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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Rio: Escola da Maré está entre as melhores e recebe prêmio internacional


O reconhecimento internacional é só uma parte dessa história

Por trás dele, existem alunos que sonham, profissionais que acreditam, famílias que caminham juntas e uma comunidade que faz da educação um espaço de transformação todos os dias.

Conheça um pouco mais do GET IV Centenário, escola finalista do Prêmio Melhores Escolas do Mundo 2026 na categoria “Superação de Adversidades”.

Assista o vídeo AQUI!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Mãe denuncia ameaça a filho de 3 anos em escola militar no RS


'Chora com vontade, senão vou te dar um tiro'

A psicóloga Shaiane Costa achou estranho quando o filho de 3 anos começou a acordar de madrugada, aos prantos, perguntando se tinha que ir para a escola no dia seguinte.

Causou desconfiança na mãe o fato de a criança chorar rotineiramente no caminho para a Escola de Educação Tio Chico, em Porto Alegre. Mantida pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul, a instituição atende gratuitamente filhos dos brigadistas com idades entre 2 e 6 anos.

Ela conta que Pedro, cujo nome foi alterado para preservar a criança, chegava em casa dizendo que havia ficado de castigo. Desculpava-se, com insistência, diante de qualquer situação. "Se ele derrubasse uma água, ele me pedia desculpas várias vezes", diz. E começou a chorar muito ao se aproximar da escola.

Foi depois de mais um dia em que Pedro entrou pelo corredor da escola aos berros, pulando, "sendo levado", sem que ela pudesse acompanhá-lo, que a situação chegou ao limite para Shaiane.

No dia seguinte, ela colocou um gravador dentro da mochila da criança.

No início, Shaiane disse que não tinha razões para se preocupar com a instituição onde seu filho passava algumas horas do dia.

Para chegar ali, a família esperou que ele completasse dois anos — pré-requisito para a matrícula — e passou por um processo seletivo, do qual ela desconhece os critérios de aceitação.

Mas, como o pai é brigadista, e a proposta apresentada à família era de uma escola de educação infantil, a instituição parecia uma boa escolha, segundo ela afirma.

Passado o período comum de adaptação, Pedro foi se acostumando e começou a fazer amiguinhos.

Esporadicamente, algumas situações na escola incomodavam a mãe, como quando ele chegou com uma mordida no braço sem explicação.

"Perguntei se ele não avisou à professora [sobre a mordida] e ele disse que não, que ela estava ocupada cuidando de outros coleguinhas e por isso ele não quis falar", conta ela.

"Fiquei sem entender. Como ninguém viu aquela mordida?"

Ao perguntar à professora, a mãe ouviu que ninguém viu o ocorrido e que o menino não havia chorado.

"Achamos estranho. Uma mordida daquelas deve ter doído, e é normal que a criança chore."

Na mesma lista de situações que causaram estranheza à família do menino, está o dia em que ele voltou para casa com febre alta sem que ninguém houvesse avisado a mãe ou o pai, segue ela.

Um dia, Pedro chegou com uma assadura tão severa que ficou com dificuldade de caminhar pela casa.

Em nenhum desses episódios a escola demonstrou ter tomado conhecimento do ocorrido, de acordo com a mãe.

"Essas situações pequenas iam acontecendo e parecia que ninguém estava vendo", diz ela.

As tentativas de contato com a escola, segundo a mãe, eram todas frustradas.

"Eu tenho vários registros de mensagens que eu tentava mandar para a professora, e ela sempre minimizando", afirma. "Eu não tinha nenhum acolhimento da parte deles, era sempre 'ah, isso aí acontece, é normal'."

"Mandei mensagens para a sarjenta, que é como se fosse a coordenadora da escola, e não tive retorno", diz. "Eu ficava ali sendo ignorada."

Com o passar dos meses, a mãe diz ter percebido que a primeira coisa que o filho perguntava ao acordar era se ele teria de ir para a escola. Diante da resposta positiva, ela diz, o menino permanecia a manhã toda em casa calado.

"Ele não brincava, não tinha aquela energia, não tinha disposição. Parecia que ele ficava a manhã inteira só esperando aquela hora [de ir para a escola] que ia ser um sofrimento."

Sem diálogo com a escola e diante dos episódios duvidosos, Shaiane teve a ideia do gravador.

No dia em que ela colocou o aparelho na mochila do menino, ele voltou para casa rouco.

"Ele chegou quase sem voz, e eu lembro que naquele dia mandei mensagem para o meu esposo e falei 'olha, ele está resfriando'."

Em seguida, a mãe foi ouvir as gravações.

"Aí foi um choque."

A BBC News Brasil teve acesso a trechos da gravação. É possível ouvir o menino chorando, pedindo a chupeta e chamando pela mãe.

"Meu filho ficou cerca de 40 minutos berrando, e acaba se acalmando sozinho, porque tem um momento da gravação que ele volta e diz 'eu me acalmei'", conta. "Ele foi totalmente escanteado."

Em um trecho, é possível ouvir uma mulher dizendo para o garoto: "O que tu tá fazendo? Tu não vais pintar mais", e o menino responde: "Desculpa".

A mulher então diz "não, tu não vais pintar mais, acabou. Eu adoro pintar e vou". O menino então começa a chorar e pede pela mãe. A mulher responde: "Não me vem com mamãe".

Em outro trecho, o que deixou Shaiane mais assustada, ouve-se a voz de uma mulher dizendo: "Chora, pode chorar, chora bastante, chora com vontade. Senão vou te dar um tiro".

"Na gravação é possível ouvir barulhos o tempo inteiro, e eu escuto ele berrando, pedindo pela mamãe", conta Shaiane.

"Ou seja, naquele dia, ele chegou em casa rouco, não era por causa de um resfriado. Foi de tanto que ele chorou."

Legenda da foto, Shaiane procurou a professora de Pedro para perguntar sobre uma marca de mordida, mas ouviu que ninguém viu o que aconteceu e que a criança não chorou

'O que mais ele passou?'

Os episódios relatados ocorreram no ano passado. Shaiane e o marido recorreram ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), que os orientou primeiro a realizar uma denúncia via Corregedoria da Brigada Militar do Rio Grande do Sul.

A BBC News Brasil procurou o departamento de imprensa da Brigada que afirmou, por meio de nota, que um inquérito foi aberto para apurar os fatos e que a professora de Pedro foi afastada durante o período de investigação.

No entanto, ela retornou à escola antes da conclusão do inquérito. Segundo Shaiane, famílias de outras crianças fizeram um abaixo-assinado pedindo a volta da servidora.

"Tentaram nos calar. Uma mãe inclusive colocou no grupo de WhatsApp um trecho do processo, que corria em sigilo", conta Shaiane.

Segundo a nota da Brigada, o laudo pericial feito pela própria Corregedoria concluiu que "os arquivos analisados não apresentaram elementos técnicos suficientes para confirmar integralmente o conteúdo divulgado, nem permitiram a identificação conclusiva da autoria vocal".

"Com base no conjunto de provas reunido, incluindo depoimentos e laudo pericial, não foram identificados elementos suficientes para comprovar ilícito penal ou transgressão disciplinar", diz a nota.

No entanto, depoimentos de duas servidoras da escola aos quais a BBC News Brasil teve acesso, e que constam no processo, mostram que elas reconheceram a voz e identificaram a professora de Pedro.

Mesmo com a Brigada alegando ausência de provas, a professora deixou a escola no fim do ano. Mas não houve uma explicação para a saída dela do cargo.


"Não cabe à instituição divulgar informações individualizadas sobre servidores ou empregados", afirmou a Brigada.

Perguntada se a professora reconhece o que diz nos áudios, a instituição afirmou que "não está autorizada a divulgar manifestações, declarações ou posicionamentos atribuídos a pessoas específicas envolvidas em procedimentos administrativos ou investigatórios".

Sobre as tentativas frustradas de diálogo de Shaiane com a escola, a Brigada afirmou que "mantém canais permanentes de comunicação com as famílias e trata com seriedade todas as demandas recebidas". No entanto, não confirmou ou comentou "fatos específicos" em razão da proteção de dados e informações.

