação financeira de forma qualificada, a partir de metodologias eficazes para a aprendizagem do tema.

A cerimônia contou com a participação de Sandra Battistella, Diretora Executiva do Instituto BEI; Ana Buchaim, Diretora Executiva de Pessoas, Marketing, Comunicação, Sustentabilidade e Social da B3; Luciana Campos, Gerente de Relações Institucionais do Itaú Unibanco; Ana Inoue, Superintendente do Itaú Educação e Trabalho; e Ilan Goldfajn, economista e ex-presidente do Banco Central.

Desde 2019, a Base Nacional Comum Curricular, que regulamenta os conteúdos a serem trabalhados nas escolas brasileiras, incluiu a Educação Financeira entre os temas que deverão constar nos currículos de todo o país. Com isso, o Prêmio BEI de Educação Financeira para Escolas Públicas foi idealizado pelo Instituto BEI com o propósito de identificar, valorizar e reconhecer educadores de escolas públicas que implementam essa temática em sala de aula de forma qualificada.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio, o Brasil é um país com 79% das famílias endividadas e 30% inadimplentes. Além disso, apenas 40% da população adulta domina conceitos financeiros elementares, de acordo com a pesquisa realizada em 2016 pela Standard & Poor's em Parceria com o Banco Mundial.

De acordo com Sandra Battistella, Diretora Executiva do Instituto BEI, essa realidade, somada ao fato de que o sistema financeiro está cada dia mais sofisticado, dimensionam a importância de incentivar os conceitos de educação financeira para aproximar as crianças e os jovens desse assunto com responsabilidade, respeitando a atual condição de suas famílias e as ensinando a tomar decisões de forma consciente para o futuro.

"Educar financeiramente o jovem brasileiro é urgente e indispensável para favorecer sua formação como cidadão e prepará-lo para os desafios da vida adulta. Sabendo que os professores são os maiores responsáveis pela condução dos estudantes na sua jornada de aprendizagem e transformação, queremos que esse prêmio possa inspirar e encorajar educadores a lecionar sobre o tema", acrescenta Sandra.

O Prêmio BEI de Educação Financeira para Escolas Públicas tem patrocínio da B3 Social e Itaú Unibanco, e apoio do CONSED (Conselho Nacional de Secretários de Educação), Gol Linhas Aéreas, Associação Nova Escola, Fundação Roberto Marinho, Canal Futura e Dengo Chocolates.

Educação Financeira de norte a sul do País: os educadores premiados

Entre os professores premiados, o Prêmio Destaque foi para a professora de geografia Vanderlize San Martins Lima, do Rio Grande do Sul. Seu projeto levou a educação financeira para dentro da casa dos estudantes. Juntos, investigaram o motivo do endividamento de suas próprias famílias através de gráficos sobre consumo, valores de cestas básicas e demais custos do cotidiano.

Em uma segunda etapa, criaram cerca de 7 aplicativos de jogos, que elucidaram a importância de economizar e poupar, de forma divertida e simples. Os aplicativos passaram a ser usado pelas famílias, gerando mudanças na maneira de utilizar os recursos.

Além da primeira colocada, destaque para os cinco primeiros. Entre eles, o professor de química, Dhion Meyg da Silva Fernandes, levou o tema para sua escola da Rede Municipal de Ensino, no Sertão Central do Estado do Ceará. Seu projeto levou a temática da Educação Financeira para o universo da Agropecuária, uma das atividades socioeconômicas mais importantes da região.

No Mato Grosso, a professora de matemática Rosangela Nascimento coordenou seus alunos para uma aula prática de gestão de recursos financeiros por meio da criação de uma cantina escolar, com atividades que envolviam compra dos ingredientes, preparo, venda e fechamento do caixa. Ao todo, participaram 120 alunos divididos em 4 turmas, que viveram a prática do empreendedorismo no dia a dia.

No Rio de Janeiro, a professora Eline das Flores Victer, da disciplina de matemática, apresentou o tema aos alunos por meio de um aplicativo chamado “Quem é você no jogo financeiro”, que mapeava a maneira como os alunos e seus familiares lidavam com a questão financeira no dia a dia, para que pudessem refletir sobre formas mais conscientes de usar os recursos financeiros.

Em Pernambuco, a professora Adriana Maria, criou um projeto interdisciplinar de português e matemática. Em diferentes etapas, as aulas envolveram pesquisas de campo com as contas de casa, criação de gêneros textuais como campanhas publicitárias e a criação de microempresas para a aplicação dos conceitos, na prática.

Instituto BEI

O Instituto BEI é uma organização social fundada em 2018, que desenvolve programas educacionais e implementa projetos, que estimulam debates e colaboram para formação de políticas públicas. Em uma conexão entre a academia e a sociedade, conta com o apoio de especialistas para realizar pesquisas e buscar as melhores soluções para ações de impacto em diferentes frentes, desde o meio ambiente, ao desenvolvimento urbano e exercício da cidadania. 