Por fim, o inquérito aberto pela Corregedoria pediu pelo arquivamento na Justiça Militar do Rio Grande do Sul, mas o processo ainda não está encerrado.

Agora, a mãe espera que o MPRS realize sua própria investigação. Há um inquérito aberto na promotoria, mas a BBC News Brasil não conseguiu mais informações sobre a situação do processo nem com a assessoria de imprensa e nem com a promotora do caso.

Fonte: BBC News Brasil em 24/06/2026.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Municípios gastam R$ 126 milhões em apostilas sem licitação mesmo com livros gratuitos do MEC


Compras públicas em todo o país revelam expansão de conglomerado na educação municipal, com os principais contratos em SC, RS, PR e MG

Diferentes cidades do país estão aderindo ao sistema de apostilamento na educação pública, mesmo com um serviço gratuito de fornecimento de livros didáticos por parte do Ministério da Educação. Dados públicos do Portal Nacional de Contratações Públicas indicam que, de 2024 até este ano, pelo menos 138 municípios contrataram algum produto do Aprende Brasil, do conglomerado Positivo, que, entre outras frentes, fornece um sistema de “soluções educacionais”.

A reportagem utilizou a plataforma do Projeto Sherlock para identificar compras públicas que continham a palavra-chave “Aprende Brasil”. Os contratos são mais comuns nos estados da Região Sul, mas abrangem todo o país.

Somadas, essas soluções custaram cerca de R$ 126 milhões a diferentes cidades brasileiras desde 2024 e começam a se disseminar por estados de todo o país. Santa Catarina foi o estado que mais investiu no serviço, com 34 cidades aderindo a contratos por inexigibilidade de licitação — modalidade usada quando não há possibilidade de concorrência. O dado chama atenção porque o Ministério da Educação oferece gratuitamente o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD).

Só Itajaí investiu mais de R$ 8 milhões na contratação da empresa para aquisição de material didático-pedagógico integrado do Sistema de Ensino Aprende Brasil, contemplando ambiente virtual, avaliação externa de aprendizagem, consultoria e assessoria pedagógica para atender às necessidades das escolas da rede municipal. Procurado, o município não se manifestou sobre as motivações para a escolha da empresa nem sobre o andamento da implantação do sistema na rede.

O professor da rede municipal Thiago Moreti, também conhecido como “Professor Tatuado” nas redes sociais, onde atua como produtor de conteúdo, avalia que o material não é bom, embora muitos professores gostem dele. “Ele tem um falso status. Tem colegas, pais e alunos que acham que é material de escola particular”, comenta.

Ele também critica a imposição da prefeitura para que os professores usem o material, com cursos de capacitação tratados como “convocações”. “É fora da realidade dos nossos alunos. O município sempre trabalhou com o PNLD, com livros bem melhores do que as apostilas.”

A cidade, um dos maiores PIBs de Santa Catarina, é comandada pelo bolsonarista Robison Coelho (PL). Em abril, uma formação orientou professores sobre o sistema de avaliação em Língua Portuguesa e Matemática. A “avaliação Sondar” é vendida como um “diagnóstico preciso” para o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Ministério da Educação. O município teve redução na nota do MEC, passando de 6,6, em 2019, para 6,3, em 2023.

O desempenho nessas avaliações é uma das métricas para a destinação de recursos públicos para a área e tem se tornado uma obsessão para gestores municipais. O Saeb 2023 indicou que Santa Catarina ficou abaixo das metas estipuladas, com os próximos resultados previstos para serem divulgados em junho deste ano.

A pesquisadora Juliana Lummertz, que estudou o tema em sua tese de doutorado, avalia que discursos de eficiência, inovação e melhoria da qualidade educacional são usados para legitimar o avanço de práticas empresariais nas redes públicas.

“Sob a promessa de modernização da escola pública, aumento do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e superação das dificuldades educacionais, introduzem-se mecanismos de controle, padronização e monitoramento inspirados na lógica corporativa, deslocando progressivamente o sentido público e democrático da educação”, analisa.

Além de Itajaí, considerada uma cidade de grande porte no estado, municípios menores também estão aderindo ao sistema privado, como Jacinto Machado, Sombrio e Santa Rosa do Sul, todas no Sul de Santa Catarina. Juntas, segundo o levantamento da coluna, representam um investimento de mais de R$ 1,7 milhão.

Uma professora que preferiu não se identificar afirmou que os contratos ocorrem sem consulta às equipes educacionais que vão utilizar o sistema. Para ela, além de ser um processo conduzido de cima para baixo, o negócio com o setor privado gera custos desnecessários. “Os livros do MEC são de excelente qualidade. Temos maior autonomia sobre quais conteúdos e habilidades podemos trabalhar. Existem muitas coleções e o município pode optar por aquela que considerar melhor”, disse.

Ela avalia que as apostilas também têm qualidade, mas engessam o professor, que perde autonomia sobre os conteúdos trabalhados. Além disso, os contratos envolvem acesso a dispositivos tecnológicos que as escolas não têm capacidade técnica de suportar. “O sistema oferece plataforma com videoaulas, jogos e atividades complementares, mas ela só pode ser utilizada com internet, sem possibilidade de download. Não conseguimos usá-la em salas de aula que não dispõem de internet.”

O sistema também exige uma série de equipamentos tecnológicos, como projetor, computador e televisão, o que acaba prejudicando seu aproveitamento efetivo em unidades escolares sem infraestrutura adequada. “Prefeituras pequenas, com orçamento limitado, gastam milhões com esse sistema.”

Privatização do ensino

A professora e pesquisadora Juliana Lummertz conheceu de perto o funcionamento do sistema de apostilamento no município de Gravataí, no Rio Grande do Sul, durante a produção de sua tese de doutorado. O estado também se destaca entre aqueles com maior número de municípios com contratos com o Grupo Positivo: são 31 cidades.

Apesar de Gravataí não figurar nessa lista recente, ela estudou como esse processo ocorreu entre 2013 e 2021, período em que também integrava o Conselho Municipal de Educação. A adoção de um sistema privado foi analisada, a partir das evidências coletadas, como um mecanismo de controle de conteúdo e monitoramento de dados. O impacto no trabalho dos professores também se manifestou em protocolos rígidos, padronizados e engessados.

“Quando a rede municipal passa a adotar um sistema privado estruturado, parte significativa das decisões pedagógicas deixa de ser construída coletivamente no interior da escola e passa a ser definida por empresas educacionais externas”, afirma a pesquisadora e professora da rede municipal de Porto Alegre. “A escola pública perde capacidade de definir seus próprios caminhos pedagógicos porque passa a operar a partir de uma lógica previamente organizada pelo mercado educacional.”

A pesquisadora avalia que esse processo esvazia a função intelectual do professor e a própria gestão democrática nas escolas, já que o docente deixa de participar de decisões importantes. Além disso, o foco na avaliação, igualmente padronizada, “deixa de ser compreendida prioritariamente como processo pedagógico construído pela escola e passa a funcionar como mecanismo de controle e mensuração de desempenho”.


Negócio lucrativo

Apesar de ter mais contratos no Sul do Brasil, a empresa responsável por esses sistemas também atua em outros estados, oferecendo diferentes tipos de serviço. Os maiores contratos partem de R$ 1 milhão, mas podem chegar a R$ 8 milhões, como no caso de Itajaí.

A cidade de Rondonópolis (MT) também investiu alto, com contrato no valor global de cerca de R$ 7 milhões, igualmente sem licitação. Chapadão do Sul (MS) assinou contratos da ordem de quase R$ 4 milhões, valor semelhante ao investido por Videira (SC), cujo contrato se restringiu a 30 unidades de ensino fundamental e infantil. Os contratos de menor valor são exclusivos para aquisição de livros.

A Gráfica e Editora Posigraf Ltda. comercializa outras soluções para a rede pública além do sistema Aprende Brasil. Entre elas, estão contratos de prestação de serviços não contínuos e especializados de impressão, acabamento, mixagem, separação, embalagem, transporte e distribuição de materiais didáticos.

Algumas contratações ocorrem via pregão, mas os serviços do Aprende Brasil são sempre contratados por inexigibilidade. Em determinados casos, os municípios contratam acervos de livros para o ensino fundamental, ensino religioso ou ainda consultoria pedagógica.