Desde a sua fundação, o Instituto BEI já impactou mais de 85 mil jovens com o programa de educação financeira “Aprendendo a Lidar com Dinheiro”. Recentemente, estruturou o projeto Cora — Corações da Amazônia, que visa apoiar a educação dos jovens da Amazônia Legal. Com sua primeira iniciativa, o programa oferece bolsa permanência para universitários indígenas da região.

Tide Social — Assessoria de Imprensa Instituto BEI

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segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Os 'think tanks' liberais no Brasil e a educação*

A partir de meados dos anos 2000, no Brasil e no mundo, houve um expressivo aumento do número de think tanks liberais e o discurso tornou-se mais agressivo. O número de think tanks liberais no mundo aumentou de 5.465, em 2008, para 8.248 em 2019. No mesmo período, no Brasil, cresceu de 30 para 103.

A experiência brasileira com os think tanks iniciou-se na década de 1980, quando da democratização do país, e contava com setores da burguesia que estavam insatisfeitos com a Nova e República e com os resultados da Constituinte que acabara de aprovar a Constituição de 1988. As organizações precursoras foram o Instituto Liberal (IL), e o Instituto de Estudos Empresariais (IEE), fundamentais para a disseminação do pensamento liberal junto à burguesia no país. Esse  último instituto, desde 1988, organiza o Fórum da Liberdade, importante evento anual aberto aos não associados, catalizador das ideias e organizações liberais, no Brasil e na América Latina, auxiliando na ampliação da rede e arraigando o liberalismo junto ao empresariado e a segmentos da sociedade brasileira.

A partir de meados dos anos 2000, no Brasil e no mundo, houve um expressivo aumento do número de think tanks liberais e o discurso tornou-se mais agressivo. No âmbito mundial, isso traduziu a reação das classes dominantes à grave crise financeira de 2008. No campo ideológico, foi dado maior eco às ideias libertárias de fundo ético e moral e até mesmo às ideias negacionistas, visando a reafirmação e a massificação do pensamento liberal. O número de think tanks liberais no mundo aumentou de 5.465, em 2008, para 8.248 em 2019. No mesmo período, no Brasil, cresceu de 30 para 103.

Além do aparecimento de novas organizações, ocorreu repaginação de algumas antigas, com a difusão de uma concepção ainda mais extremada daquela que caracterizava as organizações precursoras. O Instituto Milenium (IMIL), fundado em 2005 e lançado no Fórum da Liberdade em 2006, tem participação  e influência sobre empresários e a mídia tradicional, reúne formadores de opinião e intelectuais de todo espectro da direita, produzindo conteúdos que alimentam todos os tipos de mídias. O Instituto Liberal do Rio de Janeiro, adicionalmente, conheceu, desde 2012, uma grande renovação de lideranças e reformulação. Mas os baluartes das perspectivas extremistas, assentados em abordagens de fundo ético, são o Instituto Mises Brasil (IMB)/Instituto Rothbard. Além desses, destacam-se o Estudantes pela Liberdade (EPL) – esse último em conjunto com o Students for Liberty Brasil (SFL Brasil) e o Movimento Brasil Livre (MBL) -, e, por fim, o Brasil Paralelo (BP). As duas primeiras e as duas últimas organizações refletem melhor a ação política de uma nova geração de ativistas de direita no Brasil.

Esse processo de reorganização política da direita no Brasil, mediante essa rede de organizações liberais, é um importante determinante do surgimento e consolidação do antipetismo e do antiesquerdismo, sustentando o ultraliberalismo econômico e as pautas conservadoras que contribuíram para a eleição de Bolsonaro em 2018. Essas forças políticas não homogêneas foram amalgamadas politicamente, no âmbito do movimento pró-impeachment, embaladas pela crítica ao “marxismo cultural”, construção ideológica abrasileirada que reputa à esquerda todos os óbices vividos pelo país (ROCHA, 2018).

Esse alinhamento da Nova Direita se deu, a partir de 2014, mediante  uma “estratégia política incisiva”, pautada num discurso “deliberadamente reacionário e violento”, numa “produção em massa de conteúdos compartilhados e replicados nos mais diferentes aparelhos, desdobrando-se na mídia de forma geral, em blogs e, mais recentemente, em redes sociais e aplicativos móveis” numa forma “sofisticada, extremamente complexa, difusa e eficiente de produção de consenso” tendo o Fórum da Liberdade como um importante canal (CASIMIRO, 2020).

Muitos dos extremados profetas da liberdade que se levantaram nesse momento são ligados ao Instituto Mises Brasil, adeptos de primeira hora à crítica do “marxismo cultural”, como é o caso de seu fundador, Hélio Coutinho Beltrão, que foi, junto com Olavo de Carvalho, um dos precursores dessa ideologia no Brasil. Não obstante, é Olavo de Carvalho quem organiza uma releitura negacionista da história brasileira, por meio do revisionismo do período entre a redemocratização e o final dos governos petistas, que, sob essa perspectiva ideológica, foi reinterpretado como sendo um período de vigência de uma “guerra cultural esquerdista”.