O Grupo Positivo é considerado um gigante nas áreas de educação e tecnologia. Em 2025, divulgou ao site Brazil Economy receita de R$ 1,2 bilhão, com previsão de alcançar R$ 1,3 bilhão em 2026. A empresa tem como braço a Positivo Tecnologia S.A., listada na bolsa de valores, com foco na divisão de tecnologia, e registrou prejuízo líquido de R$ 12,3 milhões no primeiro trimestre de 2026.

A empresa informou que os processos de contratação são idôneos e seguem o Pacto Brasil pela Integridade Empresarial, da Controladoria-Geral da União. “As contratações sem concorrência ocorrem de forma legal, justificadas pelas características próprias e exclusivas de nossas soluções pedagógicas, que envolvem metodologia, plataformas e consultoria”, informou a assessoria de imprensa.

Além disso, destacou que oferece “uma estratégia educacional integrada”, com livros que permanecem em definitivo com os estudantes. Segundo a empresa, as prefeituras recebem sistemas de gestão e avaliação, ambiente virtual de aprendizagem, consultoria personalizada e “sólida formação continuada para os professores”. O grupo afirma que 77% dos municípios parceiros superaram a média nacional nos anos iniciais e 74% nos anos finais do ensino fundamental no Ideb 2023.

Em contrapartida, o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) é vinculado ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e possibilita que as escolas tenham acesso gratuito a obras didáticas, pedagógicas e literárias. O material é distribuído a alunos e professores. Somente em 2026, estão previstos R$ 2,6 bilhões em investimentos, com mais de 213,4 milhões de livros entregues para escolas públicas em todo o país.

Para Juliana, esse tipo de vinculação entre público e privado constitui um espaço estratégico de expansão do mercado educacional. “A escola pública deixa de ser compreendida prioritariamente como espaço de formação humana e construção coletiva do conhecimento e passa a ser inserida em uma racionalidade empresarial orientada pela eficiência, pela padronização e pela obtenção de resultados mensuráveis.”

Além disso, segundo ela, como os grandes grupos buscam lucro, precisam mobilizar uma expansão contínua dos mercados educacionais, e os contratos públicos são estratégicos para isso. “A educação pública municipal torna-se um espaço altamente atrativo porque envolve contratos financiados com recursos estáveis do fundo público.”

Para a pesquisadora, o risco é de que a educação pública passe a funcionar cada vez mais como um mercado de serviços educacionais. “A pressão por retorno aos acionistas não afeta apenas aspectos administrativos ou financeiros das empresas educacionais. Ela altera a própria natureza da educação pública, subordinando processos pedagógicos, curriculares e formativos à lógica da mercadoria, da competitividade e da acumulação privada”, sintetiza.

Fonte: ICL Notícias em 15/05/2026.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Governo anuncia pacote de incentivo aos professores


Medidas buscam aumentar a atratividade da carreira e beneficiar profissionais já formados

O Ministério da Educação anunciou um novo pacote de medidas para os professores. O pacote, que estava em formulação desde o ano passado, busca aumentar a atratividade da carreira para estimular jovens a cursarem as licenciaturas e também para beneficiar profissionais já formados.

O governo chegou a cogitar anunciar as medidas em 15 de outubro, data comemorativa do Dia dos Professores, mas não havia fechado todas as decisões.

Anteriormente, o governo já havia anunciado duas mudanças na formação de professores. A primeira foi a limitação da educação à distância em cursos de licenciatura e pedagogia para até 50% da carga horária. A outra mudança foi no Enade, que mede o conhecimento dos alunos que estão concluindo o Ensino Superior. A prova, agora, avalia os concluintes das licenciaturas e da Pedagogia anualmente e não mais a cada três anos.

Novo pacote para os professores

Uma das principais medidas do pacote é a criação de um programa para levar profissionais da educação para áreas em que falta essa mão de obra. Segundo o ministro da Educação, Camilo Santana, a ideia é semelhante à do “Mais Médicos”. O pacote de medidas, inclusive, se chamará “Mais Professores” por conta desse programa.

Também será criada uma seleção nacional unificada para que as redes municipais e estaduais contratem profissionais em início de carreira. Atualmente, cada estado ou prefeitura faz seu concurso.

Um programa similar ao “Pé-de-Meia” (programa de pagamento de bolsas e uma poupança para estudantes do Ensino Médio) será criado para estudantes universitários que escolham qualquer licenciatura ou Pedagogia e que tirarem acima de 650 na média do Enem. Os aprovados em 2025 já teriam esse direito. O valor seria de R$ 500 por mês. Também será anunciada uma plataforma para reunir cursos de formação continuada.

O MEC pretende, ainda, firmar parcerias com a iniciativa privada para garantir benefícios aos profissionais. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica, por exemplo, vão dar um cartão específico para professores, com vantagens.

Fonte: ICL Notícias em 13/01/2025

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Mais de 100 escolas na cidade do Rio estão em áreas de risco climático


Estudo realizado pelo MapBiomas, em parceria com o Instituto Alana, analisou 20.635 escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental em todas as capitais

Um estudo realizado pelo MapBiomas concluiu que a capital do Rio de Janeiro tem 117 escolas localizadas em áreas de risco climático, sujeitas a enchentes, deslizamentos, alagamentos e outros danos. São 84 unidades da rede municipal de ensino e 33 da rede privada. Este resultado impacta 19.226 alunos, colocando a cidade como a quinta maior entre as capitais brasileiras, ficando atrás apenas de Salvador, São Paulo, Belo Horizonte e Recife, nessa ordem.

Outro número preocupante é que 34% das escolas do Rio, contabilizando públicas e privadas, não possuem área verde em seus lotes. Os números fazem parte de uma pesquisa inédita do Instituto Alana a partir de dados levantados pelo MapBiomas e analisados conjuntamente com a Fiquem Sabendo. Foram pesquisadas 20.635 escolas públicas e particulares, de educação infantil e fundamental, para entender o acesso que as crianças e adolescentes têm a áreas verdes e a resiliência das escolas.

O levantamento indica que cerca de 90% das escolas em áreas de risco estão dentro ou em até um raio de 500 metros de favelas e comunidades urbanas, e que 51% dessas escolas tem maioria de alunos que se declaram negros, percentual que cai para apenas 4,7% nas escolas com maioria de alunos que se declaram brancos, evidenciando a conexão entre desigualdades e fatores climáticos, bem como o racismo ambiental.

A pesquisa mapeou, ainda, que faltam áreas verdes, tanto dentro quanto no entorno das escolas, situação que é particularmente preocupante na educação infantil, com 43,5% das escolas sem áreas verdes. Nas capitais, 20% das escolas também não têm praças e parques no entorno de 500 metros, o que impacta diretamente mais de 1,5 milhão de alunos de 4.144 escolas.

Ao contrário do senso comum, que considera escolas particulares em geral melhores do que públicas, nesse quesito a situação se inverte. Apenas 9% das escolas particulares têm mais de 30% de área verde no lote, enquanto nas públicas o percentual é de 31%, o que revela uma grande oportunidade para os equipamentos públicos na ampliação do contato das crianças com a natureza.

Especialistas envolvidos no levantamento concluíram que a falta de verde nas escolas é agravada por desigualdades raciais e econômicas, sendo maior para estudantes que vivem em favelas e comunidades urbanas, bem como para alunos negros. São eles também os que estudam em escolas localizadas em áreas mais quentes: cerca de 36% das escolas com maioria de alunos negros estão em territórios com temperaturas 3,57ºC acima da média de temperatura da capital, enquanto 16,5% das escolas com maioria de alunos brancos encontram-se na mesma situação.

Ao mesmo tempo, o clima mudou e é preciso identificar as escolas mais vulneráveis às ondas de calor, alagamentos, enchentes e deslizamentos, agindo para prevenir e aumentar sua resiliência, já que as crianças e adolescentes estão justamente entre os mais afetados por eventos climáticos extremos. "A natureza deve ser fonte de saúde e aprendizado, e não uma ameaça. Por isso, o papel das escolas é central para promover acesso a áreas verdes e adaptação às emergências climáticas. É preciso desconcretar a infância e adotar soluções baseadas na natureza — como jardins de chuva, captação e tratamento de água, restauração da vegetação nativa e compostagem — para prevenir enchentes, equilibrar o calor, aumentar a biodiversidade e, ao mesmo tempo, trazer benefícios para a saúde física e mental das crianças", diz JP Amaral, gerente de Natureza do Instituto Alana.