Em termos mais gerais, a crítica ao “marxismo cultural” combina leituras distorcidas do marxismo, de Gramsci e da Escola de Frankfurt, em doses que dependem de seus detratores, as quais resvalam para verdadeiras teorias da conspiração. Algumas dessas vertentes reputam à esquerda uma atualização da ideia da luta de classes e da revolução socialista, agora transposta para o campo da cultura e assentada na luta entre grupos identitários e imigrantes versus homens e mulheres cristãos, brancos e heterossexuais.  Para os críticos do “marxismo cultural”,  a justiça social e o social constitui uma mera cultura da “esquerda gramsciana”, que visa depor a liberdade e a moralidade, mediante um estatismo crescente, e que caminha lentamente para o socialismo.

Após 2014, a rede como um todo incorporou suas ideias em diferentes medidas, chancelando a sua disseminação junto ao grande público, bem como abrindo espaço para o estilo político agressivo de Olavo de Carvalho e dos extremistas do IMB.

As ideias do IMB exercem clara influência sobre Bolsonaro e seus filhos, e essa organização parece ser a origem de muitas das suas posições políticas em vários campos: saúde, educação, economia, relações exteriores, etc. O objetivo aqui é destacar o que pensam essas instituições sobre Educação.

A educação para o Instituto Mises Brasil e o Instituto Rothbard

Esses dois think tanks têm como objetivo influenciar a opinião pública e apresentar estratégias de convencimento capazes de orientar o senso comum. Sua linha filosófica se apoia na Escola Austríaca, particularmente em Ludwig von Mises e Murray Rothbard e manifestam adesão à ideologia de “guerra cultural”. Na educação, as abordagens teóricas de maior peso são os autores libertarianos estadunidenses, particularmente o anarcocapitalista Rothbard.

O Instituto Mises Brasil notabilizou-se como o maior divulgador da Escola Austríaca no país, vendendo ou disponibilizando em seu site livros dessa escola, além de vídeos e podcasts, e artigos de adeptos do libertarianismo e traduções de artigos, especialmente do Ludwig von Mises Institute (EUA). Veicula seus materiais por meio de todo tipo de mídias sociais, tendo no seu site e no Facebook os seus veículos mais importantes. Esse material é também reproduzido por toda a rede de organizações liberais, particularmente nas redes sociais do EPL/SFL Brasil e do MBL. Também organiza eventos, seminários anuais desde 2010 e, a partir de 2015, conferências, com o apoio da Universidade Mackenzie, eventos também divulgados por toda a rede. O IMB organiza um curso de pós-graduação sobre a Escola Austríaca, em parceria com a Universidade Mackenzie, que tem atraído membros do legislativo federal e estadual com inclinação libertária.

O Instituto Rothbard, dissidência ainda mais radical do Instituto von Mises, é menos articulado com o governo e com o status quo, e exibe extremismo acentuado. Sua perspectiva se assenta especialmente no autor que lhe dá o nome, que é contra o ensino obrigatório e identifica um viés doutrinador no Estado, sendo defensor explícito do Ensino Domiciliar e crítico ácido da escola pública.

Em meio a uma variedade de artigos que o Instituto von Mises publica em seu site, encontram-se vinte e seis sobre educação (posição relativa ao levantamento realizado em 30/11/2020). No caso do Instituto Rothbard, como foi criado apenas em 2016, parcela dos artigos que mantem no site coincide com os encontrados no Instituto von Mises. Em geral a visão dos autores dos artigos é similar, e eles se distinguem muito mais pelo seu perfil: empreendedores, gestores de think tanks liberais ou jovens autodidatas da Escola Austríaca. No caso do Instituto von Mises, respondem pelos artigos vinte e um autores, dos quais seis são estadunidenses – destacando-se o CEO do Instituto von Mises Alabama com três artigos (Lew Rockwell); quatorze são brasileiros – sendo cinco deles autodidatas. Desses vinte um autores, seis são ligados a think tanks liberais nacionais ou estrangeiros. Dentre os vinte e três artigos do Instituto Rothbard há ainda uma maior prevalência de autodidatas (sete), diletantes que estudaram a Escola Austríaca, além de autores com projeção na mídia (quatro), indicando a preferência dessa organização por autores jovens, que estudaram fora do circuito formal de produção do conhecimento, ou alcançaram notoriedade nas mídias sociais.

Em ambos institutos, um número relevante de artigos critica o ensino obrigatório, identificando a educação pública e a regulamentação estatal da educação como mecanismos por excelência da opressão do Estado à liberdade individual. Um aspecto distintivo é a crítica que fazem aos testes padronizados de desempenho na educação, aplicados pelo Estado e disseminados no mundo desde os anos 1990s, considerados por eles como problemáticos, desnecessários e reforçadores da regulação estatal.

Também esses institutos questionam o papel da educação na promoção do desenvolvimento econômico e  fazem críticas generalizadas às escolas públicas, algumas numa linha ideológica, como a de Fernando Chiocca, que chega a classificar as escolas públicas como “fetiche socialista”. No limite, defendem a extinção das escolas públicas, como faz Lew Rockwell, além de se encontrar críticas à forma escola tradicional e ao financiamento público à educação. Alguns artigos destacam a ineficiência da educação pública, que utilizaria métodos ultrapassados e burocráticos, operando com maior custo e pior qualidade do que o mercado e desenvolvendo uma relação paternalista com o estudante. Um ponto que pode ser considerado atraente para a juventude, em muitos dos textos, é a crítica à forma tradicional da escola, implicitamente identificada com a escola pública. Daí a escola pública é transformada num agente uniformizador das pessoas, que não deixa espaço para a liberdade e para a criatividade, que mata a paixão e o entusiasmo em aprender, que prepara para o emprego, mas não para empreender. Explicitamente, estimula o jovem a não perder tempo com a escola pública pelo seu caráter tradicional. Nessa linha de análise, aparecem os artigos de Kerry McDonald, economista e mestre em Política Educacional por Harvard, que se vincula ao think tank liberal Cato Institute, um primeiro intitulado “Como a escola acaba com a criatividade e com o raciocínio próprio”(14/06/2017) o segundo, “O sistema escolar moderno prolonga a adolescência e atrasa as responsabilidades da vida adulta”(19/06/2017); e o artigo de Daniel Sanchez, editor do conhecido think tank liberal Foudation for Economic Educationintitulado “O entusiasmo e a obsessão são suas mais decisivas habilidades” (12/10/2020), que indica ser o extremismo característica não apenas de think tanks liberais libertários, mas também dos mais tradicionais.

Um texto em particular, de Harry Browne, que foi quadro importante do partido Libertário nos EUA, é denominado “A educação estatal – e como ela seria em um livre mercado”(18/10/2015). Nele, o autor afirma que o fato dos professores das escolas públicas serem funcionários públicos sindicalizados indica seu comprometimento com a intervenção estatal e a defesa do poder do Estado, o que transforma essas escolas em agências políticas. Além dessas afirmações, utiliza-se de argumentos econômicos ao apresentar as escolas públicas como organizações monopolistas, inibidoras da concorrência e sustentadas pela coerção do governo sobre a sociedade por meio de impostos.

Alguns textos questionam o financiamento da educação mediante impostos, tendo em vista discordarem da própria existência de impostos e mesmo do Estado. Criticam inclusive as políticas friedmanianas de vales, bancadas com impostos, consideradas socialistas apesar de privilegiarem empresas privadas, caso do texto intitulado “Vouchers escolares: o caminho mais ‘eficiente’ para a socialização da educação”(25/09/2014), escrito por Lew Rockwell.

O aspecto de fundo mais importante que essas diferentes maneiras de estimular a ojeriza ao Estado na Educação apresentam é a identificação da escola pública como algo com baixo ou nenhum benefício para o indivíduo e a sua inescapável incompatibilidade com a ética da liberdade. A contraposição de escola pública e liberdade transmite a ideia de que a educação pública equivale a uma forma de escola ultrapassada e inadequada para desenvolver a criatividade e o potencial das pessoas. Na sua frente mais ideológica, a atuação do Estado na educação é identificada como uma estratégia rumo ao socialismo, e a educação obrigatória e os Sistemas Nacionais de Educação como ferramentas socialistas e totalitárias.

Na dimensão política e social da educação, há identificação da educação pública com doutrinação e a negação de seu papel político de mitigação da desigualdade. No site do Instituto Rothbard é reproduzido um artigo em particular, de um jornalista estadunidense da década de 1920 e 1930, H. L. Mencken, que se notabilizou como defensor radical do liberalismo no plano político, moral, religioso e cultural, intitulado “Sobre educação pública”(07/02/2018). Nele, o autor ataca frontalmente o papel do sistema educacional como promotor da igualdade de oportunidades bem como a relevância dos conteúdos ensinados destacando que a “igualdade é impossível num mundo de diversidade”.

Muitos textos destacam a noção de que escolas estatais fazem doutrinação de valores, políticos e morais e que alimentam e reproduzem o Estado opressor, que se utiliza da imposição de conteúdos para ampliar o seu poder sobre as pessoas e restringir a liberdade de escolha do indivíduo. Nessa frente temos os artigos tais como “E se as escolas públicas fossem abolidas?”(02/07/2008), e “Não se deixe educar pelo estado”(15/01/2016), ambos de autoria de Lew Rockwell.  A visão de educação assentada apenas no indivíduo faz crer que qualquer menção a valores deva partir dele, de sua inerente criatividade e capacidade de raciocínio. Aprender é visto como um ato solitário, fruto da decisão do indivíduo ou de sua família, e tudo que vem de fora, que não provenha da ordem espontânea que gera regras coletivas ou organiza o mercado, forjada por meio da concorrência, é intervenção estatal indevida.