Segundo Maria Isabel Amando de Barros, especialista do Instituto Alana que esteve à frente do trabalho, toda a comunidade escolar deve ser incluída nessa transformação das escolas em locais mais verdes e resilientes. "Escolas são equipamentos numerosos, bem distribuídos pelo território, que funcionam como polos de irradiação de conhecimento e cultura em suas comunidades. Ter a natureza como centralidade e dar às crianças oportunidades para brincar e aprender com ela, contribui com a educação ambiental e climática, fomentando o protagonismo necessário para que crianças e adolescentes possam participar efetivamente da transição verde de nossas sociedades", afirma.

Fonte: Jornal O Dia em 30/12/2024.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Veja as 10 profissões com Ensino Superior mais mal pagas do país


Professores da educação infantil são aqueles que recebem os piores salários do país entre os que têm Ensino Superior

A remuneração é um dos principais fatores analisados por estudantes na hora de definir um curso superior. Ter informações sobre o salário da profissão escolhida pode ser decisivo no mercado de trabalho.

Segundo dados de uma pesquisa da Ibre/FGV, os professores da educação infantil são aqueles que recebem os piores salários do país entre os demais profissionais formados com ensino superior.

A remuneração média desses profissionais é de R$ 2.285, valor que é menor do que dois salários mínimos. O estudo analisou 125 profissões da Pnad Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além de professores da educação infantil, estão no ranking outras funções da área da educação, como profissionais do Ensino Médio, educação especial e Ensino Fundamental.

A pesquisa também aponta que a remuneração em algumas profissões caiu em comparação a 2012. O salário médio dos professores de Arte, por exemplo, foi reduzido em 45%, enquanto os documentaristas tiveram uma queda de 32%.

Profissões com ensino superior mais mal pagas

Com base na pesquisa da Ibre/FGV, o site Meu Valor Digital elencou as 10 profissões com ensino superior mais mal pagas do país. Veja:

Professores do ensino pré-escolar: R$ 2.285

Outros profissionais do ensino: R$ 2.554

Professores de Arte: R$ 2.629

Físicos e astrônomos: R$ 3.000

Assistentes sociais: R$ 3.078

Bibliotecários: R$ 3.135

Educadores para necessidades especiais: R$ 3.379

Profissionais de Relações Públicas: R$ 3.426

Fonoaudiólogos: R$ 3.485

Professores do Ensino Fundamental: R$ 3.554


Fonte: ICL Notícias em 19/11/2024.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Como trabalhar o protagonismo infantil nas escolas


Mais do que oferecer aprendizagem formal, colégio precisa ser espaço de diálogo para que estudantes se tornem ativos na produção de conhecimento 

“Uma escola democrática em que se pratique uma pedagogia da pergunta”, defendia o filósofo e educador Paulo Freire. Assim, o papel da escola é estimular que as crianças produzam conhecimento ativamente. Nesse sentido, cada estudante é protagonista no seu processo de aprendizagem.

Contudo, esse processo não acontece de modo espontâneo nem dispensa intervenções, diz a orientadora pedagógica Miruna Kayano Genoino. Portanto, “é preciso incentivar o protagonismo de crianças e adolescentes por meio de ações intencionais”, explica a mestre em Escrita e Alfabetização pela Universidad de La Plata, na Argentina.

“O professor tem o papel de trazer experiências que estudantes não irão acessar sozinhos, para mediar o conhecimento que quer apresentar e enriquecer os saberes que eles já possuem.” Miruna Kayano Genoino, orientadora pedagógica e mestre em escrita e alfabetização.

Ou seja, não significa ser permissivo em relação a todas as atitudes de crianças e adolescentes. Também não significa que todas as sugestões serão aceitas sem considerações. “O protagonismo não é só do estudante, é da comunidade escolar como um todo. Então, cada um tem que entender em que momento é possível participar”, afirma Maria Lucia Voto, gerente de projetos do Instituto Ayrton Senna. Nessa construção, o diálogo é fundamental.

O patrono da educação brasileira desde 2012, que ajudou a destacar o papel central do diálogo no processo de aprendizagem, também dizia que a troca de saberes entre educadores e estudantes ajuda a estabelecer um conhecimento coletivo e colaborativo nas escolas.

Para Mônica Murad, psicóloga e orientadora educacional da escola Moppe, esse diálogo pode partir da relação entre os conteúdos ensinados e as experiências dos alunos. Isso torna a aprendizagem mais contextualizada e capaz de promover autonomia entre as crianças. Além disso, esse processo acaba “criando um ambiente acolhedor e seguro”. Segundo ela, isso “favorece a expressão das vivências e dos sentimentos das crianças, e envolvendo as famílias e a comunidade local no processo educativo”.

Protagonismo nas escolas

Na prática, as escolas têm estimulado a postura de protagonismo dos estudantes de diversas maneiras. Em São Paulo, no espaço Ekoa, que propõe uma educação integral, os alunos são instigados a problematizar e produzir conhecimento. A escola desenvolveu, por exemplo, as chamadas “oficinas de ideias”, nas quais se escuta crianças de quatro a 11 anos sobre aquilo que estão aprendendo e produzindo, em diferentes áreas de interesse.

“Elas são encorajadas a explorar seus próprios interesses e investigações. Os projetos vão desde a criação de receitas culinárias até programação para criar jogos. Esses momentos têm revelado os anseios e as paixões dos pequenos”, explica Miruna Genoino, responsável pelo acompanhamento das turmas.

Em Sobral, no Ceará, alunos do 6º ao 9º ano da Escola em Tempo Integral Maria Dias Ibiapina são responsáveis por controlar a frequência escolar e desenvolver projetos que atendem às demandas da instituição, como a limpeza das salas. Layres Loiola, orientadora educacional da instituição, destaca que esse movimento reconhece os estudantes como parte fundamental na tomada de decisões relacionadas ao ambiente escolar.

Lá, os adolescentes podem desenvolver habilidades de liderança por meio de disciplinas como Protagonismo Juvenil (PJ) e Projeto de Vida (PV). A abordagem educacional da ETI Maria Dias Ibiapina segue os princípios do Instituto de Responsabilidade pela Educação (ICE). Segundo Loiola, esse modelo pedagógico promove uma visão de juventude criativa, participativa, protagonista e atuante na educação integral.

Acolhimento e personalização da trajetória escolar

Contudo, os índices de desempenho e evasão escolar no Brasil revelam uma escola desconectada da realidade dos estudantes. De acordo com o último Censo Escolar, o ensino médio é a etapa com maior taxa de repetência e evasão, com 3,9% e 5,9%, respectivamente. Ainda, nesse período, a modalidade de educação escolar quilombola registrou a maior taxa (11,9%), seguida da educação indígena (10,7%), a rural (5,2%) e a especial (3,7%).

Maria Lucia Voto explica que uma mudança de estratégia nas escolas pode ajudar a reconquistar os alunos que se afastam por não se sentirem parte do processo de aprendizagem. “A construção de laços entre educadores e estudantes, educadores e famílias, e estudantes e seus pares, ajuda a desenvolver o pertencimento ao ambiente escolar e diminuir índices de abandono e evasão.”

Por fim, ela ainda complementa que a promoção de ações voltadas para o protagonismo juvenil nas escolas faz com que estudantes se sintam acolhidos. Isso irá influenciar a formação de suas identidades e potencialidades, inclusive com reflexos diretos no desenvolvimento cognitivo, abrindo espaço para personalizarem a própria trajetória educacional. “A dedicação do estudante vai mudar, porque ele vai sentir que aquilo está sendo feito para ele, que ele foi escutado.”

Para que essas ações funcionem, “é importante que toda a comunidade escolar entenda o que é o protagonismo, qual é a sua importância e como ele será trabalhado”, diz Voto.

1) Três elementos fundamentais para garantir o protagonismo dos estudantes:

2) Professores e gestores parceiros dos estudantes, agindo como mediadores da participação;

3) Atividades estruturadas, que gerem aprendizagens significativas;

Um currículo que permita a personalização das trajetórias educacionais.

Mas, de modo geral, é possível observar que o desenvolvimento de protagonismo, colaboração e engajamento, por exemplo, caem ao longo dos anos. Um estudo recente da OCDE identificou que os estudantes de 15 anos relataram níveis mais baixos na maioria das habilidades socioemocionais analisadas do que os estudantes de 10 anos. Uma das hipóteses é a existência de mais oportunidades de desenvolvimento dessas competências com estudantes mais novos, que possuem mais vínculos com educadores.

“Até finalizar a educação infantil, é mais difícil encontrar escolas que não escutem de alguma maneira as crianças. As próprias crianças demandam isso”, afirma Miruna Kayano Genoino. Já a partir do ensino fundamental, a orientadora pedagógica acredita que é necessária uma organização cuidadosa do currículo, da rotina, dos princípios, para que as crianças continuem sendo protagonistas na produção de conhecimento. “A partir dessa faixa começam as demandas para atender a metas rápidas de aprendizagem, como as de alfabetização, e esse espaço de escuta vai diminuindo.”

Mudanças para manter o protagonismo nas escolas

A escola Maria Dias Ibiapina também estimula a eleição de líderes de turma e do chamado “vereador mirim”. Essa posição é ocupada por um estudante escolhido pelos seus colegas para representar a turma em questões específicas dentro do contexto escolar. Ele deve incentivar a participação cívica e o envolvimento dos alunos nas decisões que afetam seu aprendizado, por exemplo.

Para Ana Sofia Carneiro, 14, uma das candidatas à líder de sala no 9º ano, o desenvolvimento do protagonismo é o grande responsável pela forma como consegue se posicionar em relação a diversas situações cotidianas. Ela observa como essa cultura escolar vem se ampliando. “Durante o período de provas, quando alguém domina um conteúdo que outro não entende, vejo os alunos se ajudando mutuamente, explicando conceitos e oferecendo apoio”, conta.

“Esses gestos de solidariedade fortalecem nossos laços de amizade e criam um ambiente de aprendizado mais colaborativo e inclusivo.” Ana Sofia Carneiro, aluna do 9º ano

A orientadora educacional da instituição, Layres Loiola, conta que o protagonismo juvenil está ajudando inclusive a reduzir os casos de bullying na escola. Isso porque os alunos compreendem que são figuras ativas para prevenir e combater a prática. “Eles cultivam uma cultura de paz e comunicação respeitosa entre si, o que é essencial para manter um ambiente seguro e acolhedor na sala de aula.”

Já o espaço Ekoa priorizou a organização de um período integral que não só abrange os conteúdos pedagógicos, mas também reserva tempo para “ouvir as crianças e garantir que possam desenvolver outros aspectos essenciais, como brincadeiras, crescimento emocional e construção de relacionamentos significativos”, diz Miruna Kayano Genoino.

Seguindo essa perspectiva, as crianças também podem opinar durante as rodas de conversa e as assembleias. Nessas ocasiões, a escola explica o que é regra, para que entendam de onde vêm algumas decisões que precisam ser seguidas. Então, “encorajamos as crianças a agirem por si mesmas, estimulando a reflexão sobre problemas e incentivando a compreensão das soluções.”

Fonte: NEXO JORNAL LTDA em 09/06/2024 (https://www.nexojornal.com.br)

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Oito em cada dez professores já pensaram em desistir da carreira


Dado é de pesquisa inédita divulgada pelo Instituto Semesp

Oito em cada dez professores da educação básica já pensaram em desistir da carreira. Entre os motivos estão o baixo retorno financeiro, a falta de reconhecimento profissional, a carga horária excessiva e a falta de interesse dos alunos. Os dados são da pesquisa inédita Perfil e Desafios dos Professores da Educação Básica no Brasil, divulgada nesta quarta-feira (8), pelo Instituto Semesp.

A pesquisa foi realizada entre 18 e 31 de março de 2024, com 444 docentes das redes pública e privada, do ensino infantil ao médio, de todas as regiões do país. Os dados mostram que 79,4% dos professores entrevistados já pensaram em desistir da carreira de docente. Em relação ao futuro profissional, 67,6% se sentem inseguros, desanimados e frustrados.

Entre os principais desafios citados pelos professores estão: falta de valorização e estímulo da carreira (74,8%), falta de disciplina e interesse dos alunos (62,8%), falta de apoio e reconhecimento da sociedade (61,3%) e falta de envolvimento e participação das famílias dos alunos (59%).

Segundo os dados da pesquisa, mais da metade dos respondentes (52,3%) diz já ter passado por algum tipo de violência enquanto desempenhava sua atividade como professor. As violências mais relatadas são agressão verbal (46,2%), intimidação (23,1%) e assédio moral (17,1%). São citados também racismo e injúria racial, violência de gênero e até mesmo ameaças de agressão e de morte. A violência é praticada principalmente por alunos (44,3%), alunos e responsáveis (23%) e funcionários da escola (16,1%).

Apesar disso, a pesquisa mostra que a maioria (53,6%) dos professores da educação básica está satisfeita ou muito satisfeita com a carreira. Os professores apontam como motivos para continuar nas salas de aula, principalmente, o interesse em ensinar e compartilhar conhecimento (59,7%), a satisfação de ver o progresso dos alunos (35,4%) e a própria vocação (30,9%).

“Apesar de todos os problemas é o que eu gosto de fazer e tenho maior capacidade”, diz um dos professores entrevistados, cujo nome não foi revelado. “A paixão pelo processo de ensinar e aprender, contribuindo para a evolução das pessoas”, aponta outro, que também não foi identificado.

Para Lúcia Teixeira, presidente do Semesp, entidade que representa mantenedoras de ensino superior no Brasil, esses dados são importantes porque mostram o que motiva os professores. “Ele fala da sua vocação. Fala do interesse em ensinar, da satisfação de ver o progresso do aluno. São fatores que estão interligados. Tanto a vocação como o interesse em compartilhar o conhecimento e a satisfação de ver o progresso do aluno. Esse é um dado muito importante em termos do perfil daquele que escolhe ser professor”, destaca

Licenciaturas

A pesquisa Perfil e Desafios dos Professores da Educação Básica no Brasil faz parte da 14ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil, que reúne dados oficiais e coletados pelo Instituto Semesp para traçar o cenário atual do setor educacional no país. Esta edição tem como foco principal Cursos de Licenciaturas: Cenários e Perspectivas.

De acordo com a publicação, o Brasil tem 9,44 milhões de estudantes matriculados no ensino superior. A maioria deles está em instituições privadas (78%). Por lei, pelo Plano Nacional de Educação (PNE), até 2024, o país deveria ter 33% dos jovens de 18 a 24 anos matriculados no ensino superior. Até 2022, essa taxa era 18,9%.

Atualmente, 17% dos alunos do ensino superior cursam alguma licenciatura, o que equivale 1,67 milhões de universitários. Pedagogia aparece como 17° curso com mais estudantes nos cursos presenciais diurnos e como o primeiro curso com mais estudantes em ensino a distância (EAD).

Apesar do grande número de estudantes, os dados mostram que as desistências nesses cursos são altas. Cerca de 60% dos estudantes de licenciaturas na rede privada e 40% dos estudantes da rede pública desistem da formação. Entre os mais jovens, apenas 6,6% dos entrevistados pelo Instituto Semesp têm interesse em cursar cursos da área de educação.

“Nós pensamos que é necessário repensar também o modelo de oferta dos cursos de licenciatura, com essa campanha que estamos fazendo para atrair os jovens para os cursos de licenciatura. Os currículos têm que ter mais prática e mais capacitação para esse uso de tecnologia, a necessidade de financiamento das mensalidades, porque a maioria dos que vão para o curso de licenciatura é de uma classe social mais baixa e, por isso, a necessidade de uma bolsa permanência para o aluno não evadir e não precisar trabalhar”, defende Lúcia Teixeira.