Outros criticam a capacidade socializadora da escola pública, ao destacar que, além de um ser um espaço de doutrinação, ela seria também um espaço de bulling, negando seu papel de socialização secundária da criança e do adolescente e sua contribuição para promover a cidadania e a autonomia.

Inexistindo na escola o político como espaço de construção coletiva de práticas e valores e reduzindo o social a um estratagema esquerdista para justificar a intervenção estatal, negam a escola como experiência de aprendizado coletivo, capaz de promover a emancipação humana para além do enquadramento ao sistema econômico e às tradições familiares. Esvaziada de valores a educação pública perde a sua dimensão política, destituída de seu caráter de bem público de acesso universal, perde o seu papel social de mediadora entre o Estado e as famílias e de mitigadora de desigualdades, transformando-a num serviço qualquer, numa simples mercadoria que cabe ao mercado atender, com o mínimo de intervenção estatal.

Na explicitação da extensão ao limite do poder das famílias sobre a educação, fazem a defesa de elas próprias escolherem a concepção de educação que acham mais adequada, definindo seu formato (se ministrado em casa ou na escola), seu conteúdo (determinando qual conteúdo desejam, em conformidade com os valores da própria família) e a desobrigação de pagar impostos para financiar a educação pública. É recorrente a defesa da família como o espaço exclusivo de formação de valores, tornando a educação uma atividade parental ou, quando a família não tem tempo ou recursos para prover um ensino domiciliar, a educação como um serviço, uma mercadoria como outra qualquer e que tem nos pais os seus consumidores. O papel do Estado, quando aceito, é apenas garantir a liberdade da família e do indivíduo. Em outras palavras, a concepção de educação que defendem delega à família as escolhas sobre educação dos filhos, que, numa perspectiva rothbardiana, são praticamente sua propriedade (ROTHBARD, 1998). Caberia à família, só a ela, estabelecer os valores para os filhos e, à escola, no máximo, ministrar um ensino técnico, isento de valores ou com base em valores escolhidos pelos pais.

Alguns textos questionam a ação da escola em qualquer frente identitária ou política, completando a visão libertariana, assentada em Mises e Rothbard, com a ideologia negacionista de guerra contra o “marxismo cultural”. Particularmente se destaca o texto do economista e Diretor Acadêmico do Instituto von Mises, Ubiratan Jorge Iório, que também é Professor Associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O texto é denominado “Gramsci, Paulo Freire e a batalha da linguagem: nosso declínio começou com a deturpação das palavras” (24/10/2016). Nele, o autor destaca que as ideias liberais são as melhores, o que falta é apenas saber se comunicar adequadamente com a sociedade. Ele se alinha explicitamente aos críticos do “marxismo cultural”, trata as ideias do politicamente correto como um meio de enquadrar “quem pensa por conta própria”, mero componente da estratégia “gramsciana” de implantar o socialismo. Vocifera críticas a Paulo Freire, Gramsci, Piaget, para ele “puro esquerdismo que visa à revolução proletária” antecedida de uma mudança de mentalidade e “cujos agentes são os intelectuais e a ferramenta essencial é a escola”.

Já o texto “A favor de cotas racistas” (20/11/2019), de autoria de Fernando Chiocca (um dos fundadores do Instituto Rothbard), defende que as cotas raciais seriam totalmente equivocadas, elas próprias racistas, construindo a sua argumentação com base em uma definição questionável de racismo, implicitamente assentada no combate ao “marxismo cultural”, dela desdobrando críticas aos principais pontos de defesa das quotas raciais.

Em síntese, na educação, a concepção que essas duas últimas organizações defendem confirma aspectos da racionalidade neoliberal ao assentar-se no horror ao Estado, ao político e ao social, negando também a educação pública e legitimando a privatização extrema. Na batalha das ideias que empreendem, alcançam traduzir, numa linguagem atraente e ajustada ao sujeito comum, a ojeriza à escola pública, à regulação estatal da educação, ao financiamento público da educação, naturalizando no senso comum, nas instituições e subjetividades, o mercado e a família como substitutos do político e do social. Legitima, assim, a saída do Estado da Educação, chancelando uma privatização extrema, elegida “livremente” pelos próprios sujeitos, regidos pela governamentalidade neoliberal, contribuindo para destruir, no imaginário social, a concepção da educação pública de cunho universalista e garantida por norma jurídica como um direito social.

Referências

CASIMIRO, F. H. C. . Fórum da Liberdade: o grande palco das direitas e do movimento reacionário no Brasil. In: SANTOS, Mayara Aparecida Machado Balestro dos; MIRANDA, João Elter Borges (Orgs.). Nova Direita, Bolsonarismo e Fascismo: reflexões sobre o Brasil. Ponta Grossa: Texto e Contexto, 2020.

ROCHA, C.. “Menos Marx, mais Mises”: uma gênese da nova direita brasileira (2006-2018). 232 p. Tese (doutorado em Ciência Política). Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade Estadual de São Paulo, São Paulo, 2018.

ROTHBARD, M.. Educação: livre e obrigatória. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2013.

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil, em 18/10/2022. Por Neide César Vargas e Rosa Maria Marques

* Articulando esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do coletivo de educadores.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Especialistas apontam desigualdade na infraestrutura das escolas

Milhares de alunos estudam em escolas precárias

A pandemia de covid-19 escancarou problemas antigos da educação brasileira. Só na educação infantil mais de 119 mil crianças estariam matriculadas em escolas sem condições mínimas de funcionamento. A infraestrutura das escolas públicas foi alvo de debate na segunda-feira (17/10) na Subcomissão Temporária para Acompanhamento da Educação na Pandemia. Debatedores defenderam a fiscalização da aplicação dos recursos do Fundeb para garantir que todas as escolas tenham condições mínimas de funcionamento.

— A pandemia veio trazer à tona problemas estruturais das escolas que já são antigos, ela veio colocar luz sobre determinadas coisas que eram inaceitáveis, mas que ficavam muitas vezes escondidas, como escolas sem água, sem o mínimo de infraestrutura adequada. E aí a gente tem que entender quando a gente fala assim: o que é uma estrutura adequada para garantia do direito à educação? — disse Gabriela Schneider, professora do Departamento de Planejamento e Administração Escolar da Universidade Federal do Paraná.

Ela apresentou um levantamento, com base no Censo Escolar, segundo o qual milhares de estudantes que estudam no ensino público frequentam escolas com estruturas inadequadas. Durante a reunião, Gabriela Schneider detalhou uma lista de elementos essenciais para escolas, como abastecimento de água e energia, banheiro, acesso à internet, material pedagógico, biblioteca, cozinha, entre outros. Na educação infantil, mais de 119 mil crianças estariam matriculadas em escolas que não apresentam parte dos elementos dessa lista, ou seja, espaços sem condições mínimas de funcionamento. O número engloba escolas urbanas, rurais e escolas em localização diferenciada (terras indígenas, quilombolas e áreas de assentamento).

— Se eu entender que a garantia do direito à educação é aquilo que está na Constituição, que garante o pleno desenvolvimento da pessoa humana, então esse espaço tem que ser um espaço que propicie aprendizagem, que estimule autonomia, que desenvolva esse estudante.  A ideia não é uma padronização da escola, que é uma coisa importante, mas muitas vezes a falta de um estabelecimento mínimo tem gerado precariedade nas escolas, e não pelo projeto político-pedagógico, não por conta das necessidades, mas sim pela falta de investimento — declarou a professora.

Com base no relatório da professora Gabriela Schneider, o Senado e os conselhos municipais de educação podem avançar na fiscalização dos recursos e das condições das escolas. Foi o que afirmaram o presidente da subcomissão, senador Flávio Arns (Podemos-PR), e o presidente da União dos Conselhos Municipais de Educação (UNCME), Manoel Lima.

— Vou instruir todos os nossos coordenadores das seccionais da UNCME em cada estado para que possam acessar esse seu relatório, que certamente será de grande importância e validade também para as ações que poderemos tomar a partir deste momento, subsidiando, inclusive, eu diria assim, a fiscalização e até as instruções que poderemos contribuir de uma forma direta em cada município citado no relatório — disse o presidente da UNCME.

Flávio Arns acrescentou que, com o documento em mãos, senadores, deputados e gestores da área de educação terão mais subsídios para enfrentar o problema da desigualdade entre as escolas. 

— O que o professor Manuel e professora Gabriela sugeriram é muito importante, compartilhar também todo o material da infraestrutura com os municípios, com os conselhos municipais de educação, com a Undime. Faremos isso também com o Consed [Conselho Nacional de Secretários de Educação], também com os conselhos estaduais de educação, para que eles tomem conhecimento desse levantamento tão adequado, tão bom que foi feito para essa área — apontou o senador.

Fonte: Agência Senado em 17/10/2022. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Projetos levam educação financeira a alunos da rede pública de ensino

Instituto Ânima, Instituto BEI e Instituto Brasil Solidário são algumas das organizações que atuam neste sentido

Saber lidar com o dinheiro, administrar contas, evitar o endividamento, se planejar. A educação financeira proporciona esse tipo de conhecimento e é fundamental para ter uma melhor qualidade de vida, principalmente para pessoas em vulnerabilidade socioeconômica. A boa notícia é que existem instituições que se dedicam a levar esse conteúdo aos alunos e alunas da rede pública de ensino, desde os primeiros anos da escola.