Formação a distância

Recentemente, as altas taxas de matrícula em cursos a distância e a preocupação com a qualidade da formação dos estudantes, especialmente dos futuros professores, levaram o Ministério da Educação (MEC) a buscar uma revisão do marco regulatório da modalidade.

Para o diretor executivo do Semesp, Rodrigo Capelato, a formação presencial pode não ser a única solução. Ele defende uma revisão da avaliação dos cursos. Ainda que seja na modalidade a distância, ele ressalta que os cursos de formação de professores preveem uma carga horária presencial, em estágios, por exemplo.

“Eu acho que o que precisa é melhorar a avaliação dessa presencialidade. Se eu tenho obrigatoriedade de estágios e esses estágios não são cumpridos ou são muito ruins, aí eu tenho um problema. Se é ruim e eu só aumento a carga [horária presencial], eu só vou aumentar a ruindade. Então, eu acho que, primeiro, antes de discutir mais carga presencial ou menos carga presencial, não estou falando que a gente defende ou não defende, mas eu acho que é preciso melhorar esse monitoramento do presencial”, diz.

A pesquisa feita com os docentes pelo Instituto Semesp mostra que 50,1% dos respondentes discordam parcial ou totalmente da afirmação de que o ensino a distância não é adequado. Além disso, para 55,7% dos entrevistados, os cursos de licenciatura devem ser ofertados apenas na modalidade presencial.

Fonte: Agência Brasil em 08/05/2024.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Cai percentual de estudantes que frequentam série escolar adequada


Dados da Pnad Contínua mostram que taxas ficaram abaixo da meta

As parcelas de estudantes que frequentam um ciclo escolar adequado para a sua faixa etária ficaram, em 2023, abaixo das metas estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação (PNE). A constatação é de dados de um volume especial sobre educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgado nesta sexta-feira (22), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O percentual de estudantes com 6 a 14 anos frequentando o ensino fundamental, etapa escolar adequada para esta faixa etária, ficou em 94,6% em 2023, uma queda em relação a 2022 (95,2%). É também a menor taxa desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2016.

Apesar de a meta de 95% ter como horizonte o ano de 2024, e, portanto, ainda ser possível voltar a superá-la no prazo previsto, essa foi a primeira vez que o indicador ficou abaixo deste índice, desde 2016.

O total de crianças nessa faixa etária frequentando a escola em 2023 era maior do que os 94,6%, chegando a 99,4%, o que mostra que algumas crianças com mais de 5 anos ainda estariam na pré-escola.

Segundo o IBGE, em 2022 já havia tido uma queda da taxa de crianças de 6 a 14 anos no ensino fundamental em relação a 2019 (97,1%).

“O que a gente percebeu, lá em 2022, com a pandemia, em 2020 e 2021, houve uma dificuldade de as crianças menores consolidarem um momento tão importante que é a alfabetização. Para os adolescentes, a adaptação ao ensino remoto foi mais fácil do que para uma criança de 6 anos se inserir num processo de alfabetização por meio de plataformas digitais. Então essa criança que deveria estar ingressando no ensino fundamental continuava represada na pré-escola”, explica a pesquisadora do IBGE Adriana Beringuy.

Ensino médio

A frequência escolar de jovens de 15 a 17 anos ficou em 91,9% em 2023, abaixo dos 92,2% de 2022. Essa foi a primeira queda desde 2016. O percentual desses jovens no ensino médio, etapa escolar adequada para esta faixa etária, despenca para 75%, também abaixo do índice de 2022 (75,2%).

Os dois indicadores estão abaixo dos índices de meta do PNE: universalização da escolarização dessa faixa etária até 2016 e 85% dos jovens nessa faixa etária cursando o ensino médio até 2024.

A Região Norte tinha a menor taxa de jovens nessa faixa etária frequentando o ensino médio (65,9%) e também apresentou a queda mais significativa em relação a 2022, quando a taxa era de 68,1%.

No grupo etário de 14 a 29 anos, 9 milhões não completaram o ensino médio, seja por terem abandonado a escola antes do término desta etapa ou por nunca a terem frequentado.

Entre os principais motivos para abandono da escola antes da conclusão do ensino médio, destacavam-se, entre os homens: necessidade de trabalhar (53,4%) e não ter interesse de estudar (25,5%). Para as mulheres, os principais motivos são a necessidade de trabalhar (25,5%), gravidez (23,1%) e não ter interesse em estudar (20,7%).

A necessidade de realizar afazeres domésticos ou cuidar de pessoas é motivo para 9,5% dos abandonos escolares das mulheres, enquanto que, para os homens, o percentual era de apenas 0,8%.

Educação infantil

Outro indicador que ainda não atingiu a meta do PNE é o percentual de crianças com até 5 anos frequentando a creche ou pré-escola. De acordo com a Pnad Contínua, o percentual com 4 e 5 anos frequentando a educação infantil subiu de 91,5% de 2022 para 92,9% em 2023, ainda sem atingir, portanto, a meta de universalização prevista pela PNE. “Ainda estaríamos 7 pontos percentuais distantes da meta, embora venham ocorrendo avanços”, destaca Adriana.

Já o percentual de crianças com até 3 anos frequentando a educação infantil subiu de 36% em 2022 para 38,7% em 2023, mas continuava bem abaixo da meta de 50%, que precisa ser atingida até 2024.

Separando-se por faixa etária, de 2 a 3 anos, o percentual de frequência ficou acima da meta (58,5%). Para os menores de 2 anos, no entanto, a parcela era de apenas 16,3%.

O principal motivo para que crianças até 3 anos de idade não frequentassem a creche, em 2023, era por opção dos pais ou responsáveis (60,7%). No entanto, em 33,5% dos casos, o motivo era a inexistência de creche, falta de vagas ou não aceitação da criança por conta da idade.

Para as crianças com 2 a 3 anos, a falta de creches ou vagas tinha um papel ainda mais importante para mantê-las fora da educação infantil, com 38,5% dos entrevistados apontando essa questão.

Analfabetismo

Já a taxa de analfabetismo atingiu, em 2023, o menor valor da série iniciada em 2016: 5,4%, abaixo dos 5,7% de 2022. Nesse caso, a meta da PNE (taxa abaixo de 6,5% a partir de 2015) já havia sido atingida em 2017.

A taxa era maior no Nordeste: 11,2%, mais que o dobro da média nacional. Em 2022, o percentual havia ficado em 11,7%.

Em números absolutos, eram 9,3 milhões de analfabetos no país, em 2023. A grande parte, no entanto, estava entre aqueles com 60 anos ou mais de idade. Para esta faixa etária, a taxa de analfabetismo chegava a 15,4%.

Escolaridade

A média de anos de estudo do brasileiro com 25 anos ou mais ficou em 9,9 anos, em 2023, a mesma de 2022, mas acima da de 2019 (9,6 anos). Aqueles que concluíram pelo menos o ensino médio chegavam a 54,5% da população, acima dos 53,2% de 2022 e dos 50% de 2019.

A parcela dos brasileiros com 25 anos ou mais com ensino superior completo somavam 19,7%, taxa superior aos 19,2% de 2022 e dos 17,5% de 2019. Já aqueles sem instrução eram 6% da população, o mesmo percentual desde 2019.

Fonte: Agência Brasil em 22/03/2024.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Como escrita à mão beneficia o cérebro e ganha nova chance em escolas


A partir de 2024, crianças do primeiro ao sexto ano de escolas públicas da Califórnia (EUA) estão novamente tendo de aprender a escrever em letra cursiva

Essa escrita à mão havia saído do currículo californiano em 2010, mas agora está de volta — movimento semelhante ao que ocorre em mais de 20 Estados americanos, em diferentes graus.

A escrita cursiva — em que se escreve em uma letra parecida à itálica, sem necessariamente tirar o lápis do caderno — chegou a ser vista como uma técnica moribunda nos EUA.

Agora, a decisão na Califórnia reacende debates educacionais e científicos a respeito do valor da escrita à mão, bem como dos benefícios ao cérebro e das implicações globais se essa técnica acabar caindo no esquecimento.