A B3 Social, associação sem fins lucrativos responsável pelas frentes de investimento social privado e voluntariado da B3, a bolsa do Brasil, tem como estratégia investir na melhoria estrutural da educação pública para contribuir com a redução de desigualdades sociais. Por isso, também apoia, entre outras iniciativas, projetos dedicados à educação financeira em escolas públicas, como os implementados pelo Instituto Ânima, o Instituto BEI e o Instituto Brasil Solidário.

Essas organizações atuam alinhadas aos direcionamentos da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), que desde 2018 incluiu Educação Financeira como um tema transversal dos currículos escolares de todas as escolas do Brasil.

“Há evidências de que as famílias de alunos que participaram de projetos de educação financeira na escola apresentam melhoria na situação socioeconômica. Para nós, é um caminho de extrema relevância em direção à redução de desigualdades sociais. Saber planejar, poupar e gerenciar melhor os recursos, ainda que sejam poucos, é primordial para a garantia de segurança financeira e uma vida mais digna”, explica Elizabeth Mac Nicol, superintendente da B3 Social.

Responsável pela criação do 1º Laboratório de Inovação em Políticas Públicas (LIPPE) do país, o Instituto Ânima desenvolve e implementa, junto a secretarias de educação de diversos estados e municípios, programas de competências financeiras, digitais e de construção de projeto de vida.

Paralelamente, o LIPPE também pesquisa, produz e dissemina conhecimento sobre o tema educação financeira em acordo com à BNCC. Segundo o gerente de políticas educacionais do Instituto Ânima, Inácio de Araújo Machado, “o programa de educação financeira tem como objetivo tratar as competências necessárias para a tomada de decisão responsável e consciente dos jovens em relação ao seu bem-estar financeiro atual e futuro. Para isso, implementa um programa de formação para que os professores desenvolvam competências relacionadas aos conhecimentos pedagógicos, financeiro, atitudinais e comportamentais”.

Também na linha de apoiar redes públicas de ensino, o Instituto BEI, por meio do projeto Aprendendo a Lidar com Dinheiro, oferece formação para professores, gestores e coordenadores escolares de Goiás e Pernambuco e estimula a aplicação de metodologias ativas em sala de aula considerando problemas e situações reais de cada contexto socioeconômico.

Em 2022, a instituição lançou o Prêmio BEI de Educação Financeira para Escolas Públicas, que objetiva identificar, valorizar e divulgar educadores de todo o Brasil que desenvolvem e estimulam a temática da educação financeira em suas turmas.

“Após quatro anos de implementação do programa, impactando mais de 84 mil jovens e mil educadores, aprendemos que é indispensável que os esforços das redes de ensino estejam voltados para a formação de professores. Aprendemos também que os professores nem sempre estão confortáveis com o tema, pois nenhum de nós teve educação financeira na escola. Por isso, organizamos o prêmio com o objetivo de estimular e inspirar que cada vez mais professores estejam atentos à importância do tema e à necessidade de desenvolver projetos práticos e conectados com a vida cotidiana dos jovens”, comentou Sandra Battistella, diretora-executiva do Instituto BEI.

De forma mais lúdica, o Instituto Brasil Solidário usa jogos para fomentar a educação financeira em escolas públicas e comunidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A estratégia se orienta pelas evidências acadêmicas de que o uso de jogos na área de educação financeira tem impacto positivo no aprendizado dos alunos.

O projeto com os jogos Piquenique e Bons Negócios, um de tabuleiro e outro de cartas, visa exercitar as habilidades de poupar, empreender e investir. As dinâmicas são desenhadas de forma transversal e podem ser aplicadas interdisciplinarmente em alinhamento com a BNCC. A iniciativa, além de fazer a doação dos jogos para as escolas parceiras, oferece capacitação aos educadores dos 209 municípios apoiados em 25 estados brasileiros.

“O projeto teve seu primeiro passo em três municípios do Ceará e hoje já alcançou 1 milhão de alunos. Trouxemos para o material dos jogos temas como alimentação saudável, conta de luz, mobilidade urbana e reciclagem, que fazem parte do cotidiano desses alunos. Os educadores se tornam mediadores e podem trabalhar as propostas pedagógicas com crianças a partir de 6 anos de idade. Esse aprendizado não tem idade, e percebemos um impacto em toda a comunidade escolar, com professores de 50 anos mudando o comportamento após a formação”, ressalta Luis Salvatore, Diretor Presidente do Instituto Brasil Solidário. 

Fonte: ASSESSORIA DE IMPRENSA B3 imprensa@b3.com.br

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Pix para crianças e está mudando a relação da infância com o consumo desenfreado

O percentual de famílias com dívidas atingiu 79% no país em agosto, 6,1% a mais do que no mesmo mês do ano passado e 1% a mais do que em julho, conforme a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada neste mês, pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Isso se deve, em maioria, à pandemia e à crise econômica. “Isso reflete na relação de consumo das pessoas desde a base, que é a infância. Por isso, educação financeira precisa existir em casa e na escola”, afirma Mariana Rocha, Head de Marketing da Mozper fintech que conta com uma plataforma de administração de gastos para crianças e cartão de crédito controlado pelos pais.