Karin James, professora de Ciências Cerebrais e Psicológicas na Universidade de Indiana (EUA), aplica suas pesquisas em crianças de 4 a 6 anos.

Ela identificou que aprender as letras por meio da escrita à mão ativa redes do cérebro que não são ativadas pela digitação num teclado. Isso inclui áreas cerebrais que têm papel crucial no desenvolvimento da leitura.

Outra pesquisa, de autoria de Virginia Berninger (Universidade de Washington), também mostrou que a escrita cursiva, os materiais impressos e a digitação usam funções cerebrais relacionadas, porém diferentes.

Além disso, no caso da digitação em teclado, os movimentos do dedo são os mesmos para qualquer tecla de letra. Como consequência, se apenas aprenderem a digitar, as crianças perderão a chance de desenvolver habilidades obtidas ao compreenderem e dominarem a capacidade de escrever.

Um pequeno estudo italiano aponta que o ensino da cursiva a alunos de primeiro ano podem melhorar as habilidades de leitura.

A despeito disso, o ensino da letra cursiva para crianças pequenas vinha se tornando mais raro. Em vários países, essa técnica não é mais obrigatória.

Nos EUA, embora o ensino da cursiva esteja voltando à luz, ele não é padronizado — o que traz desafios aos professores.

"Mais de 20 Estados acrescentaram a suas diretrizes educacionais a exigência da escrita cursiva entre o 3° e o 5° anos", explica Kathleen S. Wright, fundadora e diretora-executiva do Colaborativo de Escrita à Mão, organização que ensina boas práticas nessa área. "Mas essa exigência não é imposta nem recebe financiamento, então o ensino da escrita à mão não é endereçado de forma consistente."

Dessa forma, professores californianos terão agora de descobrir como integrar a cursiva a suas aulas.

Mesmo assim, a iniciativa do Estado é vista como benéfica, num momento pós-pandemia em que se buscam formas de ensinar habilidades que reduzam a dependência das telas entre crianças.

"Temos visto cada vez mais pais reclamando que seus filhos estão tendo dificuldades na escola, que não foram ensinados a escrever porque usam principalmente computadores e outros aparelhos", diz Kelsey Voltz-Poremba, professora-assistente de terapia ocupacional da Universidade de Pittsburgh (EUA).

A escrita cursiva ainda é amplamente ensinada na Europa Ocidental, em particular em países como Reino Unido, Espanha, Itália, Portugal e França.

Já a Finlândia pôs fim à exigência da escrita cursiva de suas escolas em 2016.

O Canadá tentou descartar a escrita cursiva, mas voltou a ensiná-la em 2023. O Ministério de Educação da província de Ontário restabeleceu a exigência da escrita cursiva e agora está virando uma espécie de laboratório para outras regiões que tentam entender quais as melhores práticas para esse ensino, quanto tempo devem durar as aulas e com qual frequência essa técnica deve ser ensinada.

Em meio a tantas diferenças globais, as pesquisas ressaltam que não há lado negativo em aprender letra cursiva. E embora a ligação entre escrever à mão e melhorar a leitura não sejam necessariamente causais, alguns educadores temem que o abandono da letra cursiva pode piorar o desempenho de alunos em sua capacidade de ler textos.

Além disso, o mero ato de escrever ajuda a memória e o aprendizado de palavras.

"É importante achar um equilíbrio para garantir que os alunos tenham habilidades que sejam obtidas sem o uso da tecnologia", opina a especialista Voltz-Poremba.

Fonte: BBC News Brasil em 29/01/2024.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Brasil não avança na meta de universalização da educação infantil


Informação consta da Síntese de Indicadores Sociais 2023 do IBGE

Entre 2019 e 2022, o Brasil não avançou na meta de universalização da educação infantil. A frequência escolar das crianças com 4 e 5 anos de idade - início da obrigatoriedade da educação básica - recuou 1,2 ponto percentual no período, passando de 92,7% para 91,5%.

É o que aponta a Síntese de Indicadores Sociais 2023: uma análise das condições de vida da população brasileira, divulgada no dia 6/12 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O acesso à creche das crianças de 0 a 3 anos manteve-se estável, estatisticamente, de 2019 a 2022 (de 35,5% para 36%), interrompendo a expansão na cobertura de oferta de ensino, para essa faixa etária, verificada no período anterior a 2019.

“Esses resultados indicam que a pandemia do novo coronavírus causou um retrocesso na garantia de acesso à escola, que não havia sido revertido em 2022, mais de dois anos depois dos primeiros casos de covid-19 no Brasil”, diz IBGE.

Como consequência, o país não avançou no cumprimento da Meta 1 do Plano Nacional de Educação (PNE), no período de 2019 a 2022, que estabelece como objetivo, a ser alcançado até 2024, a universalização da educação infantil na pré-escola para as crianças de 4 a 5 anos de idade e o atendimento de, no mínimo, 50% das crianças de até 3 anos.

As regiões Norte e Nordeste concentraram as retrações na frequência escolar das crianças de 4 a 5 anos de idade, passando de 86,1% para 82,8% e de 95,6% para 93,6%, respectivamente, de 2019 a 2022. As demais grandes regiões não experimentam variação significativa em seus percentuais.

Os principais motivos apresentados para não frequentar instituição de ensino no grupo das crianças de 4 a 5 anos de idade mudaram de composição entre 2019 e 2022. Houve redução no percentual que não frequentava escola por opção dos pais ou responsáveis, motivo mais frequente, que passou a representar 39,8% dos casos, em 2022, comparado a 48,5%, em 2019.

Essa queda levou ao aumento percentual dos demais motivos, incluindo o índice daqueles que não frequentavam escola por falhas na oferta de educação básica obrigatória, tais como: falta de vagas; falta de escolas; distância excessiva ou insegurança da escola; e condições financeiras insuficientes dos pais ou responsáveis para manter a criança na escola, como falta de dinheiro para pagar mensalidade, transporte, material escolar etc. Somados, esses motivos passaram de 44,4% (19,5% por falta de vaga somado a 24,9% dos demais), em 2019, para 47,5% (20,8% por falta de vaga somado a 26,7% dos demais), em 2022.

O principal motivo, com maior aumento em sua proporção entre 2019 e 2022, foi a categoria outro motivo, que dobrou de 4,2% para 8,8%, em 2022, provavelmente fruto de razões relacionadas à pandemia de covid-19.

A frequência escolar na etapa adequada das crianças de 6 anos, que deveriam ter ingressado no ensino fundamental, caiu de 81,8% em 2019 para 69% em 2022.

O percentual de crianças consideradas alfabetizadas no 2º ano do ensino fundamental recuou dos 60,3% em 2019 para 43,6% em 2021.

A proporção de brasileiros com 25 a 64 anos de idade que não concluíram a educação básica obrigatória (41,5%), isto é, o ensino médio, é mais que o dobro da média de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 20,1%.

Em 2022, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), a taxa de analfabetismo da população com 15 anos ou mais era de 5,6%, representando uma queda de 0,5 ponto percentual em relação ao dado verificado em 2019 (6,1%). Essa redução gradual é esperada, uma vez que os analfabetos se concentram nas faixas etárias mais velhas, e a taxa de analfabetismo entre os mais jovens (de 15 a 19 anos) já se encontrava abaixo de 1%, em 2016.

Fonte Agência Brasil em 06/12/2023

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Crianças cuidando de crianças, por José Carlos Sturza de Moraes*

Uma das pautas prioritárias das gestões estaduais e federal, recém-eleitas, é a Educação – tema foi recorrente na maioria dos governos municipais no pleito realizado há dois anos. É prioridade de inícios de mandato porque, em regra, não é prioridade de Estado real. Apesar de tratar-se de um direito previsto na Constituição Federal, a Política de Educação não tem sido bem encaminhada pelos governos.

Além disso, a Educação não é uma ilha e depende de fatores externos às políticas educacionais. O rendimento escolar, muitas vezes, também está ligado ao contexto socioeconômico dos estudantes e de seus familiares. As classes C, D e E, por exemplo, enfrentam o tema absurdo e persistente de crianças e adolescentes cuidando de outras pessoas da família, normalmente irmãos mais novos, em vez de focar sua atenção aos estudos.

Pesquisa publicada pelo UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), realizada em agosto de 2022 e que ouviu 1.100 meninas e meninos de 11 a 19 anos de todas as regiões do Brasil, constatou que 11% não haviam voltado às escolas após o isolamento social provocado pela pandemia. O dado representa uma evasão escolar de mais de dois milhões de estudantes no país. Entre as causas apontadas pelos ex-alunos, 28% destacaram o fato de terem que cuidar de familiares em suas casas. Dos 21% que seguiram estudando, mas que pensaram em desistir da escola nos três meses anteriores à pesquisa, 19% trouxeram este mesmo motivo.

A falta de creches e pré-escolas e de ensino em turno integral, especialmente para estudantes dos anos iniciais do Ensino Fundamental, explica a maior parte dessa realidade preocupante. Um misto de exploração do trabalho infantojuvenil “invisibilizado”, aliado à fragilização do cuidado familiar, por vezes expondo crianças a ações arbitrárias das agências de proteção, como a retirada de crianças de suas famílias por negligência ou abandono, mesmo sendo essa negligência claramente do Estado e não das famílias. Também as crianças estão expostas a riscos de acidentes e negligências diversas, em vez de usufruírem do direito constitucional à Educação.

Perante essa realidade, é impossível se pensar no Direito à Educação sem o apoio às famílias em maior situação de vulnerabilidade. Ainda mais quando essa vulnerabilidade tem relação direta com o não atendimento adequado da própria Política Pública de Educação como é o caso da falta de vagas na Educação Infantil, tanto de creches quanto de pré-escolas, e da baixa oferta de turno integral nas escolas brasileiras.


José Carlos Sturza de Moraes é cientista social, mestre em Educação e atualmente coordena o Instituto Bem Cuidar (IBC), uma iniciativa da Aldeias Infantis SOS.

** Articulando esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do coletivo de educadores.




terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Governo sanciona lei da Política Nacional de Educação Digital

O Brasil terá Política Nacional de Educação Digital (Pned) para garantir o acesso, sobretudo das populações mais vulneráveis, a recursos, ferramentas e práticas digitais. O Pned, aprovado pelo Congresso Nacional no ano passado, foi sancionado quarta-feira (11) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicado no Diário Oficial da União.

O objetivo da Pned, conforme o texto da lei, é articular os programas, projetos e ações de municípios, estados, Distrito Federal e União, de diferentes áreas e setores governamentais, para potencializar e melhorar os resultados dessas políticas públicas.

A Pned tem quatro eixos de atuação, cada um com ações específicas: a inclusão digital, a educação digital escolar, a capacitação e especialização digital e a pesquisa e desenvolvimento em tecnologias da informação e comunicação.

Entre as ações previstas estão o treinamento de competências digitais, midiáticas e informacionais e a conscientização a respeito dos direitos sobre o uso e o tratamento de dados pessoais. Está prevista também a promoção da conectividade segura e da proteção dos dados da população mais vulnerável, em especial de crianças e adolescentes.

Recursos

Os recursos para a execução da política virão de dotações orçamentárias da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios; de doações públicas ou privadas; do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações, a partir de 1º de janeiro de 2025; e do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações.

A lei prevê que ainda que, para a implementação da Política Nacional de Educação Digital, poderão ser firmados convênios, termos de compromisso, acordos de cooperação, termos de execução descentralizada, ajustes ou instrumentos congêneres com órgãos e entidades da administração pública federal, estadual, distrital e municipal, bem como com entidades privadas, nos termos de regulamentação específica.

Vetos

A lei sancionada recebeu três vetos, a pedido do Ministério da Educação (MEC), que serão analisados em sessão do Congresso Nacional. Um dos vetos é ao inciso que previa que a educação digital, com foco no letramento digital e no ensino de computação, programação, robótica e outras competências digitais, fosse componente curricular do ensino fundamental e do ensino médio. Segundo o governo, o veto ocorreu porque, para fazer parte do currículo escolar, os conteúdos precisam passar pela aprovação do Conselho Nacional de Educação e do MEC.

Outro veto foi a trecho que previa que o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) priorizasse os programas de imersão de curta duração em técnicas e linguagens computacionais. Para o governo, no entanto, a prioridade não é necessária, uma vez que não há qualquer impedimento ao financiamento desses cursos pelo Fies.

O terceiro veto diz respeito à definição do que é livro, algo que, com os novos formatos e novas tecnologias, está sendo discutido em um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional.

Pandemia

O projeto que cria a Pned teve origem na Câmara dos Deputados, em setembro de 2020, em meio a pandemia de covid-19, e é de autoria da deputada Angela Amin (PP-SC).

“A apresentação do presente projeto de lei está relacionada à verdadeira revolução que as tecnologias digitais estão provocando em nossa sociedade, que foram evidenciadas de forma explícita pela pandemia do covid-19, em todos os setores da atividade humana e, particularmente, na educação. As crianças hoje nascem, crescem e vivem em um mundo onde as tecnologias digitais são onipresentes”, justifica a deputada.

De acordo com a parlamentar, a intenção é instituir uma política de educação digital abrangente, que resulte em benefícios difusos para toda a sociedade brasileira.

Fonte: Agência Brasil em 12/01/2023.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Educadora do CEUB propõe medidas para fortalecer o ensino básico no Brasil

Docente sugere a implementação de métodos que garantam a educação de qualidade

Em 14 de novembro foi comemorado o Dia Nacional da Alfabetização no Brasil. De acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil 14.194.397 milhões de adultos não foram alfabetizados. Desde 2018, a taxa de analfabetismo aumentou em cerca de 3 milhões. A docente do curso de Pedagogia do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Ana Gabriella Sardinha, comenta a importância da data e alternativas para aumentar o desempenho da educação básica no país.

Segundo a pedagoga do CEUB, a alfabetização é a base da educação e a data é um momento para educadores e governantes refletirem sobre o analfabetismo e a importância da alfabetização para o desenvolvimento social e econômico mundial. “A alfabetização de adultos e idosos amplia as oportunidades, sejam elas educacionais ou profissionais. Amplia as possibilidades de se viver em sociedade com autonomia e liberdade. Quem não lê espera ajuda!”, destaca.

Sobre o acesso ao ensino básico de qualidade no país, Ana Gabriella explica que, no Brasil, o conceito qualitativo se divide em sete dimensões: ambiente educativo, prática pedagógica, avaliação, gestão escolar democrática, formação e condições de trabalho dos profissionais da escola, espaço físico escolar e, por fim, acesso, permanência e sucesso na escola. “Tendo estes parâmetros como referência e os planos municipais, cabe dizer que ainda não estamos com bons resultados nos índices nacionais e internacionais, mas já conseguimos organizar e corrigir nossas rotas,” explica a educadora.

No combate às desigualdades sociais e educacionais, Ana Gabriella defende a necessidade de levar a educação para aqueles que não tiveram acesso, mas atender também com prioridade as classes populares, os pardos e negros, as mulheres, o idosos e os que passam por privação de liberdade.

Analfabetismo funcional

Outro desafio enfrentado na educação brasileira é o analfabetismo funcional. A escala de alfabetismo do Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF) se subdivide em 5 níveis: analfabeto, rudimentar, elementar, intermediário e proficiente. Dentro dessa escala, é classificado como analfabeto funcional aquele que faz parte do nível analfabeto e rudimentar.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), 29% da população brasileira apresenta algum nível de analfabetismo funcional. Ana Gabriella Sardinha sugere a implementação de métodos e técnicas que façam todos alcançarem o domínio da leitura, ampliando o acesso aos gêneros textuais.

A professora sugere ainda iniciativas de informação e busca ativa, para que cada estudante possa ser acolhido em instituições de ensino próximas às suas residências ou trabalho. Ela destaca a dificuldade do processo de matrículas pelos não alfabetizados e a escassez de transporte público em regiões de baixo IDH. “Muitas vezes aquela visita porta a porta feita pelos professores, aviso na rádio comunitária ou o carro de som tem mais alcance. A formação de professores também é um desses pilares, mas precisamos fortalecer a formação inicial e ampliar a formação continuada para atender as demandas atuais e futuras”, finaliza.

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