A situação atual traz o alerta para a importância da educação financeira. Segundo a pesquisa Evolução da Educação Financeira Entre Gerações, realizada, em janeiro de 2022 pela Mozper, aproximadamente 60% dos pais acreditam que o assunto deve ser ensinado também na escola. “O número de famílias endividadas deve cair ao longo do tempo se atuarmos com isso desde o indivíduo mais jovem, pelo menos daqueles que conseguirem ter melhor relação com o ganho e consumo, uma vez que estaremos formando novas pessoas com consciência do uso do dinheiro”, explica Mariana.

A educação financeira ainda é pouco explorada nas escolas, principalmente, no ensino público. O resultado pode ser visto na avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2018: o Brasil ficou em 17º lugar entre 20 países na análise de competências financeiras. De acordo com Mariana, responsável pela expansão de notoriedade da startup Mozper, quanto mais os jovens estiverem conscientes do uso do dinheiro, menores serão as taxas de endividamento. “Sabemos que isso é um problema histórico, e que não envolve apenas controle financeiro, mas ao menos nessa seara já estamos atuando”.

Para mudar esse cenário, o ensino foi incluído como um dos temas contemporâneos transversais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), devendo ser abordado em diversas aulas e projetos. Além disso, o Ministério da Educação (MEC) trabalha em uma iniciativa com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para disseminar a educação financeira nas escolas brasileiras por meio da capacitação de professores.

Ainda, empresas como a Mozper, estão se aproximando cada vez mais da realidade financeira do país. Seu último lançamento foi a função do Pix para crianças em sua plataforma. Para a fintech, é preciso moldar seu produto conforme essas novidades surgem. "Queremos que a nossa ferramenta de controle de gastos seja cada vez mais disseminada entre os jovens e seus pais, só assim teremos uma futura geração adulta consciente e preocupada com a educação financeira. Isso ajuda a levar a mensagem para dentro das escolas, não só para dentro de casa. A escola também é lugar de falar de finanças”, finaliza Mariana.

Sobre a Mozper

A fintech é uma plataforma financeira pensada para famílias que funciona por um aplicativo e cartão. Os responsáveis adicionam dinheiro no cartão das crianças e adolescentes pelo aplicativo, que recebem imediatamente e podem usá-lo conforme as regras e gerenciamento da família. Dessa forma, Mozper ajuda os responsáveis a ensinar crianças e adolescentes a administrar suas finanças de maneira didática e intuitiva.

Fonte: Assessoria da Mozper em 13/10/2022



segunda-feira, 10 de outubro de 2022

As matrículas e mensalidades escolares podem sofrer aumentos além da média

Especialista em Direito do Consumidor adverte, no entanto, que escolas são obrigadas a provar por que estão reajustando seus valores

Chegou o mês de outubro de 2022 e, com ele, o temido período de renovação de matrículas e reajuste de mensalidades nas escolas. “Outubro realmente gera apreensão naqueles que são pais ou responsáveis por crianças em idade escolar”, reitera a advogada e especialista em Direito do Consumidor Renata Abalém, que pede muita atenção em relação ao tema: é preciso ficar de olho no percentual que vai ser aplicado sobre as taxas escolares.

“Veja que a especulação da área prevê um reajuste de 12% nas mensalidades escolares para o ano de 2023. É muito, mas o aumento além da média do mercado pode acontecer, porque o reajuste não é tabelado. Mas atenção: as escolas têm de provar -- por meio de uma planilha atuarial -- a razão desse percentual de aumento e o que estão oferecendo a mais aos alunos consumidores, como atividades suplementares e um espaço físico maior e diferenciado, por exemplo.”

E estes aumentos podem ser negociados? “Não é segredo que as escolas sofreram bastante com a pandemia, da migração e debandada de alunos até a necessidade de adequação ao mundo digital e virtual -- mas elas aprenderam que a negociação com os clientes foi o melhor caminho para continuar no mercado, de forma que ainda vamos ver o aumento ser bem discutido entre as partes.”Ainda assim, a quem se deve procurar em caso de aumentos considerados abusivos? “As fiscalizações e até a sugestão para realinhamento dos reajustes é de responsabilidade dos Procons, que podem ou não entendê-los como abusivos”, adverte a especialista.

Renata Abalém observa que, mesmo que “pareça algo difícil de acreditar, estamos presenciando a maior deflação na história do país, aliada a uma queda da prévia da inflação, o que anima bastante o mercado”. “É realmente difícil de acreditar nisso, porque não é o que o consumidor está sentindo no caixa do supermercado e muito menos nas suas obrigações mensais'', conclui Renata Abalém

Renata Abalém é advogada, Diretora Juridica do Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte - IDC, Diretora da Câmara de Comércio Brasil Líbano, membro da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/SP.

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